Sensores que anticipam cheias em cidades portuguesas estão a chegar à Europa e aos EUA

A tecnologia da start-up portuguesa Greenmetrics.ai, instalada em 11 municípios do país, prevê o risco de inundações urbanas com mais de uma hora de antecedência, permitindo acelerar as medidas de emergência.

Os dispositivos da Greenmetrics.ai medem, em tempo real, a subida da água em sarjetas ou ribeiras, captando variações milimétricas que os modelos tradicionais não conseguem detetar. Foto: Município de Alcácer do Sal
Os dispositivos da Greenmetrics.ai medem, em tempo real, a subida da água em sarjetas ou ribeiras, captando variações milimétricas que os modelos tradicionais não conseguem detetar. Foto: Município de Alcácer do Sal

Sensores estrategicamente instalados nas sarjetas, nos coletores de esgotos, nas ribeiras ou nas tubagens dos sistemas de drenagem estão a antecipar o risco de cheias rápidas em várias cidades do país.

A tecnologia é 100% portuguesa, mas já atravessou fronteiras e está a transformar a forma como os grandes centros urbanos enfrentam eventos meteorológicos extremos. No epicentro desta mudança está a start-up Greenmetrics.ai, que nasceu em 2022 nos laboratórios do Instituto Superior Técnico.

Tiago Marques, Manuel Bastos e Diogo Nunes, três colegas de faculdade, decidiram usar o seu talento para desenvolver tecnologias capazes de lidar com os impactos das alterações climáticas.

A primeira experiência passou por criar sensores para monitorizar a migração dos linces ibéricos, mas depressa perceberam que as cheias urbanas poderiam ser abordadas com o mesmo tipo de soluções.

Recorrendo a dispositivos inteligentes estrategicamente instalados em pontos de risco — sarjetas, coletores de esgoto ou ribeiras que atravessam zonas densamente povoadas —, a tecnologia da start-up portuguesa mede permanentemente a subida da água, captando oscilações milimétricas que os modelos estatísticos tradicionais não conseguem identificar em tempo útil.

É a precisão cirúrgica e a qualidade desses dados que fazem toda a diferença na hora de antecipar medidas de emergência, podendo evitar danos causados pelas cheias.

Rede de dados protege 11 cidades portuguesas

Foi na sequência das cheias em Lisboa, em dezembro de 2022, que a solução foi testada num projeto-piloto de monitorização dos túneis do centro da cidade – Entrecampos, Campo Grande e Campo Pequeno – e em pontos mapeados como de alto risco de inundação.

Recorrendo a mapas digitais tridimensionais e a plataformas intuitivas, a solução da Greenmetrics.ai permite às autarquias monitorizar o comportamento da água em tempo real. Imagem: Greenmetrics.ai
Recorrendo a mapas digitais tridimensionais e a plataformas intuitivas, a solução da Greenmetrics.ai permite às autarquias monitorizar o comportamento da água em tempo real. Imagem: Greenmetrics.ai

Desde então, a tecnologia da Greenmetrics.ai estendeu-se a várias outras cidades portuguesas, ajustando os seus algoritmos às configurações urbanas dos municípios de Oeiras, Cascais, Porto, Maia, Guimarães, Loures, Odivelas, Tavira, Loulé e Torres Novas.

Em cada concelho, a start-up criou a sua própria rede de dados, protegendo áreas que vão das ribeiras algarvias aos centros históricos de Lisboa e do Porto.

Um dos aspetos mais inovadores desta tecnologia é a forma como as autarquias visualizam os dados em mapas 3D dinâmicos, acompanhando, em tempo real, o fluxo de água pelos túneis de drenagem ou a pressão acumulada nas sarjetas.

Ao contrário das tecnologias que usam dados de satélite, os sensores da Greenmetrics.ai prometem ir muito além de uma visão macro, recolhendo informações de locais inacessíveis como canais subterrâneos ou passagens inferiores de pontes e viadutos.

