Os rios perderam os seus guardiões, mas a sua sabedoria continua a ensinar-nos

Durante décadas, Luís Alves percorreu margens, ribeiras e aldeias do Médio Tejo. Hoje, as suas memórias recuperam um conhecimento que pode ajudar a proteger os cursos de água doce.

Luís Alves foi guarda-rios durante 30 anos, detendo uma sabedoria que ainda hoje pode ser aplicada na proteção dos cursos de água. Foto: gerador.eu
Luís Alves foi guarda-rios durante 30 anos, detendo uma sabedoria que ainda hoje pode ser aplicada na proteção dos cursos de água. Foto: gerador.eu

Antes das tecnologias, sistemas de alerta ou piquetes de emergência, havia quem conhecesse o rio a pé. Luís Alves percorreu esse caminho durante três décadas. Agora, aos 81 anos, recorda no livro Memórias de um Guarda-Rios esses tempos em que atravessou troços do Tejo e das suas ribeiras entre Constância e Belver.

Conhecia as margens, os pescadores, as embarcações, os usos da água e os problemas de cada localidade. Sabia onde era preciso intervir e, tão ou mais importante, onde era melhor não mexer.

A obra, escrita por João Monteiro Serrano e publicada pela Associação Tagus, recupera a vida e a carreira de um homem cuja profissão desapareceu há quase 30 anos. Mas, ao reconstituir o trabalho de um guarda-rios, acaba também por conservar uma memória de como Portugal vigiava, geria e protegia os seus cursos fluviais.

A profissão tem raízes no século XIX e adquiriu enquadramento legal com o Regulamento para os Serviços Hidráulicos aprovado em 1892. Em 1995, o Decreto-Lei n.º 143/95 extinguiu a carreira. Parte das funções foi transferida para outras estruturas de conservação e de fiscalização ambiental. O desaparecimento do guarda-rios não significou, porém, que os rios tivessem deixado de precisar de vigilância.

Uma profissão feita de rio e de pessoas

Na memória de Luís Alves, a fiscalização estava longe de se limitar a procurar infrações. O guarda-rios verificava situações de poluição e de pesca ilegal, monitorizava os usos da água e resolvia conflitos entre quem vivia ou trabalhava junto ao rio. Mais do que levantar autos, recorda, procurava evitar que fosse necessário chegar a esse ponto.

Essa proximidade exigia conhecer as comunidades ribeirinhas quase tão bem quanto a própria água. O guarda-rios sabia quem pescava, quem tinha embarcação, quem captava água e quais os problemas podiam surgir em cada época do ano.

Era uma presença regular, capaz de intervir antes que um conflito entrasse na esfera da infração. A relação com as populações fazia parte da própria fiscalização. E havia também outra dimensão, menos burocrática e muito mais ligada ao comportamento do rio. Antes da chegada das cheias, era preciso preparar os cursos de água. As pequenas estruturas provisórias de captação tinham de ser desmontadas e os leitos limpos para facilitar o escoamento.

“Memórias de um Guarda-Rios” é uma obra que procura evidenciar a importância de um conhecimento em risco de desaparecer. Imagens: Canva.com e Mediotejo.net
“Memórias de um Guarda-Rios” é uma obra que procura evidenciar a importância de um conhecimento em risco de desaparecer. Imagens: Canva.com e Mediotejo.net

Mas limpar não significava retirar tudo. A vegetação das margens, a chamada maracha, devia ser preservada porque protegia o solo e ajudava a travar a erosão. Quando as águas a destruíam, o trabalho podia passar pela colocação de estacas e outro material vegetal para recuperar a margem.

A natureza imprevisível das correntes ribeirinhas

Prevenir uma cheia não era transformar o rio numa superfície desimpedida. Era, acima de tudo, conhecer o seu comportamento e intervir no momento certo, sem destruir as estruturas naturais que o protegiam.

