A corrida contra o tempo para recuperar a costa portuguesa antes do início da época balnear

De norte a sul do país, as intervenções nas praias visam reparar danos estruturais que se acentuaram com as tempestades de inverno.

O enchimento das praias da Caparica, em Almada, visa não só preparar a época balnear, como também proteger os esporões e as habitações da linha de costa. Foto: APA
O enchimento das praias da Caparica, em Almada, visa não só preparar a época balnear, como também proteger os esporões e as habitações da linha de costa. Foto: APA

Desde os primeiros dias de maio, a praia do Algodio, no município de Mafra, transformou-se num autêntico teatro de operações. O movimento é incessante, com equipas de técnicos e operários num vaivém coordenado sob a supervisão da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

A empreitada, com um investimento de um milhão de euros, centra-se na aplicação de betão projetado reforçado com fibras metálicas e na instalação de pregagens profundas.

O objetivo é assegurar que as habitações situadas no cume e os acessos inferiores permaneçam seguros.

Em determinadas secções, a pedra argamassada é aplicada manualmente para garantir a integração visual na paisagem, enquanto os sistemas de drenagem são montados para prevenir futuras infiltrações.

Os trabalhos estão sob a pressão do calendário, pois a meta é devolver a normalidade ao local antes da época balneária. É uma corrida contra o tempo, não só aqui, em Algodio, mas também em mais de uma centena de zonas do litoral, afetadas pelas recentes tempestades. O inverno deixou arribas instáveis, destruiu passadiços, caminhos ou apoios de praia e encurtou o areal em várias dezenas de metros.

A transformação física da orla marítima

A norte, no litoral de Esposende, a autarquia assumiu a urgência de um plano de recuperação que inclui a substituição integral do passadiço de Apúlia. São 320 metros de estrutura que exigem uma renovação estrutural. Os técnicos instalaram ainda geocilindros e sistemas de estacaria para criar barreiras invisíveis e aumentar a resistência dunar.

Estabilização da Arriba da Bafureira reforça a falésia com redes metálicas e betão, garantindo segurança antes da época balnear. Foto: União das Freguesias de Carcavelos e Parede
Estabilização da Arriba da Bafureira reforça a falésia com redes metálicas e betão, garantindo segurança antes da época balnear. Foto: União das Freguesias de Carcavelos e Parede

Descendo pela costa, a Arriba da Bafureira, em Cascais, apresenta um desafio de engenharia complexo devido ao risco de rutura iminente. Ali, o município substituiu a administração central para garantir celeridade na execução do programa Litoral XXI.

Os trabalhos incluem desmontar blocos instáveis e preencher cavidades profundas. A utilização de redes metálicas de alta resistência surge como a solução técnica para dissipar a energia de eventuais desprendimentos rochosos, acautelando a segurança de quem circula na marginal.

A defesa das falésias do Alentejo ao Algarve

Mais abaixo, no Alentejo, a praia de Morgavel reflete a gravidade dos galgamentos costeiros que destruíram parte da Estrada Municipal 1109. Em Porto Covo, Sines, a intervenção de emergência foca-se na reconstrução de paredões e passeios marginais.

As obras integram um pacote mais vasto de 28 locais identificados com danos severos na região alentejana, onde o reforço das bases das arribas é prioritário para manter a ligação rodoviária e pedonal.

No Algarve, os trabalhos procuram um equilíbrio entre a segurança imediata e o planeamento a longo prazo. Albufeira concentra esforços nas praias da Maria Luísa e do Peneco, com o saneamento preventivo das falésias.

A natureza geológica de calcário e arenito torna estas arribas particularmente vulneráveis, obrigando a interdições temporárias em áreas onde o recuo da linha de costa foi mais pronunciado.

Durante a tempestade Kristin, os galgamentos da praia de Morgavel, em Sines, destruíram o Caminho Municipal 1109, que está agora a ser reconstruído. Foto: Município de Sines
Durante a tempestade Kristin, os galgamentos da praia de Morgavel, em Sines, destruíram o Caminho Municipal 1109, que está agora a ser reconstruído. Foto: Município de Sines

O Governo mobilizou verbas do Fundo Ambiental para acelerar as intervenções, reconhecendo que a erosão nesta região atingiu níveis preocupantes durante as tempestades de 2025 e 2026.

