Há uma ilha açoriana que decidiu proteger milhões de anos de história. O mundo começou a segui-la
Santa Maria preserva o mais importante património paleontológico insular do Atlântico Norte e criou um modelo único de conservação que já inspira outros arquipélagos.

Durante milhões de anos, o mar contou uma história sobre a ilha de Santa Maria. Primeiro ergueu-a a partir de vulcões submarinos. Depois desgastou-a até a fazer desaparecer sob as águas. Muito mais tarde, devolveu-a à superfície, trazendo consigo um património raro de fósseis marinhos que permaneceu preservado até aos nossos dias.
É essa longa memória geológica que, desde 2018, o Paleoparque de Santa Maria protege. O projeto, que celebra este mês oito anos de existência, tornou-se o primeiro do mundo a abranger todo o património paleontológico de uma ilha inteira. Mais do que preservar algumas jazidas excecionais, protege uma paisagem completa.
A singularidade deste modelo já despertou o interesse de arquipélagos como as Canárias e Cabo Verde, que estudam formas de adaptar a experiência açoriana aos seus próprios territórios. Poucos lugares, afinal, conseguem reunir uma combinação tão rara entre riqueza científica, proteção legal e investigação continuada.
Uma ilha que conserva o que as outras perderam
Santa Maria distingue-se das restantes ilhas dos Açores por ser a mais antiga do arquipélago e estar há mais de dois milhões de anos sem atividade vulcânica significativa. Essa aparente tranquilidade geológica acabou por se transformar numa extraordinária vantagem científica.
Há cerca de seis a oito milhões de anos, depois de emergir do fundo do oceano, a ilha atravessou um longo período de submersão. Durante esse intervalo, o topo do antigo edifício vulcânico ficou coberto por sedimentos marinhos ricos em conchas, moluscos, dentes de tubarão e restos de grandes cetáceos.
Nas restantes ilhas açorianas, o percurso foi bem diferente. As sucessivas erupções cobriram os sedimentos mais antigos com novas escoadas lávicas, apagando grande parte desse registo. Em Santa Maria, pelo contrário, a ausência de vulcanismo recente permitiu conservar um arquivo geológico excecional.
É por isso que a ilha alberga a maior jazida de fósseis a céu aberto do Atlântico Norte e constitui um caso raro de conservação de fósseis em contexto estritamente insular, uma realidade praticamente sem paralelo à escala mundial.
O passado continua a produzir conhecimento
A riqueza paleontológica de Santa Maria começou por despertar a curiosidade dos investigadores. Hoje, alimenta uma das mais consistentes linhas de investigação desenvolvidas em território insular.
Nas últimas duas décadas, equipas do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade dos Açores, em colaboração com dezenas de especialistas nacionais e internacionais, têm regressado sucessivamente à ilha para estudar os seus depósitos fossilíferos. O resultado é impressionante.

Enquanto nas restantes ilhas açorianas os vestígios de baleias resumem-se, regra geral, a um dente ou a um fragmento isolado de vértebra, Santa Maria preserva vários locais onde surgem vértebras completas destes grandes cetáceos. A qualidade da conservação tornou a ilha uma referência para compreender a evolução dos ecossistemas do Atlântico durante o Pliocénico.
E foi precisamente essa sucessão de descobertas que levou Santa Maria a dar um passo que nenhum outro território tinha ousado dar. Em vez de proteger apenas alguns dos seus locais mais emblemáticos, decidiu preservar toda a memória geológica que ainda permanecia gravada na paisagem. É aí que começa a história singular do Paleoparque de Santa Maria.
A ciência revelou uma ilha ainda mais extraordinária
À medida que os investigadores regressavam a Santa Maria, tornava-se evidente que a ilha escondia muito mais do que alguns depósitos fossilíferos isolados. Cada nova campanha de campo acrescentava peças a um puzzle que continuava longe de estar completo e ajudava a perceber que aquele património ultrapassava largamente o que se conhecia até então.

Um dos momentos decisivos aconteceu quando um estudo publicado na revista Geoheritage reavaliou o património paleontológico e geológico da ilha. O trabalho identificou muito mais locais de interesse científico do que os anteriormente reconhecidos, aumentando o número de geossítios de 15 para 26 e propondo a classificação de alguns dos mais emblemáticos como monumentos naturais.
Pouco depois, outra investigação confirmou que a famosa Pedra-que-pica representa a maior acumulação fóssil multiespecífica conhecida em plataformas de ilhas oceânicas vulcânicas em todo o planeta. Outros estudos revelaram ainda a extraordinária riqueza de moluscos marinhos fossilizados e reforçaram a importância das jazidas de cetáceos, onde surgem vértebras inteiras preservadas de forma excecional, uma raridade mesmo entre os grandes depósitos fósseis mundiais.
Nenhuma destas descobertas surgiu isoladamente. São o resultado de mais de vinte anos de trabalho desenvolvido por uma vasta equipa multidisciplinar que reuniu geólogos, paleontólogos, biólogos, oceanógrafos, geoquímicos, estatísticos e muitos outros especialistas. Até artistas, realizadores e jornalistas acompanharam algumas das expedições, ajudando a transformar esse conhecimento em património partilhado pela sociedade.
Um modelo que inspira outros arquipélagos
Foi precisamente essa sucessão de descobertas que levou a Região Autónoma dos Açores a criar o Paleoparque de Santa Maria. Mais do que uma área protegida, trata-se de um modelo de conservação sem paralelo.
Pela primeira vez, todo o património paleontológico de uma ilha passou a beneficiar de um enquadramento legal específico, permitindo definir zonas de acesso condicionado ou totalmente protegidas para garantir a preservação das jazidas fósseis mais sensíveis.
A proteção não se limita, contudo, aos afloramentos rochosos. A Casa dos Fósseis, integrada no Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo, em Vila do Porto, aproxima este património do público através de exposições e atividades de divulgação científica, mostrando que preservar também significa compreender.
A história continua a escrever-se
O oitavo aniversário do paleoparque não assinala o fim de um percurso. Marca apenas mais um capítulo de uma investigação que continua a revelar novos segredos.
Os cientistas estimam que, ao longo dos próximos anos, serão publicados cerca de duas dezenas de novos trabalhos científicos baseados no material recolhido em Santa Maria. Alguns poderão ter impacto internacional e voltar a colocar a ilha açoriana no centro da investigação sobre a evolução dos ecossistemas marinhos do Atlântico.
Referência da notícia
S. P. Ávila, M. Cachão, R. S. Ramalho, A. Z. Botelho, P. Madeira, A. C. Rebelo, R. Cordeiro, C. Melo, A. Hipólito, M. A. Ventura & J. H. Lipps. The Palaeontological Heritage of Santa Maria Island (Azores, NE Atlantic): a Re-evaluation of Geosites in GeoPark Azores and Their Use in Geotourism, Geoheritage.
Sérgio P. Ávila, Ricardo Ramalho, Jörg Habermann, Rui Quartau, Andreas Kroh, Björn Berning, Markes Johnson, et al.. Palaeoecology, taphonomy, and preservation of a lower Pliocene shell bed (coquina) from a volcanic oceanic island (Santa Maria Island, Azores, NE Atlantic Ocean). Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology.
S. P. Ávila, M. Cachão, R. S. Ramalho, A. Z. Botelho, P. Madeira, A. C. Rebelo, R. Cordeiro, C. Melo, A. Hipólito,M. A. Ventura, et al.. Restos fossilizados de cetáceos em Santa Maria, Geoheritage.