Na terra do Lusitano, a Feira Nacional do Cavalo celebra 50 anos e sonha com a UNESCO
Na vila ribatejana da Golegã, o mais emblemático encontro equestre português assinala um marco histórico após recente reconhecimento como património imaterial.

Centenas de cavaleiros e amazonas, trajados à portuguesa, tomam as ruas da Golegã. Montados em exemplares lusitanos de postura altiva, misturam-se com criadores e visitantes numa vila ribatejana que suspende o quotidiano ao som dos cascos no empedrado das ruas.
A recente classificação reconhece uma tradição de raízes seculares e inaugura mais um capítulo na história de uma localidade profundamente ligada ao cavalo.
O Património Cultural, I.P., destacou a manifestação como símbolo da identidade local e da cultura equestre portuguesa. Sublinhou também a sua continuidade histórica, desde a antiga Feira de São Martinho, documentada desde o século XVI. Trata-se, portanto, de um passo decisivo na proteção e na valorização de um legado transmitido entre gerações.
As origens de uma tradição secular
A história da Golegã ajuda a explicar a dimensão que o evento alcançou. Elevada a vila por D. João III em 1534, a povoação desenvolveu-se numa região fértil, condicionada pela proximidade dos rios e pela atividade agrícola. Ao longo dos séculos, lavradores, criadores e proprietários rurais desenvolveram uma relação estreita com o cavalo, transformando-o num elemento central da economia e da vida quotidiana.

Essa ligação foi crescendo depois com feiras e mercados que atraíam gente de várias regiões. No século XVIII, com o impulso de Marquês de Pombal, surgiram concursos e provas que contribuíram para consolidar a reputação equestre. A partir daí, a Golegã começou gradualmente a afirmar-se como uma referência nacional na criação e nas mostras de cavalos.
De feira regional a referência internacional
As origens do certame remontam à Feira de São Martinho, realizada há vários séculos. Em 1972, a vertente equestre alcançou dimensão própria e passou a designar-se Feira Nacional do Cavalo. O crescimento foi contínuo e o que começou como um espaço para promover e comercializar animais converteu-se num dos mais importantes encontros do setor a nível internacional.
O processo que conduziu ao reconhecimento patrimonial exigiu mais de um ano de trabalho e a preparação de cerca de duas mil páginas de documentação, reunindo testemunhos, registos históricos e elementos culturais associados à manifestação.
O Lusitano no centro da identidade local
Falar da Golegã é falar, sobretudo, do Cavalo Lusitano. A associação entre a vila e esta raça é tão forte que o concelho é frequentemente apontado como a sua principal montra internacional. Algumas das mais influentes linhagens do Lusitano moderno nasceram ou consolidaram-se na região, incluindo os célebres cavalos Veiga.
Essa relação torna-se mais evidente durante a Feira da Golegã. No Arneiro, realizam-se concursos de apresentação, provas de ensino, demonstrações de equitação de trabalho e exibições de arte equestre.
Mas a importância do Lusitano vai além do simbolismo. Considerada uma das mais antigas raças de sela do mundo, é valorizada pela inteligência, capacidade de aprendizagem, equilíbrio e versatilidade. Essas características ajudaram a projetar internacionalmente o nome da Golegã e contribuíram para consolidar a feira como um ponto de encontro obrigatório para criadores e investidores.
Aniversário com o futuro no horizonte
Entre 6 e 15 de novembro, a edição de 2026 assinalará a 50.ª Feira Nacional do Cavalo, em simultâneo com a 27.ª Feira Internacional do Cavalo Lusitano e a histórica Feira de São Martinho. O dia 11 de novembro, dedicado a São Martinho, continuará a ser o momento de maior afluência, reunindo concursos, celebrações dedicadas às raças autóctones e milhares de visitantes.

O simbolismo do jubileu coincide com um período particularmente importante para a organização. Depois da inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, o objetivo é a candidatura à UNESCO, meta defendida pela autarquia e apresentada como o próximo grande passo para o certame.
Referências da notícia
FNC. Feira Nacional do Cavalo.
Diário da República. Inscrição da «Feira da Golegã» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.