É aí que a memória de uma profissão extinta ganha dimensão atual. Proteger um rio continua a exigir o que os antigos guardiões aprenderam ao longo dos anos. Isto é, observar primeiro, conhecer o território e só depois decidir onde intervir.

O rio mudou, mas ficou a necessidade de o conhecer

Luís Alves não defende simplesmente o regresso à antiga carreira de guarda-rios. O que gostaria de recuperar é aquilo que considera ter sido a sua principal virtude, uma fiscalização de proximidade, preventiva e conhecedora do território.

A diferença está na relação quotidiana com as pessoas e com os cursos de água. Um guarda-rios conhecia os problemas antes de se avolumarem e procurava resolvê-los no terreno.

A preocupação ganha outra dimensão num país que enfrenta secas mais frequentes, cheias repentinas, incêndios e alterações profundas nas margens e nos ecossistemas fluviais.

Prevenir eventos extremos, como as cheias, exige uma relação de proximidade com o rio e comunidades ribeirinhas. Foto: Município de Alcácer do Sal
Prevenir eventos extremos, como as cheias, exige uma relação de proximidade com o rio e comunidades ribeirinhas. Foto: Município de Alcácer do Sal

Preparar um rio para acontecimentos extremos implica conhecer o seu comportamento e perceber como as intervenções humanas alteram a circulação da água, a estabilidade das margens e a capacidade de recuperação dos habitats. Essa experiência acumulada, para Luís Alves, não deve se opor, mas integrar-se ao conhecimento técnico e científico.

Os novos vigilantes das águas fluviais

Décadas depois da extinção da profissão, com o aumento das preocupações ecológicas, alguns municípios começaram, aliás, a promover o regresso desta figura em formatos adaptados.

É o caso do município de Gondomar com o projeto “Guardiões dos Rios”. A autarquia recrutou equipas de vigilantes e sapadores para vigiar os rios Douro, Sousa e a Ribeira da Archeira.

Além da limpeza e da remoção de plantas invasoras, o projeto tem ainda uma vertente de inclusão social, envolvendo desempregados, jovens em situação de risco e mulheres com mais de 50 anos afastadas do mercado de trabalho.

Em Lousada, o Lousada Guarda Rios criou patrulhas voluntárias, oferecendo formação em ecologia e boas práticas ambientais. Os participantes tornam-se observadores regulares das linhas de água e ajudam a identificar e reportar problemas às entidades responsáveis.

Na Lourinhã, a associação Lourambi mantém igualmente um projeto de monitorização dos rios Grande e Toxofal, dedicado à deteção de problemas ambientais, ao combate à poluição e à recuperação da vegetação das margens.

As soluções são variadas, mas têm um princípio comum. A proteção dos rios depende de comunidades próximas da água. É, no fundo, a principal lição deixada pelas memórias de Luís Alves.

Ler os sinais para antecipar eventos extremos

O guarda-rios desapareceu como profissão, mas o conhecimento que sustentava o seu trabalho continua a ser necessário. Observar, prevenir, conhecer as comunidades, compreender a vegetação das margens e perceber os sinais deixados pela água continuam a ser ferramentas fundamentais para proteger os cursos de água.

O livro de João Monteiro Serrano faz, por isso, mais do que apenas recuperar a biografia de um antigo funcionário dos serviços hidráulicos. Preserva a memória de uma forma de olhar para o rio e recorda-nos que cuidar da água começa muito antes de surgir uma emergência.

O futuro, portanto, não passará obrigatoriamente por recuperar a profissão de guarda-rios. Poderá passar, sim, por recuperar aquilo que sabiam fazer, por conhecer o rio e por agir antes que seja tarde.

Referência da notícia

MédioTejo.net. Memórias de um guarda-rios levam Luís Alves da história do Tejo à defesa da Ribeira de Alcolobre.
Município de Gondomar. Programa Guardiões dos Rios.
Município de Lousada. Programa Lousada Guarda Rios.