Ninhos artificiais estão a salvar os francelhos da extinção

Investigadores da LPN e da Universidade de Lisboa estão no Baixo Alentejo a construir centenas de locais de nidificação para uma espécie que já foi comum no século XX, mas está em declínio acelerado.

Os francelhos passam o inverno no continente africano e regressam em fevereiro ao Baixo Alentejo. Foto: Sumeet Moghe/WikiCommons
Os francelhos passam o inverno no continente africano e regressam em fevereiro ao Baixo Alentejo. Foto: Sumeet Moghe/WikiCommons

Nos céus do Alentejo, principalmente na Zona de Proteção Especial de Castro Verde, já se veem casais de francelhos (Falco naumanni) a sobrevoar a paisagem. Membros da família dos falcões, estas aves migratórias fizeram uma longa viagem, desde a África, chegando, no início do ano, ao sul do nosso país.

Conhecida também como peneireiros-das-torres, a espécie está numa luta permanente pela sobrevivência, encontrando-se atualmente ameaçada de extinção em Portugal.

O peneireiro-das-torres foi, no início do século XX, uma espécie muito comum em Portugal, mas a sua população diminuiu drasticamente nos anos 1990, não ultrapassando hoje os 150 casais.

A falta de locais para nidificar é um dos principais obstáculos à sua reprodução. Não fazendo os próprios ninhos, os francelhos recorrem a estruturas antigas, como casas de campo, edifícios, monumentos e montes antigos para construir os seus abrigos. Mas a recuperação do património histórico e o restauro dos edifícios contribuíram para o desaparecimento de muitos locais de nidificação desta espécie.

Os investigadores estão a construir paredes com orifícios onde o francelho pode abrigar-se e construir os seus ninhos. Foto: LPN
Os investigadores estão a construir paredes com orifícios onde o francelho pode abrigar-se e construir os seus ninhos. Foto: LPN

No passado, o peneireiro-das-torres alimentava-se também nas extensas áreas agrícolas de cereal de sequeiro e nas pastagens ao redor de vilas e cidades. A redução das áreas de rotação de cereal e de pousio, o aumento dos cultivos com regadio, o abandono da agricultura e intensificação da pastorícia conduziram, nas últimas décadas, a uma diminuição significativa do seu habitat de alimentação.

Uma equipa da Liga para a Proteção da Natureza (LPN) e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa está agora a recuperar os locais de nidificação dos francelhos. A estratégia passa essencialmente por construir paredes e torres de nidificação com o intuito de ajudar estas aves a criar e alimentar os filhotes.

Cada muro está a ser erguido com cerca de meia centena de orifícios, possibilitando à espécie viver em colónias a variar entre três ou quatro casais e muitas dezenas. As paredes estão a ser construídas com métodos mistos, recorrendo-se a tijolos, na parte inferior, e terra batida e calcada (taipa), no nível superior, criando zonas para os ninhos das aves.

Mais de 600 cavidades já foram instaladas na Zona de Proteção Especial de Castro Verde, que é a região onde mais de 80% da espécie se concentra em Portugal.

O perigo da má vizinhança

Inspiradas na natureza, as paredes e torres de nidificação espalhadas pelas planícies alentejanas não são, na verdade, muito diferentes das funções desempenhadas pelos condomínios e bairros residenciais das nossas cidades. Algumas destas paredes chegam a ter mais de 70 buracos, mas nem sempre são usados pelos francelhos.

Rolieiros, corujas-das-torres, mochos-galegos, estorninhos, pombos e gralhas-de-nuca-cinzenta também aproveitam estas estruturas artificiais para fazer os seus ninhos. E não são os melhores vizinhos dos peneireiros-das-torres, uma vez que não se inibem de entrar à força nos buracos já ocupados por peneireiros e expulsá-los sem dó nem piedade.

A invasão dos ninhos por outras aves, sobretudo pombos domésticos e gralhas, é o motivo pelo qual a equipa da LPN está agora a adaptar as cavidades de alguns ninhos artificiais, impedindo que outras aves tomem conta dos espaços.

Para resolver o problema, os investigadores usaram plástico e PVC para reduzir o diâmetro das aberturas das cavidades, permitindo a entrada de fêmeas de francelhos, mesmo que tenham ovos consigo, mas não de outras aves maiores.

As aberturas dos ninhos artificiais estão a ser adaptadas ao tamanho dos francelhos para evitar que outras espécies tomem conta dos espaços. Foto: Universidade de Lisboa
As aberturas dos ninhos artificiais estão a ser adaptadas ao tamanho dos francelhos para evitar que outras espécies tomem conta dos espaços. Foto: Universidade de Lisboa

Uma parte das aberturas foi também adaptada para deixar entrar outras espécies ameaçadas, como rolieiros, peneireiros-vulgares, corujas-das-torres e mochos galegos.

O peneireiro-da-torre passa o inverno no clima quente do continente africano, regressando ao Alentejo em meados de fevereiro. Em março, já se veem alguns ovos e, em abril, nascem as primeiras crias.

A tarefa dos investigadores, porém, não acaba com a construção de ninhos artificiais. Os meses frios, quando a espécie está ausente, são aproveitados para fazer a limpeza das cavidades, deixando as casas dos francelhos limpas e prontas para o seu regresso.

Por enquanto, ainda é possível ver o peneireiro-das-torres a peneirar nas planícies do Baixo Alentejo, caçando escaravelhos, grilos, gafanhotos, entre outros insetos, para alimentar as suas famílias.

Referência da notícia

A conservação das aves estepárias é uma das prioridades da LPN. Liga para a Proteção da Natureza

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