Parlamento Europeu aponta Gerês-Xurés como um dos territórios-chave para recriar florestas primárias

Estudo identifica a reserva transfronteiriça entre Portugal e Espanha como uma oportunidade única para devolver espaço à natureza e reforçar a resposta europeia às alterações climáticas.

Gerês-Xurês é uma das raras reservas da UE que poderiam ser convertidas em floresta primária. Foto: Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurês
Gerês-Xurês é uma das raras reservas da UE que poderiam ser convertidas em floresta primária. Foto: Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurês

Há séculos que a Europa perde, árvore após árvore, floresta após floresta, uma parte vital do seu património natural. Os grandes bosques primitivos que outrora cobriam vastas regiões do continente deram lugar a campos agrícolas, povoações, estradas e explorações florestais.

Hoje restam apenas fragmentos dessas matas antigas. Um novo estudo defende, ainda assim, que nem tudo está perdido. A solução passa por devolver espaço à natureza e permitir que volte a encontrar o seu próprio ritmo e equilíbrio.

Entre os territórios onde essa transformação poderá ganhar forma, destaca-se uma paisagem bem conhecida dos portugueses, a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés.

O estudo, encomendado pelo Parlamento Europeu e elaborado pelo painel científico STOA, conclui que a criação de Novas Florestas Primárias na Europa Ocidental é não apenas possível, mas também uma medida urgente para travar a perda de biodiversidade e reforçar a capacidade dos ecossistemas para enfrentar as alterações climáticas.

Baixa densidade demográfica e matas que conservam espécies autóctones são algumas das características que tornam Gerês-Xurês num caso promissor. Foto: JoanaDSB - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons
Baixa densidade demográfica e matas que conservam espécies autóctones são algumas das características que tornam Gerês-Xurês num caso promissor. Foto: JoanaDSB - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Ao analisar várias regiões europeias, os investigadores identificam o território partilhado por Portugal e Espanha como um dos locais mais promissores para acolher um projeto desta dimensão. A combinação entre elevado valor ecológico, baixa densidade populacional e extensas áreas já protegidas coloca o Gerês-Xurés numa posição rara à escala europeia.

Recuperar aquilo que a Europa perdeu

Uma Nova Floresta Primária não nasce da plantação intensiva de árvores. O objetivo consiste antes em reservar grandes áreas onde a intervenção humana seja reduzida ao mínimo, permitindo que a floresta recupere gradualmente os seus processos naturais.

Árvores envelhecem, caem, regeneram-se espontaneamente e criam habitats para centenas de espécies. Os solos recuperam a sua complexidade, os cursos de água seguem a sua dinâmica natural e a biodiversidade aumenta de forma progressiva.

Ao mesmo tempo, estas florestas armazenam grandes quantidades de carbono durante longos períodos, tornando-se aliadas importantes no combate às alterações climáticas. Segundo o estudo, reservas com mais de 70 mil hectares podem ser viáveis na Europa Ocidental desde que existam condições ecológicas, sociais e políticas favoráveis.

Gerês-Xurés entre os territórios mais promissores

A Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés reúne muitas dessas características. O território integra o Parque Nacional da Peneda-Gerês, o único parque nacional português. A área protegida conserva alguns dos mais importantes vestígios de florestas antigas da Península Ibérica, dominadas pelo carvalho-alvarinho (Quercus robur) e pelo carvalho-negral (Quercus pyrenaica). Grande parte da população concentra-se nos vales, deixando extensas áreas de montanha pouco ocupadas.

Com base nestas condições, os autores propõem definir um núcleo de proteção estrita com 17.518 hectares, acompanhado por uma zona tampão de 75.255 hectares, correspondente à Reserva da Biosfera, e por uma vasta área de transição socioeconómica que poderá atingir 175.227 hectares.

Esta reorganização permitiria compatibilizar uma área totalmente dedicada à evolução natural dos ecossistemas com territórios onde continuariam a coexistir atividades humanas compatíveis com os objetivos de conservação.