Areais mais largos protegem as infraestruturas

A alimentação artificial é outra estratégia que está a ser seguida em várias dezenas de praias do país. Em Portimão, entre a Rocha e o Vau, cerca de 220 mil metros cúbicos de sedimentos estão a ser depositados num troço de 1350 metros.

A barreira arenosa irá atuar como um amortecedor natural, reduzindo a força com que as ondas atingem o sopé das falésias. O investimento de dois milhões de euros nesta zona específica pretende travar o desgaste acelerado das bases rochosas.

A alimentação artificial das praias portimonenses é assumida como vital para impedir a erosão acelerada no sopé das falésias. Foto: Junta de Freguesia de Portimão
A alimentação artificial das praias portimonenses é assumida como vital para impedir a erosão acelerada no sopé das falésias. Foto: Junta de Freguesia de Portimão

Na Costa da Caparica, em Almada, decorre uma das maiores operações deste género em território nacional. Com um orçamento de quase nove milhões de euros, a deposição de um milhão de metros cúbicos de areia visa mitigar a erosão severa.

Os trabalhos avançam de norte para sul do município, implicando o encerramento faseado de zonas balneares devido à necessidade de instalar tubagens de grande dimensão. Esta intervenção é essencial não apenas para o lazer, mas principalmente para proteger os esporões e as habitações situadas na primeira linha de costa.

O planeamento de curto e médio prazo

Os trabalhos em Mafra, Sines, Almada ou Esposende são apenas uma pequena parte de uma operação muito mais vasta. A Agência Portuguesa do Ambiente identificou 147 áreas afetadas e 570 pontos danificados ao longo da costa portuguesa. A fatura total para reparar os estragos provocados pela sucessão de tempestades ascende a 84 milhões de euros, segundo o balanço mais recente da APA.

Embora boa parte das obras esteja a avançar em bom ritmo, nada está garantido. O mar de inverno é um obstáculo para algumas operações, como a colocação de areia, que começou em maio, podendo se prolongar até meados de junho.

Não é, portanto, certo que todas as intervenções em praias, acessos, arribas e apoios de praia estejam concluídas a tempo do arranque da época balnear. Nem é, aliás, intenção da Agência Portuguesa do Ambiente fazer tudo de uma assentada.

A intervenção na praia do Peneco, em Albufeira, inclui a estabilização de arribas e requalificação dos acessos. A prioridade é a consolidação do rochedo emblemático devido ao alto risco de derrocada. Foto: Município de Albufeira
A intervenção na praia do Peneco, em Albufeira, inclui a estabilização de arribas e requalificação dos acessos. A prioridade é a consolidação do rochedo emblemático devido ao alto risco de derrocada. Foto: Município de Albufeira

A estratégia está dividida em três eixos de intervenção na orla costeira, com diferentes graus de celeridade. A segurança das arribas e a recuperação das praias com o enchimento de areia são a prioridade. Seguir-se-ão os projetos planeados para o médio prazo, com estudos de impacto ambiental, que só deverão estar prontos na época balnear do próximo ano.

Referências do artigo

Estabilização da arriba da praia do Algodio – Mafra – Agência Portuguesa do Ambiente

Alimentação artificial das praias da Costa da Caparica suspensa até abril de 2026 devido ao inverno marítimo – Jornal Almadense

APA inicia empreitada de alimentação artificial das praias da Costa da Caparica e de S. João da Caparica - Agência Portuguesa do Ambiente

Estabilização de arriba da Bafureira (A45) – Câmara Municipal de Cascais

Município de Esposende avança com renovação integral do passadiço de Apúlia para reforçar segurança e acessibilidade – Câmara Municipal de Esposende

Município de Sines lança concurso de 84m€ para requalificação dos acessos às praias de Porto Covo – O Digital

Ministra do Ambiente e Energia visitou Albufeira e avaliou os impactos das mais recentes intempéries – Câmara Municipal de Albufeira

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