Na terra do Lusitano, a Feira Nacional do Cavalo celebra 50 anos e sonha com a UNESCO

Na vila ribatejana da Golegã, o mais emblemático encontro equestre português assinala um marco histórico após recente reconhecimento como património imaterial.

Todos os anos, em novembro, as ruas da Golegã recebem a maior feira do cavalo em Portugal. Foto: Feira Nacional do Cavalo
Todos os anos, em novembro, as ruas da Golegã recebem a maior feira do cavalo em Portugal. Foto: Feira Nacional do Cavalo

Centenas de cavaleiros e amazonas, trajados à portuguesa, tomam as ruas da Golegã. Montados em exemplares lusitanos de postura altiva, misturam-se com criadores e visitantes numa vila ribatejana que suspende o quotidiano ao som dos cascos no empedrado das ruas.

A imagem faz parte da identidade local há gerações, mas, na edição de 2026, assume um significado especial. A vila da Golegã celebra o 50.º aniversário da Feira Nacional do Cavalo, depois de o evento ter sido inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. A distinção reforça agora a ambição de alcançar o reconhecimento da UNESCO.

A recente classificação reconhece uma tradição de raízes seculares e inaugura mais um capítulo na história de uma localidade profundamente ligada ao cavalo.

O Património Cultural, I.P., destacou a manifestação como símbolo da identidade local e da cultura equestre portuguesa. Sublinhou também a sua continuidade histórica, desde a antiga Feira de São Martinho, documentada desde o século XVI. Trata-se, portanto, de um passo decisivo na proteção e na valorização de um legado transmitido entre gerações.

As origens de uma tradição secular

A história da Golegã ajuda a explicar a dimensão que o evento alcançou. Elevada a vila por D. João III em 1534, a povoação desenvolveu-se numa região fértil, condicionada pela proximidade dos rios e pela atividade agrícola. Ao longo dos séculos, lavradores, criadores e proprietários rurais desenvolveram uma relação estreita com o cavalo, transformando-o num elemento central da economia e da vida quotidiana.

O Lusitano é o cavalo de sela mais antigo do mundo e reconhecido pela inteligência e temperamento dócil. Foto: Feira Nacional do Cavalo
O Lusitano é o cavalo de sela mais antigo do mundo e reconhecido pela inteligência e temperamento dócil. Foto: Feira Nacional do Cavalo

Essa ligação foi crescendo depois com feiras e mercados que atraíam gente de várias regiões. No século XVIII, com o impulso de Marquês de Pombal, surgiram concursos e provas que contribuíram para consolidar a reputação equestre. A partir daí, a Golegã começou gradualmente a afirmar-se como uma referência nacional na criação e nas mostras de cavalos.

De feira regional a referência internacional

As origens do certame remontam à Feira de São Martinho, realizada há vários séculos. Em 1972, a vertente equestre alcançou dimensão própria e passou a designar-se Feira Nacional do Cavalo. O crescimento foi contínuo e o que começou como um espaço para promover e comercializar animais converteu-se num dos mais importantes encontros do setor a nível internacional.

Hoje, a Feira da Golegã integra três realidades complementares. A secular Feira de São Martinho, a Feira Nacional do Cavalo e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano. Juntas, reúnem criadores, cavaleiros, campinos, artesãos e visitantes de dezenas de países, preservando práticas culturais enraizadas no território.

O processo que conduziu ao reconhecimento patrimonial exigiu mais de um ano de trabalho e a preparação de cerca de duas mil páginas de documentação, reunindo testemunhos, registos históricos e elementos culturais associados à manifestação.

O Lusitano no centro da identidade local

Falar da Golegã é falar, sobretudo, do Cavalo Lusitano. A associação entre a vila e esta raça é tão forte que o concelho é frequentemente apontado como a sua principal montra internacional. Algumas das mais influentes linhagens do Lusitano moderno nasceram ou consolidaram-se na região, incluindo os célebres cavalos Veiga.

Essa relação torna-se mais evidente durante a Feira da Golegã. No Arneiro, realizam-se concursos de apresentação, provas de ensino, demonstrações de equitação de trabalho e exibições de arte equestre.

Mas a importância do Lusitano vai além do simbolismo. Considerada uma das mais antigas raças de sela do mundo, é valorizada pela inteligência, capacidade de aprendizagem, equilíbrio e versatilidade. Essas características ajudaram a projetar internacionalmente o nome da Golegã e contribuíram para consolidar a feira como um ponto de encontro obrigatório para criadores e investidores.

Aniversário com o futuro no horizonte

Entre 6 e 15 de novembro, a edição de 2026 assinalará a 50.ª Feira Nacional do Cavalo, em simultâneo com a 27.ª Feira Internacional do Cavalo Lusitano e a histórica Feira de São Martinho. O dia 11 de novembro, dedicado a São Martinho, continuará a ser o momento de maior afluência, reunindo concursos, celebrações dedicadas às raças autóctones e milhares de visitantes.

No Arneiro, realizam-se concursos, provas e exibições de arte equestre. Foto: Feira Nacional do Cavalo
No Arneiro, realizam-se concursos, provas e exibições de arte equestre. Foto: Feira Nacional do Cavalo

O simbolismo do jubileu coincide com um período particularmente importante para a organização. Depois da inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, o objetivo é a candidatura à UNESCO, meta defendida pela autarquia e apresentada como o próximo grande passo para o certame.

Referências da notícia

FNC. Feira Nacional do Cavalo.
Diário da República. Inscrição da «Feira da Golegã» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.