O maior tesouro por descobrir em Portugal está no mar
Plataforma digital desenvolvida por investigadores do Porto reúne, pela primeira vez, o conhecimento disperso sobre as maiores riquezas do oceano e abre caminho às descobertas do futuro.

Durante séculos, os mapas marítimos serviram para responder a uma das perguntas mais importantes da História: como chegar até lá? Traçavam rotas, assinalavam portos e cartografavam continentes ainda desconhecidos, permitindo aos navegadores aventurarem-se por mares nunca antes navegados.
A criação da primeira plataforma digital reúne os biobancos marinhos portugueses e marca simbolicamente esta mudança. Desenvolvido pelo Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), da Universidade do Porto, o novo portal cartografa milhares de amostras biológicas preservadas em diferentes instituições nacionais.
O acervo tem como intuito tornar o conhecimento acessível à comunidade científica e aproximar Portugal de uma nova etapa da economia azul. A transformação vai muito além da tecnologia, refletindo a forma como o país passou a olhar para o mar.
Um novo olhar sobre o nosso mar
A relação de Portugal com o oceano foi construída em torno da pesca e da exploração dos seus recursos. Mais tarde, durante a expansão marítima dos séculos XV e XVI, tornou-se uma vasta rede de rotas comerciais que ligava continentes, transportava mercadorias e sustentava um império.
O conceito de economia azul ganhou, na última década, um lugar central nas políticas europeias e nacionais, propondo um equilíbrio entre desenvolvimento económico, inovação tecnológica e conservação dos ecossistemas marinhos.

As atividades tradicionais, como a pesca, a aquacultura ou o turismo costeiro, coexistem agora com setores emergentes, como a produção de energia renovável offshore, a biotecnologia marinha ou a utilização sustentável dos recursos genéticos do oceano.
Tesouros subaquáticos por revelar
É neste novo paradigma que os biobancos assumem um papel cada vez mais relevante. A investigadora do CIIMAR, Rita Costa, descreve-os como "tesouros subaquáticos" e a expressão não podia ser mais feliz.
Se, ao longo dos séculos, os tesouros do mar foram procurados nas rotas comerciais, nas capturas de peixe ou nas especiarias transportadas pelos navios, hoje podem encontrar-se em seres tão discretos como uma microalga, uma bactéria marinha, uma esponja ou um coral.
Em vez de orientar embarcações através dos oceanos, este mapa orienta investigadores através de um património biológico disperso por diferentes instituições portuguesas, como a Coleção de Culturas de Biotecnologia Azul e Ecotoxicologia, a Coleção de Culturas Microbianas do CIIMAR (CM2C) ou a Algoteca do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Cada ponto assinalado representa um acervo, uma amostra preservada e uma potencial descoberta.
Navegar pelo conhecimento disperso
Mas um biobanco não é apenas um lugar onde se armazenam organismos. É uma biblioteca viva da biodiversidade marinha. Cada amostra guarda informação genética, ecológica e evolutiva que poderá revelar-se decisiva para responder a perguntas que a ciência ainda nem sequer formulou.
O mapa permite localizar mais de dez mil amostras biológicas e centenas de espécies preservadas em cinco biobancos nacionais. Para um investigador que procure determinado organismo ou pretenda comparar materiais recolhidos em diferentes regiões, a plataforma reduz tempo, evita duplicações e facilita novas colaborações entre equipas nacionais e internacionais.
Se os biobancos guardam tesouros, esta plataforma é o mapa que permitirá achá-los. A importância deste trabalho, porém, vai muito além da investigação científica.
A ciência voltada para a inovação
À medida que a economia azul ganha expressão, a biodiversidade marinha deixa de ser apenas um património natural para assumir também um papel estratégico na inovação.
Conhecer essa diversidade biológica, preservá-la e disponibilizá-la à comunidade científica tornou-se, por isso, uma condição essencial para transformar conhecimento em inovação, sem comprometer a conservação dos ecossistemas marinhos. É esse equilíbrio que o novo mapa pretende reforçar.

Portugal já deu ao mundo cartas náuticas para navegar por oceanos desconhecidos. Cada nova rota expandiu a compreensão do nosso planeta. Os mapas voltam hoje a ocupar um lugar central na relação do país com o mar. Mas já não apontam para novos territórios. Orientam, antes, os investigadores para um património biológico que sempre esteve submerso e que, finalmente, está a emergir.
Referência da notícia
Universidade do Porto. CIIMAR cria mapa digital dos biobancos marinhos portugueses.