Os organismos subterrâneos que podem influenciar secretamente o tempo
De acordo com uma nova investigação, os fungos enterrados no solo da floresta podem estar a absorver silenciosamente a chuva, e podem até estar a fazê-lo de forma mais eficiente.

A água na atmosfera pode permanecer no estado líquido a temperaturas bem abaixo do ponto de congelamento, por vezes até aos -40 °C. Isso acontece porque precisa de algo físico a que se agarre antes de se cristalizar em gelo e cair. O pó e a fuligem são levados para lá pelo vento e podem desempenhar essa função, mas é sabido que não são muito eficazes nisso.
Os cientistas sabem há décadas que certas bactérias são muito mais eficazes neste processo. Uma delas, chamada Pseudomonas syringae, produz proteínas que podem forçar a água a congelar a temperaturas tão altas quanto -2 °C, viajando das folhas das plantas para as nuvens e, basicamente, semeando a chuva a partir daí.
O que eles não sabiam até recentemente, porém, é que os fungos enterrados no solo da floresta podem estar a fazer a mesma coisa — e, de acordo com um estudo recente, podem até estar a fazê-lo de forma mais eficaz.
Proteínas que sobrevivem aos fungos que as produzem
Os fungos em questão pertencem às famílias Fusarium e Mortierella. Em vez de manterem as suas proteínas nucleadoras de gelo na superfície, como fazem as bactérias, eles secretam-nas diretamente para o solo circundante. Estas proteínas secretadas são solúveis em água e mais pequenas do que as versões bacterianas, e os investigadores descobriram que possuem uma elevada atividade de nucleação de gelo, o que as torna particularmente eficazes para induzir a formação de nuvens.

Os investigadores descrevem como isto cria uma espécie de ciclo de retroalimentação em que os fungos crescem no solo húmido da floresta e o vento transporta as suas proteínas para a atmosfera e — mesmo em nuvens a apenas alguns graus abaixo de zero — essas proteínas desencadeiam a formação de cristais de gelo.
Os cristais tornam-se pesados, caem, derretem ao passar pelo ar mais quente durante a descida e a chuva rega o solo da floresta — o que alimenta os fungos e reinicia todo o ciclo desde o início.
Estas proteínas são também extremamente resistentes e podem ser levadas para os riachos, secar e transformar-se em pó, ser sopradas para o céu e continuar a atuar no solo muito tempo depois de o fungo que as produziu ter desaparecido. O seu alcance estende-se muito além do organismo que as produziu, o que não é algo que se esperaria necessariamente de um micróbio do solo.
E, ao contrário das bactérias Pseudomonas, que utilizam a formação de gelo de forma quase agressiva para danificar as culturas e aceder aos nutrientes no seu interior, os fungos Mortierella são mais como aliados silenciosos das plantas à sua volta — criando o que os investigadores descrevem como um ambiente protetor em torno das raízes, em vez de causarem danos.
Um truque genético que levou milhões de anos a desenvolver-se
O mais estranho de tudo isto é talvez a forma como os fungos acabaram por adquirir essa capacidade. Quando a equipa analisou o código genético dos fungos da família Mortierellaceae, descobriu que a característica de nucleação do gelo não tinha evoluído de forma independente — tinha sido retirada diretamente do ADN bacteriano há milhões de anos, através da transferência horizontal de genes.
Segundo os investigadores, as implicações vão além da simples compreensão do funcionamento da chuva. Se os fungos do solo desempenham realmente um papel no desencadeamento das chuvas regionais, então a desflorestação das florestas e a devastação da terra podem estar a causar mais danos do que se pensava — potencialmente desmantelando um sistema biológico de geração de chuva do qual o ecossistema depende.
Há também um lado prático. Países como os Emirados Árabes Unidos e a China já semeiam nuvens artificialmente, mas utilizam iodeto de prata, um metal pesado que permanece no ambiente. As proteínas fúngicas são naturais e biodegradáveis, o que as torna candidatas óbvias para uma forma mais limpa de fazer o mesmo — e os investigadores sugerem que também poderiam ajudar na proteção contra geadas nas culturas e até na produção de neve mais eficiente, embora esse trabalho ainda esteja muito longe de ser concretizado.
Referência da notícia
How hidden soil fungi 'steal' bacterial DNA to control the rain, published by The Conversation, April 2026.
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