Gentílicos portugueses. Descubra qual é a sua verdadeira identidade nesta viagem pelas terras portuguesas

Conhecer os nomes que se dão aos habitantes de vilas ou cidades portuguesas é percorrer a nossa História e mergulhar nas heranças que os povos antigos deixaram na Península Ibérica.

Um algarvio de Loulé é um louletano. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft
Um algarvio de Loulé é um louletano. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft

Saber qual é o gentílico de cada habitante pode ser um pouco confuso. Dentro da nossa geografia pessoal cabem muitos lugares. Somos simultaneamente de um país e de uma cidade e, não raras vezes, também de uma aldeia ou de um bairro. Temos, portanto, muitos territórios a definir a identidade e o nosso sentimento de pertença.

Um louletano é naturalmente de Loulé, mas não é por isso que deixa de ser algarvio ou, ainda, altense, se viver ou tiver nascido na vila de Alte. Um melgacense é de Melgaço, mas orgulhar-se-á, certamente, de ser um nortenho e um minhoto devoto às suas tradições.

Uma minhota de Braga é uma bracarense, bracaraugustana, brácara, bragana ou braguesa. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft
Uma minhota de Braga é uma bracarense, bracaraugustana, brácara, bragana ou braguesa. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft

Está, por isso, lançado o caos com os gentílicos – adjetivos ou substantivos que indicam a naturalidade ou a proveniência e que podem chegar aos milhares. Para aumentar ainda mais a confusão, têm na sua base inúmeras influências históricas e linguísticas.

As suas raízes toponímicas vão de sufixos latinos a germânicos até adaptações fonéticas dos povos antigos que já habitaram as nossas cidades, como celtas, romanos, visigodos ou árabes.

Um gentílico é, como tal, muito mais do que uma biografia individual de cada residente ou natural de um determinado país ou cidade. As suas formas variadas, como aguedense (Águeda), sadino (Setúbal) ou coimbrão (Coimbra) refletem, acima de tudo, um riquíssimo ensopado cultural em que Portugal e a Península Ibérica estão mergulhados.

O legado do Império Romano

Sabia, por exemplo, que os habitantes de Braga, além de bracarenses, podem ser chamados de bracaraugustanos? O gentílico não lembra a ninguém, mas é uma inegável herança do Império Romano, quando a cidade foi batizada de Bracara Augusta pelo imperador César Augusto por volta do ano 14 antes de Cristo.

Com origem no Mesolítico, o território já existia como cidade antes dos romanos invadirem a Península Ibérica, sendo habitado pelos Brácaros. Chamavam-lhes brácaros por vestirem bracas, termo que deu origem à palavra bragas e que significava calções.

Da ocupação romana em Beja também ficou o respeitável pacense, habitante da Pax Iulia, que, nem por isso, deixa de ser um bejense de corpo e alma.

O flaviense de Chaves tem, por seu turno, origem no imperador romano Titus Flavius Vespasiano, que fundou a cidade, no ano de 79 antes de Cristo. Flaviense também é a primeira designação da cidade – Aquae Flavie.

Fique a saber ainda que quem é da Guarda é um egitaniense, ou um egiptano. Ambos derivam do antigo topónimo Egitânia, cidade fundada no século I antes de Cristo pelos romanos no território que hoje corresponde a Idanha-a-Velha, no distrito de Castelo Branco.

Durante muito tempo, os historiadores julgaram que a Egitânia ficava na Guarda, mas mesmo descobrindo mais tarde a verdadeira localização, o gentílico ficou enraizado.

A herança das reconquistas cristãs

Embora sejam principalmente de origem latina, datados do período do domínio romano, boa parte dos topónimos chegou também com a reconquista cristã dos territórios mouros, que conduziu à formação do reino de Portugal.

Um habitante de Aveiro é um aveirense. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft
Um habitante de Aveiro é um aveirense. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft

A origem de Guimarães remonta a uma vila designada Vimaranes, nome de Lucídio Vimaranes, nobre do Condado Portugalense e dono desta terra. A palavra evoluiu depois para Guimarães por via do latim, mas os seus habitantes continuam a ser designados por vimaranenses.

Um alentejano de Cuba é um cubense e alguns investigadores acreditam que o nome se deve ao facto de, após conquistar a cidade aos árabes, as tropas de D. Sancho II encontrarem uma grande quantidade de cubas para guardar o vinho. Outros investigadores defendem que a origem é muito anterior à reconquista e deriva do árabe Coba, diminutivo de torre.

As influências da Grécia Antiga

Há ainda algumas cidades que devem os seus gentílicos à influência da Grécia Antiga. Um calipolense, por exemplo, vem de Kallipoliskallos (formoso) + polis (cidade), dando origem ao atual topónimo Vila Viçosa, no distrito de Évora

O gentílico escalabitano, atribuído aos habitantes de Santarém, tem origem na lenda greco-romana de Ábidis, filho de Calipso e de Ulisses de Ítaca. Fruto de uma relação casual, a criança foi colocada num cesto e atirada ao Tejo, a mando do avô Gorgoris.

Ábidis sobreviveu graças a uma loba que o alimentou até ser capturado por caçadores e levado para junto da mãe no reino de Lusitânia. Viria a tornar-se o rei dos lusitanos, fundando a cidade esca-ábidis ou Scalabis, o primeiro nome da cidade de Santarém.

Um tema ainda desconhecido

Conhecer a totalidade dos gentílicos portugueses não é uma tarefa fácil, não só pela enorme quantidade de nomes existentes como também pela dificuldade de encontrar obras com uma descrição sistemática da toponímia portuguesa.

Segundo as linguistas Esperança Cardeira e Alina Villalva, investigadoras da Universidade de Lisboa, a fonte mais importante para o estudo dos topónimos portugueses é o Reportório Toponímico de Portugal (1967), desenvolvido pelo Serviço Cartográfico do Exército, que contém 170 mil nomes de lugares.

A investigação sobre os gentílicos, em especial, não tem atraído a atenção dos linguistas portugueses, dizem as autoras do artigo “Gentílicos e topónimos portugueses: algumas questões”, publicado na revista GTLex.

Os gentílicos encontram-se principalmente listados em livros de estilo de órgãos de comunicação social, como o Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergstrom e Neves Reis, publicado pela primeira vez em 1955 pelo Diário de Notícias.

Uma alentejana de Beja é uma bejense ou pacense. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft
Uma alentejana de Beja é uma bejense ou pacense. Imagem gerada por IA: Copilot/Microsoft

Mas quem estiver interessado em aprofundar a pesquisa sobre os gentílicos atribuídos aos habitantes das terras portuguesas poderá sempre consultar algumas ferramentas digitais como o Portal da Língua Portuguesa, a Infopédia da Porto Editora ou a Wikipédia (Lista de gentílicos de Portugal), às quais se pode aceder nas referências deste artigo.

Referência da notícia

Portal da Língua Portuguesa. Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC). Dicionário de Gentílicos e Topónimos.
Infopédia – Dicionários da Porto Editora. 42 gentílicos de Portugal.
Wikipédia. Lista de gentílicos de Portugal.
Esperança Cardeira & Alina Villalva. Gentílicos e topónimos portugueses: algumas questões. Revista GTLex..