Só nos primeiros 15 dias, fevereiro bateu os recordes de chuva dos últimos 47 anos

O balanço climatológico do IPMA mostra que, em grande parte do território nacional, os totais de precipitação deste mês são cerca de três vezes superiores ao padrão das últimas três décadas.

A tempestade Leonardo, na primeira semana de fevereiro, deixou a Baixa de Alcácer do Sal debaixo de água. Foto: Município de Alcácer do Sal
A tempestade Leonardo, na primeira semana de fevereiro, deixou a Baixa de Alcácer do Sal debaixo de água. Foto: Município de Alcácer do Sal

Em apenas duas semanas, fevereiro bateu múltiplos recordes. A precipitação caída nos primeiros 15 dias foi o suficiente para que este mês fosse já considerado o mais chuvoso dos últimos 47 anos e o décimo mais chuvoso desde 1931.

O mais recente balanço climatológico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) revela um total acumulado de 223,5 milímetros de precipitação (304% acima dos valores normais), o que é três vezes superior ao valor médio de referência (1991-2020).

Em grande parte do território, aliás, a precipitação acumulada varia entre três e quatro vezes o valor normal para fevereiro (300% e 400%), chegando, inclusive, a ultrapassar os 500% (ou seja, cinco vezes) em algumas localidades do Sul do país, como Mora, Lavradio e Alvalade do Sado.

E, em 12 estações da rede do IPMA, no Alentejo e no Norte, registaram-se novos extremos de precipitação: Vila Nova de Cerveira, Alvalade, Alcácer do Sal e Beja.

O comboio de tempestades que chegou em janeiro

Este início de fevereiro foi atípico por vários motivos, desde logo, com duas depressões associadas a grandes rios atmosféricos e, ainda, seguido de um janeiro que foi o mais chuvoso desde o ano de 2000.

Os dados do IPMA mostram que os últimos quatro anos foram excecionalmente chuvosos. Gráfico: IPMA
Os dados do IPMA mostram que os últimos quatro anos foram excecionalmente chuvosos. Gráfico: IPMA

O primeiro mês do ano ficou marcado pela passagem de cinco depressões (Francis, Goretti, Ingrid, Joseph e Kristin), três das quais nos últimos dez dias. Janeiro foi também considerado como “quente” pelos meteorologistas, com temperaturas acima dos valores mais normais.

Cinco depressões marcaram o primeiro mês do ano (Francis, Goretti, Ingrid, Joseph e Kristin), três das quais ocorreram nos últimos dez dias. Em grande parte do território do Centro e do Sul, os valores mensais de precipitação oscilaram entre 250% e 300% acima do normal.

Valores médios ultrapassados em mais de metade do país

Desde novembro de 2025 até 14 de fevereiro de 2026, aliás, o total acumulado de precipitação foi o dobro do valor médio, tendo sido o mais elevado desde 1931 (819,2 mm).

Mais de metade dos distritos já atingiu ou ultrapassou o valor médio anual de precipitação. O total acumulado em Faro, em especial, já excede o valor médio de um ano completo, lê-se no relatório do IPMA.

O acumulado desde 1 de outubro - que marca o início do ano hidrológico - até 15 de fevereiro é de 905,6 mm, correspondendo a 1,8 vezes o valor médio e superando o ano hidrológico de 2000/2001, até agora referência dos últimos 25 anos.

2025 marcado por chuva e temperaturas elevadas

Se este inverno já é excecionalmente chuvoso, o ano de 2025 já se tinha revelado igualmente com muita chuva. Basta recordar que foi o terceiro mais chuvoso desde 2000 e que apresentou a maior precipitação dos últimos 11 anos.

Grande parte do território registou valores entre 300% e 400% do valor normal 1991-2020, sendo mesmo superior a 500% em algumas localidades do Sul do país. Mapa: IPMA
Grande parte do território registou valores entre 300% e 400% do valor normal 1991-2020, sendo mesmo superior a 500% em algumas localidades do Sul do país. Mapa: IPMA

Mas 2025 foi também o quinto mais quente desde que há registos, com seis ondas de calor, incluindo uma com “características excecionais”, segundo o relatório do Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

O aumento da temperatura fez com que o ar retivesse mais água, ajudando a criar as condições para formar episódios tempestuosos, em que choveu muito em curtos períodos.

Solos saturados e instáveis aumentam o risco de cheias e de deslizamentos

Com a chuva abundante, a situação hidrológica de Portugal é o oposto da seca que tem marcado o país nos anos mais recentes. A precipitação acumulada é de 905,6 mm, significando quase duas vezes mais (1,8) o valor médio e superando, inclusive, o ano hidrológico de 2000-2001, que até agora foi a referência dos últimos 25 anos, realça o IPMA.

Há, portanto, uma situação generalizada de saturação dos solos, com casos de sobressaturação no Norte e no Centro, o que pode potenciar o risco de inundações e deslizamentos de terras.

A situação hidrológica atual mostra que o distrito do Porto apresenta 160% de precipitação acima do esperado, Coimbra o dobro, e Lisboa 1,8 vezes mais. No Alentejo e no Algarve, o déficit da última década foi igualmente superado, com valores agora ligeiramente acima do normal, segundo o boletim do IPMA.

Referência da notícia

Clima em Portugal Continental - precipitação 2025/2026 – Instituto Português do Mar e da Atmosfera