Recolha excecional de sementes após a tempestade Kristin acelera recuperação do Pinhal de Leiria

Árvores tombadas simplificaram um processo habitualmente lento e exigente, permitindo colmatar um défice de reflorestação crónico em Portugal.

A tempestade Kristin derrubou uma parte substancial dos povoamentos florestais do Pinhal de Leiria que sobreviveram aos incêndios de 2017 e à tempestade Leslie de 2018. Foto: Marinha Portuguesa
A tempestade Kristin derrubou uma parte substancial dos povoamentos florestais do Pinhal de Leiria que sobreviveram aos incêndios de 2017 e à tempestade Leslie de 2018. Foto: Marinha Portuguesa

A 28 de janeiro, a depressão Kristin atravessou a região de Leiria, abrindo uma ferida profunda no Pinhal de Leiria. Troncos partidos e tombados, copas no chão e extensas áreas florestais devastadas. Estima-se que mais de oito milhões de árvores tenham sido afetadas.

Agora, no epicentro da destruição, surgiu algo inesperado. A queda massiva de pinheiros criou condições excecionais para a recolha de pinhas diretamente do solo, o que é raro neste tipo de ecossistema.

Para o Centro PINUS e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, tratou-se de uma oportunidade invulgar, tendo em conta a escassez de semente de pinheiro-bravo que se regista todos os anos.

O impacto no pinhal da Marinha Grande

Na zona da Marinha Grande, onde o pinhal sofreu danos extensos, as árvores derrubadas converteram-se em fonte imediata de pinhas. Entre 21 de março e 24 de abril, foi organizada uma campanha de recolha no terreno.

Em apenas um mês de operação intensiva, as equipas conseguiram reunir cerca de 10 toneladas de pinhas. O trabalho resultou da coordenação entre o Centro PINUS e o ICNF, num esforço concentrado para aproveitar o material disponível antes da sua degradação natural.

Dessa quantidade, foi possível extrair aproximadamente 300 quilogramas de sementes, com potencial para produzir cerca de 4,08 milhões de plantas e recuperar cerca de 3.264 hectares de pinhal.

Um processo habitualmente lento e exigente

Em condições normais, a recolha de pinhas é um processo radicalmente diferente. A produção de semente de pinheiro-bravo só se torna viável quando as árvores atingem cerca de 20 anos. As pinhas são colhidas ainda fechadas, diretamente nas copas das árvores.

A recolha de pinhas, em condições normais, é realizada por equipas especializadas, num processo demorado e limitado no tempo. Foto: Centro PINUS
A recolha de pinhas, em condições normais, é realizada por equipas especializadas, num processo demorado e limitado no tempo. Foto: Centro PINUS

O trabalho é realizado por equipas especializadas que sobem aos pinheiros para cortar manualmente as pinhas maduras. A operação repete-se todos os anos, entre janeiro e maio, e exige grande esforço físico e conhecimento técnico. Cada campanha é cuidadosamente planeada, uma vez que o acesso às copas depende de condições específicas e de uma janela temporal limitada.

A escassez de escaladores de árvores, no entanto, tem vindo a criar dificuldades acrescidas. Trata-se de uma profissão exigente, com poucos profissionais disponíveis, o que compromete a regularidade e a dimensão das campanhas de recolha.

Uma resposta à escassez de semente

A operação desencadeada no rescaldo da tempestade Kristin permitiu ultrapassar, ainda que de forma pontual, algumas destas limitações. A recolha a partir do solo aumentou significativamente a eficiência do processo e respondeu a um problema estrutural na gestão das florestas.

Os volumes obtidos correspondem à média anual das últimas quatro campanhas. O resultado ganha ainda maior importância numa conjuntura em que a insuficiência de sementes florestais é um obstáculo crónico em Portugal e em vários países europeus.

Segundo estimativas do Centro PINUS, em 2023, esse défice rondava 66 por cento das necessidades de arborização com pinheiro-bravo no país. A dificuldade em garantir colheitas regulares tem sido uma das principais razões, associada à limitação de recursos humanos e operacionais.

Um contributo para o futuro do pinhal

Apesar da amplitude dos danos provocados pela tempestade Kristin, a campanha de recolha abriu uma possibilidade concreta de reforçar a capacidade de resposta do setor florestal. A disponibilidade de sementes permitirá apoiar futuras ações de arborização e contribuir para a preservação do património genético do Pinhal de Leiria.

Em três dias, as equipas do Centro PINUS e do ICNF recolheram 10 toneladas de pinha que podem vir dar origem a mais de quatro milhões de plantas. Foto: Jeremy Kyejo via Pixabay
Em três dias, as equipas do Centro PINUS e do ICNF recolheram 10 toneladas de pinha que podem vir dar origem a mais de quatro milhões de plantas. Foto: Jeremy Kyejo via Pixabay

Este resultado, para o Centro PINUS, demonstra como a articulação entre diferentes entidades pode transformar uma situação adversa num recurso útil, visando a recuperação da floresta. A destruição causada pelo vento deu origem a um conjunto de condições excecionais que, pela primeira vez em muitos anos, aceleraram um processo normalmente lento, oneroso e limitado.

No terreno, permanece a memória de um dos episódios mais destrutivos da última década para o pinhal. Ainda assim, é uma oportunidade que se abre para a regeneração florestal do país.

Referência do artigo

PINUSPRESS 68 – Newsletter do Centro PINUS

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