Ninhos artificiais estão a salvar os francelhos da extinção
Investigadores da LPN e da Universidade de Lisboa estão no Baixo Alentejo a construir centenas de locais de nidificação para uma espécie que já foi comum no século XX, mas está em declínio acelerado.

Nos céus do Alentejo, principalmente na Zona de Proteção Especial de Castro Verde, já se veem casais de francelhos (Falco naumanni) a sobrevoar a paisagem. Membros da família dos falcões, estas aves migratórias fizeram uma longa viagem, desde a África, chegando, no início do ano, ao sul do nosso país.
Conhecida também como peneireiros-das-torres, a espécie está numa luta permanente pela sobrevivência, encontrando-se atualmente ameaçada de extinção em Portugal.
A falta de locais para nidificar é um dos principais obstáculos à sua reprodução. Não fazendo os próprios ninhos, os francelhos recorrem a estruturas antigas, como casas de campo, edifícios, monumentos e montes antigos para construir os seus abrigos. Mas a recuperação do património histórico e o restauro dos edifícios contribuíram para o desaparecimento de muitos locais de nidificação desta espécie.

No passado, o peneireiro-das-torres alimentava-se também nas extensas áreas agrícolas de cereal de sequeiro e nas pastagens ao redor de vilas e cidades. A redução das áreas de rotação de cereal e de pousio, o aumento dos cultivos com regadio, o abandono da agricultura e intensificação da pastorícia conduziram, nas últimas décadas, a uma diminuição significativa do seu habitat de alimentação.
Cada muro está a ser erguido com cerca de meia centena de orifícios, possibilitando à espécie viver em colónias a variar entre três ou quatro casais e muitas dezenas. As paredes estão a ser construídas com métodos mistos, recorrendo-se a tijolos, na parte inferior, e terra batida e calcada (taipa), no nível superior, criando zonas para os ninhos das aves.
Mais de 600 cavidades já foram instaladas na Zona de Proteção Especial de Castro Verde, que é a região onde mais de 80% da espécie se concentra em Portugal.
O perigo da má vizinhança
Inspiradas na natureza, as paredes e torres de nidificação espalhadas pelas planícies alentejanas não são, na verdade, muito diferentes das funções desempenhadas pelos condomínios e bairros residenciais das nossas cidades. Algumas destas paredes chegam a ter mais de 70 buracos, mas nem sempre são usados pelos francelhos.
A invasão dos ninhos por outras aves, sobretudo pombos domésticos e gralhas, é o motivo pelo qual a equipa da LPN está agora a adaptar as cavidades de alguns ninhos artificiais, impedindo que outras aves tomem conta dos espaços.
Para resolver o problema, os investigadores usaram plástico e PVC para reduzir o diâmetro das aberturas das cavidades, permitindo a entrada de fêmeas de francelhos, mesmo que tenham ovos consigo, mas não de outras aves maiores.

Uma parte das aberturas foi também adaptada para deixar entrar outras espécies ameaçadas, como rolieiros, peneireiros-vulgares, corujas-das-torres e mochos galegos.
A tarefa dos investigadores, porém, não acaba com a construção de ninhos artificiais. Os meses frios, quando a espécie está ausente, são aproveitados para fazer a limpeza das cavidades, deixando as casas dos francelhos limpas e prontas para o seu regresso.
Por enquanto, ainda é possível ver o peneireiro-das-torres a peneirar nas planícies do Baixo Alentejo, caçando escaravelhos, grilos, gafanhotos, entre outros insetos, para alimentar as suas famílias.
Referência da notícia
A conservação das aves estepárias é uma das prioridades da LPN. Liga para a Proteção da Natureza
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