Portugal tem de duplicar o investimento para proteger a população dos eventos meteorológicos extremos
Análise do McKinsey Global Institute revela que o país terá de multiplicar por dez o financiamento anual até 2050 para fazer face ao risco de incêndios, cheias e secas prolongadas.

O rasto de destruição que a tempestade Kristin deixou por todo o país e, em especial, na Região Centro, mostrou como estamos vulneráveis aos eventos meteorológicos extremos.
Essa é a principal conclusão do estudo do McKinsey Global Institute. Portugal investe anualmente cerca de 171 milhões de euros em adaptação climática. Esse valor, porém, cobre menos de metade do necessário para proteger o país dos seus impactos mais severos.

Um quarto do território português já se encontra exposto a riscos elevados, como cheias fluviais, incêndios florestais ou períodos prolongados de seca. Mas apenas 22% da costa tem estruturas de defesa adequadas e só 30% das linhas elétricas estão enterradas nas áreas vulneráveis a incêndios.
| Mitigar os efeitos do calor extremo |
|---|
| Arrefecimento ativo: regulação da temperatura interior com sistemas mecânicos |
| Arrefecimento ativo: ventiladores: circulação do ar para aumentar o arrefecimento do corpo |
| Telhados brancos: materiais refletores para diminuir a absorção de calor, incluindo telhados verdes |
| Refúgios: espaços climatizados para populações vulneráveis |
| Abrigos temporários para trabalhadores ao ar livre: zonas sombreadas ou climatizadas para pausas |
| Cobertura para culturas: redes para proteger plantações da radiação solar |
| Fonte: Advancing adaptation: Mapping costs from cooling to coastal defenses |
Acelerar o investimento é, portanto, prioritário para enfrentar uma realidade que tenderá a se agravar nas próximas décadas. Os eventos meteorológicos extremos já afetam atualmente 7% da população.
Com o aquecimento global de 1,5 graus Celsius esperados para 2030, a percentagem da população exposta a riscos climáticos poderá atingir os 95%, agravando-se para 96% em 2050, num cenário de aquecimento de dois graus Celsius.
É preciso multiplicar por dez o valor anual
O investimento atual, segundo o McKinsey Global Institute, representa apenas 43% das necessidades estimadas para igualar o nosso nível de proteção aos padrões das economias mais desenvolvidas. Será preciso, como tal, multiplicar por dez o investimento anual para chegar aos 1,7 mil milhões de euros em 2050.
Cerca de 68% do financiamento teria de estar concentrado em medidas para mitigar o calor extremo e secas hidrológicas, como soluções de arrefecimento e sistemas de irrigação. Se estes custos representam atualmente 168 milhões de euros, o desejável é que, no intervalo de duas décadas, atinja os 1,3 mil milhões de euros.
| Incêndios | Secas |
|---|---|
| Enterramento de linhas elétricas: colocação de cabos subterrâneos para evitar ignições | Irrigação: sistemas otimizados como gota-a-gota ou aspersão |
| Gestão de combustível: remoção de vegetação inflamável através de queimadas controladas ou limpeza | _ |
| Fonte: Advancing adaptation: Mapping costs from cooling to coastal defenses | |
Mantendo o ritmo do investimento atual, Portugal corre o risco de cobrir somente 52% das necessidades futuras. Ainda assim, a situação portuguesa está acima da média global, que é de 33%.
Quatro milhões de habitantes expostos a riscos climáticos
No plano mundial, o diagnóstico é ainda mais preocupante. A média global de investimento é hoje de 160 mil milhões de euros por ano em adaptação climática.
Assegurar a proteção da população mundial mais vulnerável implicaria triplicar o investimento para atingir os 455 mil milhões de euros anuais.
| Inundações |
|---|
| Bacias de retenção: estruturas que retêm águas pluviais temporariamente |
| Redes de águas pluviais: tubagens e armazenamento subterrâneo para gerir escoamentos |
| Canais de drenagem para desviar a água até zonas seguras |
| Diques fluviais: barreiras ao longo de rios para evitar transbordo |
| Diques marítimos: barreiras fixas contra subida do mar e inundações costeiras |
| Proteção contra inundações: elevação ou selagem de edifícios e uso de materiais resistentes à água |
| Fonte: Advancing adaptation: Mapping costs from cooling to coastal defenses |
Com um aumento médio estimado de dois graus Celsius da temperatura média global até 2050, os valores sobem para 1,2 bilião de euros, seis vezes acima do atual investimento, sobretudo para conseguir responder ao agravamento do calor extremo e da escassez de água.

Segundo o McKinsey Global Institute, os mecanismos de adaptação ao clima vão ser uma questão de sobrevivência, sem os quais não será possível fortalecer a economia e a coesão social. A eficácia das soluções só será possível com planeamento estratégico e financiamento robusto, rematam os autores do estudo.
Referência da notícia
Avançando na adaptação: custos de mapeamento desde o resfriamento até as defesas costeiras (versão em inglês). McKinsey Global Institute