O mistério das pinturas rupestres e a busca por ADN da idade do gelo
O segredo das grutas calcárias: como a saliva de artistas da idade do gelo preservou o seu ADN. Saiba mais aqui!

Uma expedição científica pioneira em grutas calcárias espanholas propõe-se a extrair material genético humano diretamente de pinturas rupestres com mais de 40.000 anos.
O intuito deste projeto inovador é decifrar um autêntico "caso de pessoas desaparecidas" que se estende por milénios, revelando finalmente a verdadeira identidade dos artistas da Idade do Gelo que imortalizaram veados, cavalos e os emblemáticos estênceis de mãos no interior das rochas.
Uma cápsula do tempo biológica nas paredes de calcário
Apesar de a comunidade científica já ter obtido sucesso na extração de ADN humano a partir de sedimentos de grutas e de pequenos artefactos escavados no solo, nunca ninguém tinha conseguido recuperar material genético diretamente da própria superfície onde a arte foi criada.
O primeiro requisito essencial é que os artistas tenham deixado os seus vestígios biológicos na rocha calcária, o que pode ter ocorrido através da descamação natural de células da pele ao tocarem na parede.

Contudo, uma hipótese ainda mais promissora reside no método de "pintura em spray" tipicamente utilizado no Paleolítico para criar os estênceis. Ao desenhar as silhuetas das suas mãos, os artistas sopravam o pigmento com a boca ou canalizavam-no através de um osso oco, um processo que inevitavelmente banharia a superfície da rocha com finas gotículas de saliva repletas de ADN.
O papel da gruta na preservação do material genético
O segundo requisito essencial para o sucesso da investigação prende-se com o papel da própria gruta como um eficiente agente de conservação natural. Ao longo dos milénios, a lenta infiltração de águas ácidas pelas fendas dissolve o calcário da estrutura, depositando gradualmente uma fina camada de calcite translúcida sobre as pinturas rupestres.

Esta película mineral funciona como uma autêntica cápsula do tempo, selando a arte de forma hermética e protegendo o frágil material genético subjacente da severa degradação ambiental e de contaminações externas. As grutas europeias, conhecidas pelos seus ambientes frescos e de temperatura bastante estável, oferecem condições muito mais propícias à preservação do ADN do que os climas quentes do Sudeste Asiático, onde as tentativas anteriores de outros cientistas falharam.
O desafio analítico e as implicações para o futuro da arqueologia
O rigoroso processo de amostragem no terreno constitui um enorme desafio técnico para os cientistas. Utilizando bisturis esterilizados, a equipa raspa a camada protetora de calcite com precisão cirúrgica para extrair minúsculas aparas do nível inferior onde repousa o pigmento original.

Estas valiosas amostras são de seguida enviadas para o Instituto Max Planck, na Alemanha, onde os investigadores procurarão isolar o ADN antigo através de técnicas de sequenciação de ponta, distinguindo-o de qualquer contaminação contemporânea.
A técnica poderá proporcionar respostas irrefutáveis a questões de longa data, revelando finalmente o sexo dos artistas, se pertenciam à mesma linhagem familiar e, a questão mais revolucionária de todas, se eram Homo sapiens ou Neandertais. Confirmar que os Neandertais criaram estas obras de arte obrigaria a uma reavaliação profunda da sua capacidade criativa e sofisticação cognitiva.
Neste sentido, os investigadores alertam ainda para a urgência destes trabalhos, pois as grutas são ambientes instáveis e vulneráveis a colapsos ou inundações, o que ameaça apagar para sempre este inestimável registo da humanidade.
Referência da notícia
St. Fleur, Nicholas. Solving one of humanity’s oldest ‘missing person’ cases.