Os gigantes de betão voltam a guardar o futuro: dos cereais à energia renovável

Durante décadas alimentaram um país. Agora, antigos silos agrícolas da Península Ibérica preparam-se para armazenar energia renovável e voltar a desempenhar um papel estratégico.

O silo de Évora é um dos exemplos mais emblemáticos da rede nacional de armazenamento de cereais construída na segunda metade do século XX. Foto: João Manita/reprodução do Facebook
O silo de Évora é um dos exemplos mais emblemáticos da rede nacional de armazenamento de cereais construída na segunda metade do século XX. Foto: João Manita/reprodução do Facebook

Durante décadas, desempenharam uma função essencial junto às linhas férreas, nos arredores das cidades e no coração das grandes planícies agrícolas. Enormes depósitos de betão, os silos de cereais garantiram a segurança alimentar do país.

Quando o setor agrícola mudou e os sistemas de armazenamento evoluíram, boa parte deles ficou vazia. Mas permaneceram na paisagem como testemunhos de um tempo em que Portugal media a abundância em toneladas de trigo.

Hoje, quando a Europa enfrenta um desafio muito diferente, estes gigantes adormecidos podem voltar a ter uma missão. Não para armazenar alimento, mas para guardar energia.

É essa a proposta do projeto transfronteiriço THESILO, que pretende transformar antigos silos industriais abandonados de Portugal e Espanha em grandes baterias térmicas capazes de armazenar o excedente produzido pelas energias renováveis.

A iniciativa surge numa altura em que a capacidade de produzir eletricidade limpa cresce mais rapidamente do que a capacidade de a utilizar, tornando o armazenamento um dos maiores desafios da transição energética.

O silo de Portalegre assegurava o armazenamento e o transporte ferroviário de cereais do Alto Alentejo. Foto: Nuno Morão, Portugal – Estação de Portalegre, 2008, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons
O silo de Portalegre assegurava o armazenamento e o transporte ferroviário de cereais do Alto Alentejo. Foto: Nuno Morão, Portugal – Estação de Portalegre, 2008, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons

O projeto, liderado pelo Centro Ibérico de Investigação em Armazenamento de Energia (CIIAE), envolve a Extremadura, o Alentejo e a região Centro de Portugal e pretende avaliar o potencial de cerca de 1.050 silos desativados distribuídos pela euro-região EUROACE.

Em vez de demolir estas estruturas, a ideia passa por lhes dar uma nova função, aproveitando a sua robustez e localização estratégica para criar uma solução de armazenamento energeticamente eficiente e ambientalmente sustentável.

De armazéns de cereais a baterias térmicas

Em regiões com forte produção solar, como a Extremadura ou o Alentejo, há períodos em que a eletricidade produzida pelos painéis fotovoltaicos excede a capacidade da rede elétrica para a absorver. Em vez de desperdiçar essa energia, o THESILO propõe convertê-la em calor através de resistências de alta eficiência.

Esse calor será depois armazenado no interior dos antigos silos recorrendo a materiais de baixo custo e elevada resistência térmica, como resíduos reciclados de pedreiras, subprodutos industriais e materiais provenientes da demolição de edifícios. Quando necessário, essa energia poderá ser utilizada para abastecer a indústria agroalimentar e outras atividades económicas das comunidades vizinhas.

O primeiro passo será dado em Torremocha, na província espanhola de Cáceres, onde um antigo silo municipal servirá de laboratório em condições reais. Até ao final de 2028, os investigadores irão avaliar não apenas o desempenho técnico da solução, mas também a sua viabilidade económica, ambiental e regulamentar.

Mais do que desenvolver uma nova tecnologia, o projeto procura responder a uma pergunta cada vez mais atual: será possível reutilizar infraestruturas existentes para acelerar a transição energética, reduzindo custos e evitando novas construções? A resposta poderá estar escondida em edifícios que muitos julgavam condenados ao esquecimento.

