Portugal está entre os países que mais podem reduzir o aquecimento global causado pela aviação

Atlântico Norte apresenta um elevado aquecimento global ligado aos rastos de condensação do tráfego aéreo, mas estudo europeu defende que o nosso país tem um papel de prevenção estratégico.

Os rastos de condensação dos aviões provocam o aquecimento do planeta, mas é possível preveni-los e Portugal pode dar um contributo importante. Foto: Pixabay
Os rastos de condensação dos aviões provocam o aquecimento do planeta, mas é possível preveni-los e Portugal pode dar um contributo importante. Foto: Pixabay

As linhas brancas que vemos no céu, quando passa um avião, são rastos de condensação. Não são mais do que nuvens formadas pelo ar quente e húmido, que sai dos motores e entra em contacto com temperaturas muito frias, que ocorrem a grandes altitudes.

A maioria destes traços dissipa-se em minutos, mas também podem prolongar-se por horas se a atmosfera estiver muito húmida, formando nuvens artificiais responsáveis por entre 1 e 2% do aquecimento global, tanto quanto as emissões de CO2 da aviação.

A boa notícia é que bastam pequenos ajustes nas rotas de um número reduzido de voos para se obter um grande efeito na redução do impacto climático do setor.

O estudo “Gerindo a complexidade: como ampliar a prevenção de rastros de condensação na Europa?” da associação Zero, em parceria com a Federação Europeia de Transportes e Ambiente (T&E), mostra que o fenómeno é sazonal e concentrado em curtos períodos.

O impacto dos voos noturnos no inverno

Os especialistas estudaram a ocorrência deste fenómeno durante o ano de 2019, chegando à conclusão de que 75% do aquecimento causado por rastos de condensação ocorreu de janeiro a março e de outubro a dezembro, com 40% dos voos a acontecer ao final da tarde e durante a noite.

Os voos noturnos no outono e no inverno foram responsáveis por 25% do aquecimento gerado com os rastos de condensação. Esses aviões, todavia, correspondem somente a 10% do tráfego aéreo.

Significa isto que as deslocações aéreas depois do sol-posto, durante as estações frias, causam uma frequência desproporcionalmente alta dessas nuvens artificiais, tornando-as um alvo claro das políticas de prevenção.

Os rastos de condensação formam-se principalmente em regiões húmidas, contribuindo para o aquecimento global na mesma proporção que as emissões de CO2 da aviação. Fonte: T&E
Os rastos de condensação formam-se principalmente em regiões húmidas, contribuindo para o aquecimento global na mesma proporção que as emissões de CO2 da aviação. Fonte: T&E

Ao se fazerem pequenas adaptações, mudando ligeiramente rotas e horários, seria possível alcançar grandes benefícios climáticos com efeitos mínimos no tráfego aéreo.

Portugal pode vir a ser pioneiro na prevenção

Portugal, de acordo com os autores do estudo, pode vir a ter um papel central para combater este fenómeno, pois é responsável pela Região de Informação de Voo de Santa Maria, que integra uma área com elevada formação de rastos de condensação.

Segundo o estudo, o Atlântico Norte, com elevado aquecimento, tem um grande potencial de prevenção de rastos de condensação. A densidade de tráfego é baixa e os voos são de longo curso, fazendo desta região uma zona aérea prioritária para introduzir mudanças com impactos relevantes.

Os especialistas defendem que os voos noturnos durante as estações frias devem ser um alvo claro das políticas de prevenção. Fonte: T&E
Os especialistas defendem que os voos noturnos durante as estações frias devem ser um alvo claro das políticas de prevenção. Fonte: T&E

Essa medida poderia, na verdade, ter resolvido cerca de 70% do aquecimento causado por rastos de condensação na Europa em 2019. Os aviões podiam ser redirecionados tendo em conta previsões meteorológicas, exemplifica a associação ambientalista Zero.

As Regiões de Informação de Voo (RIV) do Norte e Leste da Europa, bem como do Atlântico Norte, que incluem Shanwick (Reino Unido e Irlanda), Gander (Canadá), Nova Iorque (EUA) e Santa Maria (Portugal), destacam-se pela elevada formação de rastos de condensação com forte efeito de aquecimento climático.

É precisamente nestas latitudes que Portugal pode assumir um papel de liderança na prevenção de rastos e dos seus efeitos no aquecimento global. O nosso país, segundo a Zero, deve posicionar-se como um dos estados-membros pioneiros.

Pequenos ajustes nas rotas de um número reduzido de voos no Atlântico poderiam ter um grande efeito na redução do impacto climático da aviação. Fonte: T&E
Pequenos ajustes nas rotas de um número reduzido de voos no Atlântico poderiam ter um grande efeito na redução do impacto climático da aviação. Fonte: T&E

Os ambientalistas pedem, por isso, que países como Portugal, Reino Unido, EUA ou Canadá mudem a sua abordagem, uma vez que têm sob a sua responsabilidade uma parte bastante significativa do espaço aéreo onde o impacto destes rastos gera maior aquecimento do clima.

A T&E deixa um apelo à União Europeia, ao qual a Zero se associa, para adotar medidas com vista a prevenir os rastos de condensação, desde legislação até incentivos às companhias aéreas e aos centros de controlo de tráfego aéreo.

Referência da notícia

Gerindo a complexidade: como ampliar a prevenção de rastros de condensação na Europa?” (versão em inglês) Federação Europeia de Transportes e Ambiente (T&E).