Não se trata apenas de prever quando os caudais dos rios vão subir, mas de saber quando a sarjeta de uma determinada artéria irá entupir e inundar a zona envolvente em poucos minutos devido a uma obstrução local.

A antecedência que permite reagir antes do caos

O grande teste ao sistema ocorreu durante o comboio de tempestades que atingiu o país no início do ano. Em Cascais, por exemplo, o alerta de subida na Ribeira das Vinhas, durante a depressão Kristin, chegou aos centros operacionais com mais de uma hora de antecedência, permitindo que os lojistas do Largo de Camões tivessem tempo para proteger os seus bens.

No vizinho município de Oeiras, o sensor de nível da Freiria, afluente da ribeira da Laje, detetou rapidamente a subida da água antes do extravasamento, possibilitando a mobilização antecipada da proteção civil municipal.

A inteligência artificial em constante aprendizagem

O objetivo da Greenmetrics.ai, todavia, é melhorar ainda mais a eficiência dos sensores. A ambição é atingir uma capacidade de previsão com pelo menos 24 horas de antecedência. Um desempenho que os seus mentores acreditam poder ocorrer no prazo de um ano, graças à capacidade de aprendizagem da inteligência artificial.

A tecnologia está em constante evolução, processando e aprendendo com os dados de todas as cidades e adaptando o conhecimento a cada contexto urbano.

Com base na informação recolhida, a empresa está a desenvolver algoritmos preditivos capazes de emitir alertas probabilísticos antes da iminência do perigo.

Ao converter dados sobre condutas e inclinações em informações neutras, o sistema prevê o comportamento da água em cidades recém-analisadas, utilizando conhecimentos adquiridos em múltiplos cenários comparáveis de diversas regiões.

O objetivo é desenvolver medidas preventivas, como a limpeza atempada de sumidouros, cortes planeados de vias ou até a retirada programada das populações em previsões mais extremas.

Os sensores da start-up portuguesa já fazem previsões superiores a uma hora, mas o objetivo é obter prognósticos com 24 horas de antecedência. Imagem: sensor na Ribeira da Costa/Couros, em Guimarães/ Greenmetrics.ai
Os sensores da start-up portuguesa já fazem previsões superiores a uma hora, mas o objetivo é obter prognósticos com 24 horas de antecedência. Imagem: sensor na Ribeira da Costa/Couros, em Guimarães/ Greenmetrics.ai

Sabendo que, numa tempestade severa, as redes móveis e o fornecimento de energia elétrica podem falhar, o sensor foi projetado para operar via rádio com tecnologia LoRaWAN.

Essa autonomia garante que, mesmo em situações de apagão e interrupção dos sistemas de comunicação tradicionais, os dados sejam transmitidos ininterruptamente até aos centros de comando, através de portais equipados com baterias de reserva.

A gestão de recursos e a expansão internacional

A tecnologia tem igualmente impacto na gestão de recursos. Em locais afastados dos centros operacionais, como pontes ou viadutos, as verificações implicam deslocações e mobilização de meios constantes.

Com a monitorização remota, os operacionais podem intervir apenas quando os dados indicam risco efetivo, sabendo também quando reabrir os acessos em segurança.

Os especialistas alertam que as cheias urbanas, como as que ocorreram no início deste ano, em Portugal, vão ser cada vez mais frequentes. Foto: Município de Montemor-o-Velho
Os especialistas alertam que as cheias urbanas, como as que ocorreram no início deste ano, em Portugal, vão ser cada vez mais frequentes. Foto: Município de Montemor-o-Velho

A tecnologia portuguesa continua a expandir-se, não apenas nas suas potencialidades, mas também além-fronteiras.

Depois de chegar ao Brasil em 2024 – Eldorado do Sul, Lageado, Novo Hamburgo, Gravataí e Porto Alegre –, prepara-se agora para entrar nos mercados europeus e norte-americanos, especialmente Espanha, Itália e Estados Unidos.

Referência da notícia

Greenmetrics.ai - Deteção precoce de inundações

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