Soluções naturais reduzem até 40% do stress térmico, mas não chegam para travar as ilhas de calor nas cidades

Investigação realizada em Lisboa e Islamabad conclui que árvores, água e solos permeáveis aliviam temperaturas extremas, embora os efeitos permaneçam circunscritos às zonas intervencionadas e sejam insuficientes diante do aquecimento futuro.

Soluções naturais ajudam a arrefecer a cidade, mas a adaptação real em cidades como Lisboa exige mudanças estruturais e cortes radicais nas emissões de poluentes. Foto: Pedro Grão via Pixabay
Soluções naturais ajudam a arrefecer a cidade, mas a adaptação real em cidades como Lisboa exige mudanças estruturais e cortes radicais nas emissões de poluentes. Foto: Pedro Grão via Pixabay

Lisboa pode ganhar algumas décimas de alívio durante as ondas de calor com mais árvores, solos permeáveis e espaços com fontes, lagos e espelhos de água. Ainda assim, essas medidas terão alcance limitado diante do aumento das temperaturas previsto para as próximas décadas.

Esta é a advertência de um novo estudo internacional que escrutinou estratégias de adaptação climática nas áreas metropolitanas de Lisboa e de Islamabad, capital do Paquistão.

A investigação contou com o contributo de especialistas da Universidade de Lisboa para avaliar o impacto de diferentes soluções baseadas na natureza. O conceito inclui intervenções como o reforço da mancha arbórea, a criação de áreas verdes, a recuperação de solos capazes de absorver água e a integração de elementos hídricos no espaço urbano.

Medições de alta precisão

Ao usar modelação climática urbana de alta resolução, o estudo assume especial relevância, investigando o que realmente funciona – e até onde funciona – na adaptação ao calor urbano.

A remoção estratégica do asfalto e do cimento é vital para as cidades combaterem as ilhas de calor. Foto: donterase via Pixabay
A remoção estratégica do asfalto e do cimento é vital para as cidades combaterem as ilhas de calor. Foto: donterase via Pixabay

A equipa reuniu especialistas europeus e asiáticos que recorreram ao modelo climático UrbClim, capaz de simular condições térmicas à escala do metro. A metodologia incluiu ainda o sistema CLIMADA para medir os efeitos na exposição a temperaturas elevadas, no desconforto térmico e até na perda de sono.

Queda abrupta de stress térmico

Os resultados revelaram progressos significativos em zonas diretamente intervencionadas. Em alguns casos, os dias de stress térmico diminuíram até 40%. Durante o período diurno, as árvores de grande porte demonstraram maior capacidade de reduzir a temperatura e a radiação solar direta.

Já nas horas noturnas, o efeito mais expressivo surgiu da remoção de superfícies impermeáveis, como asfalto ou cimento excessivo, permitindo ao solo urbanizado reter menos calor ao longo do dia.

A diferença entre dia e noite tornou-se uma das dimensões mais importantes do estudo. Enquanto a sombra ajuda a aliviar a exposição solar nas ruas e praças, a redução do calor noturno depende, sobretudo, da capacidade do solo de respirar e dissipar energia térmica.

Esse ponto ganha especial relevância em geografias mediterrânicas, onde as noites tropicais se tornaram mais frequentes e dificultam a recuperação física da população após episódios de temperaturas extremas.

Parques e jardins são soluções indispensáveis, sobretudo em cidades mediterrâneas. Foto: Jossy_Justino via Pixabay
Parques e jardins são soluções indispensáveis, sobretudo em cidades mediterrâneas. Foto: Jossy_Justino via Pixabay

Os investigadores destacam também que os benefícios destas intervenções diminuem rapidamente fora das áreas onde são aplicadas. Isso significa que, na prática, pequenas ações dispersas têm impacto reduzido à escala urbana.

Para aumentar a proteção da população, o planeamento deve concentrar esforços em bairros densamente povoados e socialmente vulneráveis, onde a exposição ao calor tende a ser maior.

Essa conclusão aproxima a adaptação climática de áreas como a saúde pública e a justiça climática. Uma rua arborizada junto de escolas, transportes ou zonas residenciais compactas pode trazer melhorias muito mais contundentes do que intervenções paisagísticas isoladas em áreas menos habitadas. O estudo defende, por isso, uma lógica de hierarquização baseada no risco humano e não apenas na disponibilidade de espaço urbano.

Para Lisboa, em particular, as conclusões reforçam prioridades já discutidas por urbanistas e especialistas em clima. Entre elas, surgem a criação de corredores de sombra, a redução de superfícies impermeáveis, a proteção térmica de escolas e lares, além da necessidade de integrar adaptação climática nas decisões de mobilidade, habitação e espaço público.

Soluções com abrangência limitada

Apesar dos efeitos positivos identificados, os autores advertem que, mesmo com expansão de infraestrutura verde e azul, as medidas analisadas apenas compensam parte do aquecimento projetado para o futuro.

Num cenário de políticas climáticas insuficientes, o aumento das temperaturas ultrapassa a capacidade de adaptação proporcionada por estas soluções.

A investigação afasta, assim, a ideia de que árvores e jardins urbanos são suficientes para resolver o problema do calor extremo nas cidades. As intervenções podem reduzir impactos, melhorar conforto térmico e diminuir riscos para a saúde, mas não substituem cortes profundos nas emissões de gases com efeito de estufa nem mudanças estruturais na forma como os territórios urbanos são desenhados e utilizados.

Referência do artigo

Niels Souverijns, Dirk Lauwaet, Tiago Capela Lourenço, Inês Gomes Marques, Fahad Saeed , Mariam Saleh Khan, Khadija Irfan, Sarantis Georgiou, Raluca Davidel, Miechel De Paep, Séverine Hermand, Chahan M. Kropf , Kam Lam Yeung, Quentin Lejeune, Inga Menke & Carl F. Schleussner. Combating heat stress through urban planning: Integrated case studies for Lisbon and Islamabad. Landscape and Urban Planning.

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