Projeto coverPLUS quer regenerar os solos do Alentejo com plantas e tecnologia digital

Culturas de cobertura, fertilização orgânica e modelos tridimensionais ajudam a reter água, proteger o solo e orientar decisões agrícolas.

O solo alentejano caracteriza-se por baixos teores de matéria orgânica e reduzida capacidade de retenção de água. Foto: Da Cunha/Pixabay
O solo alentejano caracteriza-se por baixos teores de matéria orgânica e reduzida capacidade de retenção de água. Foto: Da Cunha/Pixabay

Nem toda a chuva que cai no Alentejo é aproveitada pela terra. Após longos períodos de calor e falta de precipitação, o solo pode perder água rapidamente e ficar mais exposto à erosão. A ausência de matéria orgânica dificulta a retenção de humidade e nutrientes, comprometendo a fertilidade das culturas.

Regenerar estes terrenos exige, por isso, mais do que esperar pela próxima estação chuvosa.

É neste desafio que se centra o coverPLUS, um projeto da Universidade Politécnica de Portalegre que procura recuperar a qualidade dos solos agrícolas, melhorar a utilização dos recursos e aproximar a tecnologia digital das explorações.

Coordenada pelo professor Luís Alcino da Conceição, a iniciativa decorre até agosto de 2028 e dispõe de 49.025,70 euros de investimento elegível. A proposta combina práticas agrícolas de regeneração, ferramentas de monitorização e formação dirigida aos produtores.

Cobrir o solo para proteger a água

Uma das principais linhas de trabalho assenta nas culturas de cobertura. São plantas semeadas para proteger e melhorar o terreno, em vez de serem cultivadas exclusivamente para colheita. Mantêm a superfície protegida entre as culturas principais e ajudam a reduzir a exposição direta ao sol e à chuva.

As espécies foram selecionadas especificamente para a região do Alentejo, podendo as misturas combinar gramíneas, leguminosas e outras plantas adaptadas às condições locais.

A aveia, por exemplo, gera biomassa e mantém os resíduos vegetais na superfície. A ervilhaca e os trevos ajudam a fixar o azoto no solo. Já as raízes do nabo forrageiro melhoram a estrutura de solos compactados.

Que plantas podem ajudar a recuperar os solos do Alentejo?

GrupoExemplosContributo
LeguminosasTrevo-subterrâneo, ervilhaca e tremocilhaFixam azoto atmosférico, contribuindo para enriquecer o solo em nutrientes e reduzir a dependência de fertilizantes
Cereais e gramíneasAveia-preta e centeio forrageiroProduzem biomassa que protege a superfície do solo, reduz a exposição ao sol e ajuda a conservar a humidade
CrucíferasNabo forrageiro e mostarda-brancaAs raízes aliviam a compactação. A cobertura rápida do terreno também ajuda a limitar o desenvolvimento de ervas espontâneas
Fonte: DGADR/CCDR Alentejo

Estas plantas não produzem todas o mesmo efeito. É a combinação ajustada às características de cada exploração que pode trazer benefícios complementares. Ao aumentar a matéria orgânica e melhorar a estrutura física do terreno, estas práticas poderão favorecer a infiltração e a retenção de água de nutrientes.

O projeto prevê ainda estratégias de fertilização orgânica. O objetivo é melhorar a fertilidade sem depender exclusivamente de fertilizantes minerais e criar condições para que o solo responda melhor aos períodos de escassez hídrica.

Terras expostas à erosão

A necessidade destas intervenções está ligada às características de muitos solos alentejanos. Em várias zonas, são pouco espessos e apresentam baixos teores de matéria orgânica, o que limita a capacidade de armazenar água e os torna vulneráveis à erosão hídrica e eólica.

O projeto adotou a fertilização orgânica para reduzir o uso de fertilizantes minerais e aumentar a resiliência à escassez hídrica. Foto:joaoluismf/Pixabay
O projeto adotou a fertilização orgânica para reduzir o uso de fertilizantes minerais e aumentar a resiliência à escassez hídrica. Foto:joaoluismf/Pixabay

A forma como a terra é utilizada também influencia a sua conservação. A mobilização frequente deixa a superfície exposta à ação da chuva, enquanto a maquinaria pesada pode provocar compactação. A simplificação da vegetação em sistemas agrícolas demasiado uniformes reduz ainda a diversidade de habitats e de organismos vitais para a saúde do solo.

A pressão sobre os recursos hídricos torna estes problemas especialmente relevantes no Alentejo. A expansão de sistemas e culturas de regadio intensivo aumentou a necessidade de água em algumas áreas. A proteção do solo e a gestão eficiente dos recursos têm, por isso, de ser consideradas em conjunto.

As culturas de cobertura não resolvem, por si só, todos estes desafios. Podem, no entanto, integrar uma estratégia de regeneração que proteja a terra, reduza perdas e ajude a conservar a água disponível.

Gémeo digital antecipa decisões

A outra vertente do coverPLUS é tecnológica. Os investigadores estão a desenvolver um modelo tridimensional de previsão da produção agrícola baseado no conceito de gémeo digital. Trata-se de uma representação virtual de um terreno real, alimentada por dados recolhidos no campo.

Sensores e drones deverão permitir acompanhar parâmetros como a humidade e a temperatura do solo, a disponibilidade de nutrientes e o crescimento das forragens e das culturas de cobertura.

A informação é integrada num modelo que procura representar a evolução do terreno e apoiar a previsão da produção. Com estes dados, investigadores e agricultores poderão comparar cenários e avaliar as consequências prováveis de diferentes decisões. Por exemplo, estimar como a falta de chuva poderá afetar a produção de forragem ou analisar a resposta esperada à aplicação de fertilização orgânica.

Cereais e gramíneas são culturas de cobertura que ajudam a conservar a humidade do solo. Foto: AntonioFCalado/Pixabay
Cereais e gramíneas são culturas de cobertura que ajudam a conservar a humidade do solo. Foto: AntonioFCalado/Pixabay

A ferramenta visa apoiar a monitorização e o planeamento, não substituir a experiência agrícola nem eliminar a incerteza das previsões. O seu valor dependerá da qualidade dos dados, da capacidade de representar as condições reais e da utilidade dos dados na tomada de decisões.

A tecnologia no cultivo

Para que estas tecnologias tenham aplicação prática, o coverPLUS inclui um programa de capacitação digital. Estão previstas ações de formação, workshops, tecnologias acessíveis e acompanhamento técnico, com o objetivo de ajudar os produtores a utilizar informação digital na gestão quotidiana das culturas.

A preocupação é particularmente relevante para pequenas e médias explorações, onde os custos e a complexidade das novas tecnologias podem dificultar a sua adoção. A formação pretende aproximar os instrumentos de monitorização das necessidades concretas de quem trabalha a terra.

O projeto é financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do programa regional ALT2030, com uma comparticipação de 85% do investimento elegível.

Referência da notícia

Universidade Politécnica de Portalegre. Projetos em destaque.