Parlamento Europeu aponta Gerês-Xurés como um dos territórios-chave para recriar florestas primárias
Estudo identifica a reserva transfronteiriça entre Portugal e Espanha como uma oportunidade única para devolver espaço à natureza e reforçar a resposta europeia às alterações climáticas.

Há séculos que a Europa perde, árvore após árvore, floresta após floresta, uma parte vital do seu património natural. Os grandes bosques primitivos que outrora cobriam vastas regiões do continente deram lugar a campos agrícolas, povoações, estradas e explorações florestais.
Hoje restam apenas fragmentos dessas matas antigas. Um novo estudo defende, ainda assim, que nem tudo está perdido. A solução passa por devolver espaço à natureza e permitir que volte a encontrar o seu próprio ritmo e equilíbrio.
O estudo, encomendado pelo Parlamento Europeu e elaborado pelo painel científico STOA, conclui que a criação de Novas Florestas Primárias na Europa Ocidental é não apenas possível, mas também uma medida urgente para travar a perda de biodiversidade e reforçar a capacidade dos ecossistemas para enfrentar as alterações climáticas.

Ao analisar várias regiões europeias, os investigadores identificam o território partilhado por Portugal e Espanha como um dos locais mais promissores para acolher um projeto desta dimensão. A combinação entre elevado valor ecológico, baixa densidade populacional e extensas áreas já protegidas coloca o Gerês-Xurés numa posição rara à escala europeia.
Recuperar aquilo que a Europa perdeu
Uma Nova Floresta Primária não nasce da plantação intensiva de árvores. O objetivo consiste antes em reservar grandes áreas onde a intervenção humana seja reduzida ao mínimo, permitindo que a floresta recupere gradualmente os seus processos naturais.
Ao mesmo tempo, estas florestas armazenam grandes quantidades de carbono durante longos períodos, tornando-se aliadas importantes no combate às alterações climáticas. Segundo o estudo, reservas com mais de 70 mil hectares podem ser viáveis na Europa Ocidental desde que existam condições ecológicas, sociais e políticas favoráveis.
Gerês-Xurés entre os territórios mais promissores
A Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés reúne muitas dessas características. O território integra o Parque Nacional da Peneda-Gerês, o único parque nacional português. A área protegida conserva alguns dos mais importantes vestígios de florestas antigas da Península Ibérica, dominadas pelo carvalho-alvarinho (Quercus robur) e pelo carvalho-negral (Quercus pyrenaica). Grande parte da população concentra-se nos vales, deixando extensas áreas de montanha pouco ocupadas.
Esta reorganização permitiria compatibilizar uma área totalmente dedicada à evolução natural dos ecossistemas com territórios onde continuariam a coexistir atividades humanas compatíveis com os objetivos de conservação.
Reforçar a conservação é o primeiro passo
Apesar do elevado estatuto de conservação, o Gerês-Xurés continua longe de cumprir os critérios exigidos para acolher uma verdadeira Nova Floresta Primária. O Parque Nacional da Peneda-Gerês enquadra-se, atualmente, na Categoria II da União Internacional para a Conservação da Natureza, classificação destinada aos parques nacionais.
O núcleo central da futura reserva deveria passar para a Categoria Ib, destinada às Áreas Selvagens, onde a prioridade é deixar a natureza evoluir sem interferência humana. Nessas zonas não poderia existir exploração florestal, agricultura nem ocupação permanente, reduzindo-se ao mínimo qualquer perturbação dos processos naturais. Esta seria, portanto, a diferença que faria do Gerês-Xurés uma oportunidade única para a Península Ibérica e também para a Europa.
Os desafios que Portugal e Espanha terão de resolver
Transformar esta visão em realidade exigirá, porém, decisões complexas dos dois lados da fronteira. Um dos principais obstáculos é o pastoreio contínuo de gado e cavalos nos planaltos, prática que dificulta a regeneração natural dos carvalhais e favorece a expansão de espécies menos representativas destes ecossistemas.

Outro desafio prende-se com as plantações de eucaliptos e coníferas existentes sobretudo no setor espanhol. O estudo recomenda uma substituição gradual destas árvores ao longo de cerca de três décadas, permitindo que as espécies autóctones recuperem espaço de forma sustentada.
Existe ainda a pressão rodoviária que precisaria de ser eliminada. As estradas EN 308-1, em Portugal, e OR-312, em Espanha, atravessam justamente a área proposta para proteção integral. Como estas ligações asseguram a circulação entre várias aldeias dos dois países, qualquer limitação ao trânsito obrigará a encontrar soluções alternativas capazes de responder às necessidades das populações locais.
Os investigadores reconhecem, por isso, que o sucesso do projeto dependerá tanto da qualidade ecológica do território como da capacidade de construir consensos entre administrações, proprietários, comunidades e agentes económicos.
Um laboratório natural para o futuro da conservação
Entre todas as regiões avaliadas, apenas o complexo Bayerischer Wald-Šumava, na fronteira entre Alemanha e República Checa, cumpre atualmente todos os critérios exigidos para uma Nova Floresta Primária de grande dimensão.
Para os autores, a experiência europeia demonstra que algumas décadas de gestão orientada podem acelerar significativamente a recuperação dos ecossistemas. A reversão de monoculturas florestais, a redução do pastoreio excessivo e a recuperação do equilíbrio entre herbívoros e predadores criam condições para que, mais tarde, a natureza deixe de precisar da intervenção humana.
Se essa visão vier a concretizar-se, a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés poderá transformar-se num dos mais importantes laboratórios naturais da Europa. Mais do que recuperar uma floresta, Portugal e Espanha terão a oportunidade de devolver ao continente um património ecológico que parecia perdido para sempre.
Referência da notícia
Painel para o Futuro da Ciência e da Tecnologia (STOA) do Parlamento Europeu. Tomorrow's Primary Forests: The feasibility of realising novel primary forests in the western part of Europe.