Reforçar a conservação é o primeiro passo

Apesar do elevado estatuto de conservação, o Gerês-Xurés continua longe de cumprir os critérios exigidos para acolher uma verdadeira Nova Floresta Primária. O Parque Nacional da Peneda-Gerês enquadra-se, atualmente, na Categoria II da União Internacional para a Conservação da Natureza, classificação destinada aos parques nacionais.

Este modelo privilegia a proteção da natureza, mas admite atividades como turismo, recreio, gestão florestal limitada e alguns usos tradicionais do território. O que o estudo propõe é dar um passo mais ambicioso.

O núcleo central da futura reserva deveria passar para a Categoria Ib, destinada às Áreas Selvagens, onde a prioridade é deixar a natureza evoluir sem interferência humana. Nessas zonas não poderia existir exploração florestal, agricultura nem ocupação permanente, reduzindo-se ao mínimo qualquer perturbação dos processos naturais. Esta seria, portanto, a diferença que faria do Gerês-Xurés uma oportunidade única para a Península Ibérica e também para a Europa.

Os desafios que Portugal e Espanha terão de resolver

Transformar esta visão em realidade exigirá, porém, decisões complexas dos dois lados da fronteira. Um dos principais obstáculos é o pastoreio contínuo de gado e cavalos nos planaltos, prática que dificulta a regeneração natural dos carvalhais e favorece a expansão de espécies menos representativas destes ecossistemas.

Portugal e Espanha precisam reforçar ainda mais a proteção da sua reserva da biosfera para cumprir os critérios exigidos na criação de florestas primárias. Foto: JoanaDSB - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons
Portugal e Espanha precisam reforçar ainda mais a proteção da sua reserva da biosfera para cumprir os critérios exigidos na criação de florestas primárias. Foto: JoanaDSB - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Outro desafio prende-se com as plantações de eucaliptos e coníferas existentes sobretudo no setor espanhol. O estudo recomenda uma substituição gradual destas árvores ao longo de cerca de três décadas, permitindo que as espécies autóctones recuperem espaço de forma sustentada.

Existe ainda a pressão rodoviária que precisaria de ser eliminada. As estradas EN 308-1, em Portugal, e OR-312, em Espanha, atravessam justamente a área proposta para proteção integral. Como estas ligações asseguram a circulação entre várias aldeias dos dois países, qualquer limitação ao trânsito obrigará a encontrar soluções alternativas capazes de responder às necessidades das populações locais.

Os investigadores reconhecem, por isso, que o sucesso do projeto dependerá tanto da qualidade ecológica do território como da capacidade de construir consensos entre administrações, proprietários, comunidades e agentes económicos.

Um laboratório natural para o futuro da conservação

Entre todas as regiões avaliadas, apenas o complexo Bayerischer Wald-Šumava, na fronteira entre Alemanha e República Checa, cumpre atualmente todos os critérios exigidos para uma Nova Floresta Primária de grande dimensão.

O Gerês-Xurés integra um grupo restrito de territórios considerados estrategicamente promissores, desde que consigam ultrapassar os obstáculos identificados.

Para os autores, a experiência europeia demonstra que algumas décadas de gestão orientada podem acelerar significativamente a recuperação dos ecossistemas. A reversão de monoculturas florestais, a redução do pastoreio excessivo e a recuperação do equilíbrio entre herbívoros e predadores criam condições para que, mais tarde, a natureza deixe de precisar da intervenção humana.

O estudo defende ainda um papel mais ativo da União Europeia no financiamento destes projetos e na criação de mecanismos que garantam proteção estrita a longo prazo.

Se essa visão vier a concretizar-se, a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés poderá transformar-se num dos mais importantes laboratórios naturais da Europa. Mais do que recuperar uma floresta, Portugal e Espanha terão a oportunidade de devolver ao continente um património ecológico que parecia perdido para sempre.

Referência da notícia

Painel para o Futuro da Ciência e da Tecnologia (STOA) do Parlamento Europeu. Tomorrow's Primary Forests: The feasibility of realising novel primary forests in the western part of Europe.