Um regresso inesperado num momento de incerteza

Enquanto investigadores portugueses e espanhóis estudam a possibilidade de transformar antigos silos em baterias térmicas, Portugal prepara-se para lhes devolver outra das funções para as quais nasceram.

O Governo pretende investir cerca de 200 milhões de euros na criação de reservas estratégicas de alimentos, um plano que prevê a recuperação de parte destas infraestruturas e a construção de novos silos para armazenar cereais e outros produtos considerados essenciais.

A iniciativa surge num contexto em que a pandemia, a guerra na Ucrânia, os fenómenos meteorológicos extremos e o grande apagão elétrico registado na Península Ibérica reforçaram as preocupações com a segurança do abastecimento.

Ao contrário de vários países europeus, Portugal nunca desenvolveu um sistema robusto de reservas alimentares para responder a emergências. Agora pretende fazê-lo, recorrendo precisamente a algumas das estruturas que durante décadas asseguraram o armazenamento de trigo e outros cereais.

A proposta, apresentada pela Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares (FIPA), prevê um modelo em que operadores privados mantenham determinados níveis de reservas estratégicas mediante compensação financeira do Estado.

Embora ainda não estejam definidos os locais nem a dimensão das reservas, os cereais deverão assumir um papel central, acompanhados por algumas oleaginosas e outros alimentos de primeira necessidade.

O silo de Alcácer do Sal recorda a importância do município na produção e distribuição de arroz e cereais. Foto: Nuno Morão, Lisboa – Estação de Alcácer do Sal, 2009, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons
O silo de Alcácer do Sal recorda a importância do município na produção e distribuição de arroz e cereais. Foto: Nuno Morão, Lisboa – Estação de Alcácer do Sal, 2009, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons

Portugal acompanha, assim, uma tendência que se tem vindo a consolidar na Europa. Países como a Alemanha, a Finlândia, a Noruega, a Suécia ou a Suíça reforçaram, nos últimos anos, os seus sistemas de armazenamento estratégico, procurando preparar-se para crises prolongadas que possam comprometer o abastecimento alimentar.

Um património que voltou a fazer sentido

Durante muito tempo, os silos foram encarados como vestígios de um modelo agrícola ultrapassado. A substituição das grandes estruturas de betão por silos metálicos mais eficientes e a transformação do setor cerealífero conduziram à desativação de muitos destes edifícios.

Mas o que parecia ser apenas património industrial ganhou, inesperadamente, uma nova atualidade. No caso do THESILO, o objetivo é armazenar o excedente da energia produzida pelo Sol para abastecer comunidades e indústria.

No plano do Governo português, a prioridade passa por reforçar a capacidade de resposta perante eventuais ruturas no fornecimento de alimentos. São estratégias distintas, mas ambas partem da mesma convicção: reutilizar infraestruturas existentes pode ser mais inteligente, mais económico e mais sustentável do que começar do zero.

Inaugurado em 1957, o silo de Valencia de Alcántara servia a ligação ferroviária entre a Estremadura espanhola e o Alto Alentejo. Foto: Mentxuwiki, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons
Inaugurado em 1957, o silo de Valencia de Alcántara servia a ligação ferroviária entre a Estremadura espanhola e o Alto Alentejo. Foto: Mentxuwiki, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Durante décadas, aqueles colossos de betão guardaram aquilo que permitia alimentar um país. Quando deixaram de ser necessários, permaneceram na paisagem, como se aguardassem um novo propósito.

Esse momento chegou agora com uma parte dos edifícios a voltar a encher-se de cereais e outra a armazenar calor produzido pelas energias renováveis. Em comum, mantêm a missão de preservar recursos essenciais para enfrentar tempos de incerteza.

Referência da notícia

Agência Regional de Energia e Ambiente do Norte Alentejano e Tejo. THESILO – Armazenamento de energia térmica em silos. Reutilização de silos de cereais como baterias térmicas para o armazenamento de energia renovável.
Ana Sanlez. Como Portugal prepara reservas de alimentos para crises. Jornal Observador..