Os 330 milhões de anos do Algarvensis entraram na rede mundial de geoparques da UNESCO
A distinção internacional coloca o sul português no centro científico e turístico, valorizando paisagens moldadas por forças antigas e promovendo novas formas de descobrir o Algarve além de sol e praia.

O reconhecimento do Geoparque Algarvensis como integrante da Rede Mundial de Geoparques projeta o Algarve para uma dimensão em que o tempo se mede em milhões de anos.
A decisão da UNESCO, oficializada este mês, coloca a região do Algarve ao lado de novos espaços classificados em vários continentes, reforçando uma rede que soma 213 áreas protegidas em 48 países.
Mais do que um selo institucional, a distinção confirma a relevância de um geossítio onde as rochas são autênticas páginas abertas da história do planeta. Ao longo de mais de 330 milhões de anos, o Geoparque Algarvensis guardou sinais de transformações profundas, desde movimentos tectónicos até à atividade vulcânica, passando por processos sedimentares que esculpiram paisagens e ecossistemas.
Um território onde a Terra conta a sua história
O Algarvensis estende-se por Loulé, Silves e Albufeira, cobrindo uma vasta área que liga serra, barrocal e litoral, incluindo ainda uma componente marinha de grande relevância científica.
Entre os momentos registados encontram-se vestígios da formação da Pangeia e da abertura do Atlântico, acontecimentos que redefiniram continentes e oceanos. A paisagem atual, com 2.427 km², reflete essa longa sequência de mudanças, fazendo deste ponto um testemunho vivo do património natural e humano.

Há, por isso, uma panóplia de elementos concretos que ilustram a sua história geológica. Os depósitos de tsunami na Lagoa dos Salgados preservam marcas do terramoto de 1755, como se o impacto ecoasse ainda no solo.
Os campos de lapiás e sistemas cársicos do Barrocal algarvio – visíveis em zonas como a Serra de Loulé – resultam da dissolução lenta de rochas calcárias pela água da chuva ao longo de milhões de anos, criando superfícies recortadas, fendas profundas e cavidades subterrâneas.
Entre natureza, cultura e vida quotidiana
A singularidade do geoparque, no entanto, não se esgota na geologia. Abundante em ecossistemas mediterrânicos bem preservados e num ambiente marinho diversificado, este local destaca-se pelo equilíbrio harmonioso entre a terra e o oceano. A presença humana deixou, ao mesmo tempo, marcas profundas, visíveis em monumentos megalíticos, vestígios de escrita antiga e heranças romana e islâmica.
Para a UNESCO, este cruzamento entre natureza e cultura é o que transforma o geoparque num espaço vivo, onde ciência e tradição coexistem. A geografia torna-se, assim, mais rica, permitindo compreender não apenas a evolução da Terra, mas também a adaptação das comunidades ao longo do tempo.
Um novo olhar sobre o Algarve
A integração na rede mundial surge ainda como uma resposta a desafios regionais. O Algarve é conhecido sobretudo pelo turismo balnear, concentrado no litoral e intensificado durante os meses de verão. Esse padrão criou desequilíbrios demográficos e económicos, deixando o interior mais vulnerável.
O Algarvensis propõe, portanto, um caminho alternativo. Ao valorizar o património geológico e natural, incentiva a exploração de zonas menos visitadas e promove um turismo mais distribuído ao longo do ano. A geologia passa a ser motor económico, atraindo visitantes interessados em ciência, paisagem e autenticidade.
O projeto resulta de um esforço conjunto entre autarquias, instituições públicas e privadas e academia, especialmente da Universidade do Algarve. O modelo colaborativo visou, acima de tudo, refletir uma visão que coloca as comunidades no centro, assegurando que o desenvolvimento respeita o território e a sua identidade.

Com a entrada do Algarvensis, Portugal passa a somar sete Geoparques Mundiais oficializados pela UNESCO. O percurso começou em 2006 com o Naturtejo Geopark, que abrange municípios como Castelo Branco e Idanha-a-Nova. Três anos depois, foi a vez do Arouca Geopark, conhecido principalmente pelas pedras parideiras e trilobites gigantes.
Em 2013, o reconhecimento chegou ao Geoparque dos Açores, incluindo as nove ilhas e a área marinha envolvente, seguido, em 2014, pelo Terras de Cavaleiros Geopark. Já na década seguinte, juntaram-se o Estrela Geopark, em 2020, e o Oeste Geopark, em 2024. É neste conjunto que o Algarvensis se inscreve, afirmando-se como um lugar que desafia a imagem mais imediata do Algarve e propõe uma leitura mais profunda da sua paisagem.
Referências do artigo
UNESCO names 12 new Global Geoparks. UNESCO
Geoparque Algarvensis reconhecido como Geoparque Mundial da UNESCO. Universidade do Algarve
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