Porque é que um terramoto de magnitude 7,4 não paralisou a vida quotidiana no Japão? Eis como gerem o risco sísmico

Um terramoto de magnitude 7,4 reativou os alertas no Japão esta semana. Embora a vida tenha decorrido quase normalmente, as autoridades alertam para um aumento invulgar do risco de um possível “megaterramoto”.

Imagem da costa de Tomakomai, província de Hokkaido, Japão, após a emissão de um alerta de tsunami na sequência de um terramoto, 20 de abril de 2026. Crédito: Kyodo / via Reuters
Imagem da costa de Tomakomai, província de Hokkaido, Japão, após a emissão de um alerta de tsunami na sequência de um terramoto, 20 de abril de 2026. Crédito: Kyodo / via Reuters

Um terramoto de magnitude 7,4 abalou o Japão esta semana e desencadeou um alerta de tsunami. Mas a cena num supermercado refletia algo difícil de imaginar noutros países: os clientes mal seguravam os carrinhos quando o edifício vibrava e continuavam a fazer compras como se nada tivesse acontecido.

Horas depois, o ritmo da vida urbana tinha sido restabelecido. O metro de Tóquio estava novamente cheio e os comboios-bala voltaram a circular, mesmo em zonas próximas do epicentro.

O Japão é um dos países com maior atividade sísmica do mundo. Regista, em média, dois a três sismos por dia. Para uma grande parte da população, os tremores fazem parte da rotina.

O aviso: risco baixo, mas mais elevado do que o habitual

Apesar da aparente normalidade após o terramoto, a Agência Meteorológica do Japão emitiu um aviso invulgar: há uma maior probabilidade de ocorrência de um “megaterramoto”, ou seja, um de magnitude 8 ou superior, no nordeste do país durante a próxima semana.

Os especialistas são claros: não é possível prever os terramotos com exatidão. Apenas as probabilidades podem ser estimadas. E, neste caso, a margem de incerteza é elevada.

“A informação é extremamente incerta”, reconheceu a agência. O temido megaterramoto poderia não ocorrer... ou mesmo ocorrer fora do período de alerta.

Ainda assim, os números justificam o alerta. A probabilidade estimada aumentou de 0,1% para 1%. Pode parecer pouco, mas é um aumento de dez vezes em relação ao nível habitual.

Sistemas de alerta nascidos da tragédia

Estes avisos não surgiram do nada. Foram concebidos na sequência do devastador terramoto e tsunami de 2011, que causou a morte de mais de 19 000 pessoas e desencadeou o desastre nuclear de Fukushima.

Desde então, o Japão tem vindo a desenvolver sistemas de monitorização em zonas críticas. Um deles foi implementado em 2019 na Fossa de Nankai, no sul do país. Outro, mais recente, começou em 2022 na região nordeste, onde ocorreu o terramoto desta semana.

Não são alertas frequentes: entre os dois sistemas, apenas dois avisos semelhantes foram emitidos até agora.

Vigilância sem pânico: um equilíbrio delicado

Em cidades como Kuji, na prefeitura de Iwate, as autoridades intensificaram a comunicação sem serem alarmistas. Desde segunda-feira, têm enviado avisos três vezes por dia através da rádio, de aplicações de mensagens e de correio eletrónico.

A mensagem é clara: preparar kits de emergência e estar pronto para evacuar a qualquer momento.

“Procuramos sensibilizar a população sem provocar pânico”, explicou Teruki Maeno, responsável pela gestão de crises. Esse equilíbrio — estar alerta sem paralisar a vida — é fruto de séculos a conviver com terramotos.

Um país concebido para resistir

Os vestígios dessa adaptação estão por todo o lado. Edifícios com sistemas de absorção sísmica, comboios capazes de parar segundos antes de um tremor e gerações inteiras treinadas desde a escola com simulacros regulares.

Essa preparação explica por que razão o recente sismo deixou poucos feridos, apesar da sua magnitude. Noutro país, um evento semelhante poderia ter causado danos muito maiores.

A memória de Fukushima continua viva

A memória dessa catástrofe ainda está bem viva no nordeste do Japão. Não é apenas história: é um aviso constante.

Um ecrã de televisão mostra o alerta de tsunami emitido pela Agência Meteorológica do Japão após um terramoto preliminar de magnitude 7,4 ao largo da costa nordeste do país, em Tóquio, Japão, 20 de abril de 2026. Crédito: Issei Kato / Reuters
Um ecrã de televisão mostra o alerta de tsunami emitido pela Agência Meteorológica do Japão após um terramoto preliminar de magnitude 7,4 ao largo da costa nordeste do país, em Tóquio, Japão, 20 de abril de 2026. Crédito: Issei Kato / Reuters

“Esta região tem vivido com o risco de tsunamis desde tempos remotos”, disse Maeno. "As lições do passado são transmitidas de geração em geração".

Na segunda-feira, uma pequena onda - com menos de um metro - atingiu a costa sem causar grandes preocupações. Mas todos concordam que a reação a uma ameaça maior teria sido muito diferente. “Teria havido um pânico total”, admite o funcionário.

Informar sem paralisar

Para as autoridades, o desafio é enorme. Uma mensagem demasiado alarmista pode abrandar a economia e gerar o caos. Uma demasiado ambígua, por outro lado, corre o risco de ser ignorada.

É por esta razão que o aviso de 1% foi cuidadosamente calibrado. Procura transmitir um risco real, mas sem perturbar a vida quotidiana.

"Dizer simplesmente 'é perigoso' não leva as pessoas a agir", explicou Hiroshi Ueno, um especialista em sismos. “Os dados concretos criam mais confiança.”

No Japão, viver com a ameaça faz parte da vida. A chave não é eliminar o risco - o que é impossível - mas aprender a geri-lo sem perder a calma.

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