O montado já não é o que era. Inteligência artificial ajuda a detetar defeitos e a reduzir o desperdício de cortiça
Várias empresas do setor da cortiça estão a introduzir a inteligência artificial nos seus processos de produção. Em vez de dependerem apenas da inspeção manual, através dos novos sistemas podem analisar a cortiça utilizando a inteligência artificial, poupando tempo e com ganhos de qualidade.

A inteligência artificial e a automação têm cada vez mais utilizações, nomeadamente na floresta e, em particular, no montado, ajudando a transformar profundamente o setor florestal, desde a monitorização no terreno até à tomada de decisão em fábrica, com a ajuda de grandes volumes de dados.
As novas tecnologias permitem, assim, aumentar a produtividade, reduzir desperdícios e impactos ambientais e ainda responder aos desafios impostos pela incerteza climática e pela escassez de mão-de-obra.
No seminário anual promovido na última semana pelo Centro de Competências do Sobreiro e da Cortiça (CCSC) esse foi um dos temas em cima da mesa.
Também foram objeto de debate as boas práticas de aplicação da ciência, por parte de gestores e proprietários florestais, que já conseguem resolver problemas concretos graças a trabalhos de investigação desenvolvidos pela academia em Portugal.
Trabalhos científicos sobre a cortiça
Durante a manhã, os presentes puderam assistir a uma reunião de investigação e desenvolvimento (I&D), na qual vários investigadores convidados apresentaram os seus trabalhos científicos.
Miguel Bugalho, do Instituto Superior de Agronomia, falou sobre a renaturalização poder ou não contribuir para a conservação da biodiversidade nas paisagens culturais mediterrânicas.

Pedro Ferreira, da universidade do Minho, fez uma apresentação sobre como o endófito natural reduz a severidade da doença em sobreiros causada por Biscogniauxia mediterranea e Diplodia corticola sob diferentes regimes de irrigação.
E, por fim, Clara Pinto, do INIAV, apresentou as conclusões de uma investigação que se focou em como o descortiçamento, num ano seco, altera os padrões sazonais de distribuição de carbono na árvore.
Corticeira Amorim e a inteligência artificial
A maior empresa do setor em Portugal - a Corticeira Amorim - é demonstrativa da utilização das novas tecnologias e, em concreto, da inteligência artificial setor da cortiça e nos seus processos de produção.
Em vez de dependerem apenas da inspeção manual, os novos sistemas podem analisar a cortiça utilizando dados e tecnologia de imagem, o que ajuda a detetar defeitos, a melhorar a qualidade e a reduzir o desperdício, com ganhos de qualidade e eficiência.
À primeira vista, a cortiça e a inteligência artificial podem parecer uma combinação estranha, refere a Corticeira Amorim, que explica logo a seguir que a cortiça é um material natural, extraído à mão das árvores e que, “exatamente por isso”, a tecnologia “está a tornar-se importante”.

Nas fábricas da Amorim Cork, onde todos os dias são produzidas cerca de 25 milhões de rolhas de cortiça, a inteligência artificial já não é uma promessa longínqua, nem sequer um protótipo: é a realidade.
A robótica foi um primeiro passo. A partir do ano 2020, a inteligência artificial entrou em cena, com recurso ao machine learning, para melhorar a classificação das rolhas, sobretudo com base no seu aspeto visual.
Nas fábricas, utilizam-se fotografias e outros dados (como imagens de raio X). Os sistemas passaram a aprender a partir de grandes volumes de informação, aumentando a precisão, a eficiência e a homogeneidade dos lotes de rolhas, com isso reduzindo a imprevisibilidade do processo.
Exportações caem 2,2% em valor
O setor da cortiça em Portugal tem sofrido oscilações e enfrenta vários desafios, como o decréscimo no consumo de vinho a nível global - que tem feito reduzir as exportações -, assim como alguns problemas de sanidade vegetal e de escassez de matéria-prima de qualidade.
Em 2024, as exportações portuguesas de cortiça caíram 5,2%, face a 2023, para 1.148 milhões de euros, e a principal razão foi precisamente a “redução na procura por rolhas de cortiça, que representam mais de 70% do total exportado pelo setor”.
Em 2025, a produção de cortiça em Portugal ficou-se pelas 3,5 milhões de arrobas, a que se somaram dois milhões de arrobas em Espanha.
Em consequência, a produção ibérica de cortiça caiu cerca de 15% face a 2024, embora as exportações portuguesas do setor até tenham subido 1,7% face ao ano anterior, segundo a Associação Interprofissional da Fileira da Cortiça (Filkork).
A Filkork refere ainda que o preço médio da globalidade das rolhas baixou 5% no último ano, embora mantenha um crescimento acumulado de 13,5% desde 2021.
Entre 2024 e 2025, as rolhas aglomeradas cresceram de forma razoável em quantidade (+6%) e em valor (+7%), enquanto as rolhas de espumante registaram aumentos moderados, quer em quantidade (+5%) quer em valor (+2%). No que respeita às rolhas naturais, estas apresentaram quebras relevantes, tanto em quantidade (-11%) como em valor (-11%).
França, Itália, Espanha e EUA continuam a representar o maior destino das exportações portuguesas, mantendo em 2025 a concentração já observada em 2021 (>90%).
Entre 2021 e 2025, França reforçou o seu peso, Espanha cresceu moderadamente, Itália registou aumentos consistentes e os EUA perderam alguma representatividade.
No mesmo período, França registou o maior aumento do preço médio (+28%), já o Chile apresentou a maior quebra (-14%). Em 2025, os EUA foram o mercado com maior volatilidade e incerteza.
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