Preço do leite à produção caiu três cêntimos e pode baixar mais. Produtores exigem apoios da PAC ao investimento
“A produção de leite em Portugal atravessa um momento cada vez mais difícil”, diz a Associação dos Produtores de Leite. O preço pago ao produtor baixou três cêntimos no início do ano e “permanecem as ameaças de novas descidas”, apesar de os custos de produção estarem a “disparar por causa da guerra”.

Os custos de produção de leite em Portugal - e na Europa - estão “a disparar por causa da guerra no Irão” e os preços que a indústria paga pelo leite à produção estão a cair. A descida já vai em três cêntimos desde o início de 2026 e há “ameaças de novas descidas”, refere a Aprolep - Associação dos Produtores de Leite de Portugal.
A situação “está agora a piorar” com o aumento dos custos de produção em consequência da guerra no Irão. “O gasóleo agrícola já sofreu uma subida de 40 cêntimos por litro e perspetivam-se novos aumentos no custo, dos fertilizantes e das rações”, avisa a Aprolep.
O problema não é, contudo, exclusivo de Portugal. Esta semana, o eurodeputado socialista André Franqueira Rodrigues alertou a Comissão Europeia para a “gravidade da crise que atravessa o setor do leite nos Açores e restante União Europeia”, sublinhando a “ausência de uma resposta concreta e atempada” a nível europeu.
Nos Açores, por exemplo, o impacto tem sido particularmente severo, com o preço pago ao produtor a descer, “em algumas ilhas, para cerca de 35 cêntimos por litro a partir de 1 de fevereiro”.
Apoios ao investimento recusados
No continente, as três cooperativas acionistas da Lactogal, o maior operador industrial a operar em Portugal, estarão a remunerar o leite a 44 cêntimos o litro. A média praticada na União Europeia é superior a 50 cêntimos por litro.
Em Portugal, e como se não bastasse a diminuição dos preços pagos pela matéria-prima à produção leiteira, os pedidos de apoios ao investimento por parte de produtores de leite em 2025 foram “quase todos recusados”, refere a Associação, em comunicado difundido nesta sexta-feira, 20 de março.
Recorde-se que o prazo de candidaturas, inicialmente previsto para dois meses, entre 28 de agosto e 28 de outubro de 2025, foi sucessivamente alargado até 9 de janeiro de 2026. Isto, justamente com o objetivo de acolher um maior número de candidaturas.

A Aprolep recorda que, desde 2022, não existia a possibilidade de apresentação de candidaturas a apoio para investimentos de nível geral no setor agrícola, com exceção da instalação de jovens agricultores, o que, segundo a Associação, “reforçou ainda mais as expectativas criadas junto dos agricultores”.
Produtores de leite "revoltados"
O problema é que “vários jovens agricultores inseridos em sociedades agrícolas que viram os seus projetos de primeira instalação anteriormente recusados estão agora a ser novamente penalizados”.
Trata-se de produtores que “investiram tempo e recursos significativos na preparação das candidaturas, pedindo orçamentos, recorrendo a serviços técnicos especializados e que assumiram encargos financeiros, confiando na existência de apoios” e que, agora, se veem confrontados com esta decisão.

De acordo com a Aprolep, os produtores de leite estão “revoltados e desanimados com esta situação” e a Associação realça que a produção de leite é “uma atividade que exige investimentos elevados apenas com retorno a longo prazo”.
Em consequência, e também devido às sucessivas crises de preço baixo ao longo das últimas décadas, os produtores de leite não conseguiram criar “as reservas necessárias para os investimentos que se impunham”.
A Associação alerta ainda para a necessidade de “apoios específicos ao setor”, nomeadamente nas áreas do bem-estar animal, modernização tecnológica dos sistemas de ordenha e proteção ambiental.
Consideram ainda que é “fundamental que o Governo corrija a situação e reforce, com urgência, a dotação financeira disponível, de forma a garantir o apoio a um maior número de projetos de investimento” no setor leiteiro.