Gentílicos portugueses. Descubra qual é a sua verdadeira identidade nesta viagem pelas terras portuguesas
Conhecer os nomes que se dão aos habitantes de vilas ou cidades portuguesas é percorrer a nossa História e mergulhar nas heranças que os povos antigos deixaram na Península Ibérica.

Saber qual é o gentílico de cada habitante pode ser um pouco confuso. Dentro da nossa geografia pessoal cabem muitos lugares. Somos simultaneamente de um país e de uma cidade e, não raras vezes, também de uma aldeia ou de um bairro. Temos, portanto, muitos territórios a definir a identidade e o nosso sentimento de pertença.
Um louletano é naturalmente de Loulé, mas não é por isso que deixa de ser algarvio ou, ainda, altense, se viver ou tiver nascido na vila de Alte. Um melgacense é de Melgaço, mas orgulhar-se-á, certamente, de ser um nortenho e um minhoto devoto às suas tradições.

Está, por isso, lançado o caos com os gentílicos – adjetivos ou substantivos que indicam a naturalidade ou a proveniência e que podem chegar aos milhares. Para aumentar ainda mais a confusão, têm na sua base inúmeras influências históricas e linguísticas.
Um gentílico é, como tal, muito mais do que uma biografia individual de cada residente ou natural de um determinado país ou cidade. As suas formas variadas, como aguedense (Águeda), sadino (Setúbal) ou coimbrão (Coimbra) refletem, acima de tudo, um riquíssimo ensopado cultural em que Portugal e a Península Ibérica estão mergulhados.
O legado do Império Romano
Sabia, por exemplo, que os habitantes de Braga, além de bracarenses, podem ser chamados de bracaraugustanos? O gentílico não lembra a ninguém, mas é uma inegável herança do Império Romano, quando a cidade foi batizada de Bracara Augusta pelo imperador César Augusto por volta do ano 14 antes de Cristo.
Com origem no Mesolítico, o território já existia como cidade antes dos romanos invadirem a Península Ibérica, sendo habitado pelos Brácaros. Chamavam-lhes brácaros por vestirem bracas, termo que deu origem à palavra bragas e que significava calções.
O flaviense de Chaves tem, por seu turno, origem no imperador romano Titus Flavius Vespasiano, que fundou a cidade, no ano de 79 antes de Cristo. Flaviense também é a primeira designação da cidade – Aquae Flavie.
Fique a saber ainda que quem é da Guarda é um egitaniense, ou um egiptano. Ambos derivam do antigo topónimo Egitânia, cidade fundada no século I antes de Cristo pelos romanos no território que hoje corresponde a Idanha-a-Velha, no distrito de Castelo Branco.
Durante muito tempo, os historiadores julgaram que a Egitânia ficava na Guarda, mas mesmo descobrindo mais tarde a verdadeira localização, o gentílico ficou enraizado.
A herança das reconquistas cristãs
Embora sejam principalmente de origem latina, datados do período do domínio romano, boa parte dos topónimos chegou também com a reconquista cristã dos territórios mouros, que conduziu à formação do reino de Portugal.

A origem de Guimarães remonta a uma vila designada Vimaranes, nome de Lucídio Vimaranes, nobre do Condado Portugalense e dono desta terra. A palavra evoluiu depois para Guimarães por via do latim, mas os seus habitantes continuam a ser designados por vimaranenses.
Um alentejano de Cuba é um cubense e alguns investigadores acreditam que o nome se deve ao facto de, após conquistar a cidade aos árabes, as tropas de D. Sancho II encontrarem uma grande quantidade de cubas para guardar o vinho. Outros investigadores defendem que a origem é muito anterior à reconquista e deriva do árabe Coba, diminutivo de torre.
As influências da Grécia Antiga
Há ainda algumas cidades que devem os seus gentílicos à influência da Grécia Antiga. Um calipolense, por exemplo, vem de Kallipolis – kallos (formoso) + polis (cidade), dando origem ao atual topónimo Vila Viçosa, no distrito de Évora
Ábidis sobreviveu graças a uma loba que o alimentou até ser capturado por caçadores e levado para junto da mãe no reino de Lusitânia. Viria a tornar-se o rei dos lusitanos, fundando a cidade esca-ábidis ou Scalabis, o primeiro nome da cidade de Santarém.
Um tema ainda desconhecido
Conhecer a totalidade dos gentílicos portugueses não é uma tarefa fácil, não só pela enorme quantidade de nomes existentes como também pela dificuldade de encontrar obras com uma descrição sistemática da toponímia portuguesa.
Segundo as linguistas Esperança Cardeira e Alina Villalva, investigadoras da Universidade de Lisboa, a fonte mais importante para o estudo dos topónimos portugueses é o Reportório Toponímico de Portugal (1967), desenvolvido pelo Serviço Cartográfico do Exército, que contém 170 mil nomes de lugares.
Os gentílicos encontram-se principalmente listados em livros de estilo de órgãos de comunicação social, como o Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergstrom e Neves Reis, publicado pela primeira vez em 1955 pelo Diário de Notícias.

Mas quem estiver interessado em aprofundar a pesquisa sobre os gentílicos atribuídos aos habitantes das terras portuguesas poderá sempre consultar algumas ferramentas digitais como o Portal da Língua Portuguesa, a Infopédia da Porto Editora ou a Wikipédia (Lista de gentílicos de Portugal), às quais se pode aceder nas referências deste artigo.
Referência da notícia
Portal da Língua Portuguesa. Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC). Dicionário de Gentílicos e Topónimos.
Infopédia – Dicionários da Porto Editora. 42 gentílicos de Portugal.
Wikipédia. Lista de gentílicos de Portugal.
Esperança Cardeira & Alina Villalva. Gentílicos e topónimos portugueses: algumas questões. Revista GTLex..