Quantas corujas e mochos há em Portugal? Participe no censo das aves noturnas para descobrir a resposta

Saiba aqui quais as datas de observação e ajude a proteger várias espécies em declínio que são essenciais no equilíbrio dos ecossistemas.

O programa Noctua, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) acontece todos os anos desde 2010. Foto de um mocho bufo-Real: Adobe Stock
O programa Noctua, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) acontece todos os anos desde 2010. Foto de um mocho bufo-Real: Adobe Stock

As aves noturnas estão em declínio em Portugal, com espécies como coruja-das-torres, mocho-galego ou alcaravão a registar quedas acentuadas nas suas populações.

Expansão agrícola, uso de pesticidas e destruição de habitats estão entre as grandes ameaças a comprometer a sobrevivência a longo prazo destes predadores e polinizadores cruciais para o equilíbrio dos ecossistemas.

Saber, no entanto, a dimensão das perdas é uma tarefa exigente, que requer continuidade, coordenação e metodologias rigorosas. Essa é a missão do programa Noctua, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Em busca das criaturas da noite

Todos os anos, desde 2010, dezenas de ornitólogos e voluntários mobilizam-se por todo o país, saindo em expedições por campos, matas e florestas, à procura das aves noturnas que sobrevoam o território continental.

Ao longo de quase duas décadas, cerca de 150 voluntários já participaram nos censos da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Foto: Adobe Stock
Ao longo de quase duas décadas, cerca de 150 voluntários já participaram nos censos da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Foto: Adobe Stock

O 17.º Censo de Corujas e Mochos de Portugal já está, portanto, no terreno, dando continuidade à monitorização a longo prazo de aves noturnas em Portugal. Os resultados da contagem vão ser posteriormente utilizados para suportar as políticas de conservação da avifauna.

São dez as espécies-alvo do NOCTUA Portugal, coordenado pelo Grupo de Trabalho sobre Aves Noturnas da SPEA: coruja-das-torres (Tyto alba), mocho-d’orelhas (Otus scops), bufo-real (Bubo bubo), mocho-galego (Athene noctua), coruja-do-mato (Strix aluco), bufo-pequeno (Asio otus), coruja-do-nabal (Asio flammeus), noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus), noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis) e alcaravão (Burhinus oedicnemus).

A iniciativa decorre em três períodos ao longo do ano, com momentos diferentes para o Norte e para o Sul do país, que variam de acordo com os ritmos biológicos das espécies. Para os que estão interessados em participar nos censos, é importante reter as datas da campanha 2025-2026.

Região 1º período 2º período 3º período
Norte15 de dezembro a 31 de janeiro15 de março a 30 de abril15 de maio a 15 de junho
Sul1 de dezembro a 15 de janeiro1 de março a 15 de abril1 a 31 de maio

As visitas são realizadas em espaços previamente delimitados com 10 por 10 quilómetros. Cada participante deverá assumir faseadamente cinco postos de escuta na quadrícula que lhe for atribuída.

Terá de comparecer a três sessões, nos dias que lhe forem mais convenientes, desde que não ultrapasse o período recomendado. O objetivo é avaliar a distribuição das espécies, tendências populacionais e alterações no habitat de corujas, mochos e noitibós.

Se quiser participar no 17º censo do programa Noctua, será muito bem-vindo, mas terá de saber distinguir os sons emitidos por mochos, corujas e noitibós. Na foto, um noitibó-europeu: Adobe Stock
Se quiser participar no 17º censo do programa Noctua, será muito bem-vindo, mas terá de saber distinguir os sons emitidos por mochos, corujas e noitibós. Na foto, um noitibó-europeu: Adobe Stock

A SPEA aconselha a levar para o campo binóculos, um bloco de notas e também chapéu, água e vestuário adequado. As visitas devem acontecer logo após o pôr-do-sol, mas ainda antes do lusco-fusco.

Dez minutos de silêncio e total concentração

Aos voluntários ser-lhe-á pedido que permaneçam em silêncio durante dez minutos em cada ponto de observação. Mais do que visão e poder de observação apurados, será preciso grande capacidade de concentração para ouvir e distinguir os sons emitidos por mochos corujas e noitibós.

Cada canto ou chirriar escutados deve ser anotado numa ficha com o máximo de rigor, incluindo o minuto exato da primeira deteção, a possível direção do chamamento e o número mínimo de indivíduos.

Com a conclusão do trabalho de campo, os formulários, com as coordenadas exatas dos pontos de escuta, serão depois comparados com os registos feitos em anos anteriores.

O intuito é criar um mapa dinâmico de distribuição e abundância das aves noturnas por todo o território de Portugal continental.

A coruja-do-mato está entre as cinco espécies que maior declínio registou nas monitorizações anuais do programa Noctua. Foto: Adobe Stock
A coruja-do-mato está entre as cinco espécies que maior declínio registou nas monitorizações anuais do programa Noctua. Foto: Adobe Stock

As janelas temporais definidas para os censos garantem que a escuta coincide com os momentos de maior atividade vocal das aves noturnas, permitindo recolher dados comparáveis entre regiões e ao longo dos anos.

O último relatório do Noctua aponta cinco espécies em declínio moderado: a coruja-do-mato, o mocho-de-orelhas, o mocho-galego, o mocho-pequeno e o alcaravão. A única espécie com um aumento moderado é o noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus). As restantes três espécies registam uma tendência incerta ou indeterminada.

A repetição anual dos cinco pontos escuta em cada quadrícula permite ao programa identificar tendências, mudanças lentas e sinais subtis de alteração ecológica em diferentes tipos de paisagens - bosques, planícies ou linhas de água.

Ao garantir que as contagens se reptem todos os anos nos mesmos locais, os especialistas conseguem identificar tendências de crescimento ou de declínio das populações, podendo agir preventivamente, além de fornecer dados cruciais para fazer cumprir as obrigações legais associadas à Diretiva Aves da União Europeia.

O declínio de corujas e mochos poderá indicar problemas ambientais, como expansão agrícola ou presença de poluentes no solo. Foto de coruja-das-torres: Adobe Stock
O declínio de corujas e mochos poderá indicar problemas ambientais, como expansão agrícola ou presença de poluentes no solo. Foto de coruja-das-torres: Adobe Stock

Avaliar a qualidade dos habitats é mais uma dimensão do programa, que usa as corujas e os mochos como bioindicadores ecológicos. O declínio destas duas espécies poderá por isso sinalizar problemas ambientais, como alterações ao uso do solo ou presença de poluentes.

Referências da notícia

NOCTUA-Portugal: como participar, requisitos e contactos. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA)

NOCTUA-Portugal: monitorização de aves noturnas. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA)