Outono quente e seco deixa Trás-os-Montes sem os cogumelos mais procurados nesta época
A escassez de humidade compromete espécies de elevado valor gastronómico, reduz o rendimento dos recolectores e ameaça o turismo micológico.

O outono leva habitualmente os recolectores aos lameiros, soutos, florestas e pinhais do Nordeste Transmontano à procura de cogumelos que despontam entre a vegetação e a folhagem. Este ano, porém, os percursos habituais atravessam terrenos ressequidos e revelam ausência dos fungos que costumam surgir nesta estação.

A associação micológica A Pantorra, sediada em Mogadouro, considera que as temperaturas elevadas e a escassez de precipitação estão a comprometer a época de apanha. Os seus técnicos percorreram vários pontos da região, desde a Serra de Bornes, no concelho de Macedo de Cavaleiros, até Mogadouro, e encontraram uma realidade semelhante. O atraso no regresso das chuvas, que se repete nos anos mais recentes, tem prejudicado o aparecimento de diversas espécies comestíveis.
A humidade que falta no solo
Com os solos secos e as temperaturas acima do habitual para a época, muitas espécies não encontraram a humidade necessária para frutificar em abundância.
Entre as mais afetadas estão algumas espécies mais apreciadas à mesa, como os boletos, a Amanita caesarea e as setas-de-cardo. As previsões da Meteored para o início de novembro também não permitem antecipar uma recuperação rápida da temporada.

Nem todas as espécies, no entanto, respondem da mesma forma às condições meteorológicas. A Pantorra admite que, até ao final de novembro, ainda poderão surgir sanchas, também conhecidas como setas, capazes de tolerar temperaturas mais baixas. Essa possibilidade, porém, não altera, por enquanto, o balanço negativo da época.
Menos cogumelos, menos rendimento
A escassez não afeta apenas quem apanha cogumelos por lazer. Para alguns recolectores, esta atividade constitui uma fonte complementar de rendimento durante o outono. Com uma colheita muito reduzida, essa receita poderá sofrer uma descida significativa.
Sanchas, boletos, repolgas, línguas-de-vaca, frades e míscaros estão entre os fungos mais procurados na região. A diversidade destas espécies integra uma tradição enraizada e reforça a ligação das comunidades locais aos espaços florestais.
Um destino micológico também em risco
A fraca produção de cogumelos poderá refletir-se igualmente no turismo micológico do Nordeste Transmontano.
Em anos favoráveis, a região atrai visitantes interessados em observar, identificar e estudar diferentes espécies, numa atividade que combina contacto com a natureza, gastronomia e conhecimento científico.
Ao longo de mais de duas décadas de trabalho conjunto com especialistas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e do Instituto Politécnico de Bragança, a Pantorra identificou mais de 1.200 espécies de cogumelos silvestres no Nordeste Transmontano. O levantamento evidencia a riqueza micológica da região, mas também a importância de conhecer cada espécie.
A identificação exige cautela
A colheita de cogumelos silvestres exige conhecimento especializado, pois muitas espécies são tóxicas ou até letais. Os especialistas advertem, por isso, que nunca se deve consumir nenhum exemplar sem a validação de alguém experiente e qualificado.

O Planalto Mirandês reúne ainda condições favoráveis ao desenvolvimento de trufas negras, fungos de elevado valor gastronómico. Mas o aparecimento dos fungos silvestres continua dependente de chuva suficiente. Sem a humidade que costuma caracterizar o outono, a época de cogumelos poderá terminar sem a abundância que habitualmente leva recolectores e visitantes aos bosques transmontanos.
Referência da notícia
Jornal regional O Minho. Alterações climáticas prejudicam aparecimento de cogumelos em Trás-os-Montes.