Dois anos depois de obras de conservação e restauro, o Palácio Nacional de Mafra reabre em julho
É a maior intervenção alguma vez realizada no edifício mandado erguer por D. João V. Um trabalho paciente e minucioso, conduzido por uma equipa multidisciplinar, devolve agora a dignidade ao maior monumento nacional.

O barulho das ferramentas funde-se com o som do raspar de escovas na pedra e cruza-se com as vozes que chegam de diferentes equipas. Estão todos atarefados, acertando os últimos detalhes de uma obra que ficará, certamente, para a História.
Há poeira suspensa no ar, andaimes que recortam a luz e mãos experientes que percorrem superfícies antigas, decifrando os sinais de um tempo esquecido. Técnicos, especialistas e operários trabalham lado a lado, num compasso coordenado, empenhados em devolver a nobreza a paredes e tetos que se desgastaram com os séculos.
Financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, o monumento atravessa a sua primeira grande intervenção de conservação e restauro. O inverno rigoroso atrasou algumas frentes de obra, mas o calendário manteve-se inalterado. Depois de dois anos encerrado, o palácio irá finalmente reabrir aos visitantes em julho.
Uma promessa real
Para compreender a escala deste lugar, é preciso regressar ao início do século XVIII. Em 1717, o rei D. João V ordenou a construção do palácio após prometer erguer um grande convento caso tivesse descendência com a rainha D. Maria Ana de Áustria. O projeto cresceu para lá da promessa inicial, tornando-se uma das obras mais ambiciosas da monarquia portuguesa.
No alto do edifício, o maior conjunto sineiro do mundo, distribuído por dois carrilhões e 119 sinos, organizados entre horas, liturgia e música. No interior, ainda há seis órgãos históricos e uma biblioteca que se destaca entre as mais relevantes do Iluminismo europeu.
Modernidade e antiguidade
Séculos depois, o desafio não foi apenas preservar, mas adaptar sem provocar danos. A empreitada abrangeu a biblioteca, a basílica e a envolvente, incluindo coberturas e fachadas que exigiam atenção urgente.
Em curso está ainda a transferência do Museu Nacional da Música para uma área da ala norte, onde será instalada uma coleção de cerca de mil instrumentos, datados entre os séculos XVI e XX, reunindo tradições eruditas e populares da Europa.

Arquitetos, engenheiros e especialistas em conservação trabalharam em conjunto num exercício de equilíbrio delicado. Muitas das intervenções ocorreram ao nível do chão, onde os pavimentos, marcados por anos de ocupação militar, apresentavam maior desgaste.
Foi aí que se integraram as infraestruturas mais complexas. O maior desafio consistiu em compatibilizar um edifício do século XVIII com as exigências contemporâneas. Sistemas de climatização, controlo de humidade e temperatura implicaram a introdução de cablagens, equipamentos e materiais pesados num espaço que nunca fora preparado para tal.
As cores devolvidas à pedra
Pela primeira vez, realizou-se uma ação global no interior da basílica, centrada na proteção e na valorização do património. Mais do que reparar danos visíveis, tratou-se de prevenir riscos. Fragmentos soltos, juntas abertas e infiltrações foram tratados caso a caso, enquanto as superfícies pétreas foram alvo de cuidados minuciosos.

O palácio foi construído com pedra de diferentes tonalidades, escolhidas para criar variações cromáticas sem recorrer à pintura. Poeiras acumuladas e ausência de limpezas sistemáticas apagaram essa intenção original. O amarelo e o vermelho do lioz tornaram-se quase indistintos sob uma camada cinzenta. O restauro revelou novamente essas cores, devolvendo profundidade e contraste às superfícies.
Um investimento para o futuro
O financiamento de 7,3 milhões de euros, assegurado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, permitiu finalmente avançar com uma intervenção desta envergadura. Mais do que resolver problemas imediatos, o objetivo passa por preparar o monumento para um marco simbólico, os 300 anos da sagração da basílica, a assinalar em 2030.
As próximas etapas deverão estender-se tanto ao interior como ao exterior, abrangendo fachadas, cornijas, sistemas de drenagem e caixilharias. O palácio exige uma atenção constante, quase orgânica, ao ritmo das estações do ano.

O que emerge, no final, não é apenas um edifício recuperado, mas uma presença que se prolonga para além da pedra. Desde 2019, o palácio integra a lista do Património Cultural Mundial da UNESCO, um reconhecimento que não encerra o passado, mas implica uma responsabilidade sobre o seu futuro. Este é, afinal, o maior monumento nacional português.
Referências do artigo
Intervenção de Conservação e Restauro no Palácio Nacional de Mafra. SamThiago – Ateliê de Conservação e Restauro
Palácio Nacional de Mafra restaurado com financiamento do PRR. Recuperar Portugal
Basílica do Palácio Nacional de Mafra Encerra para Obras de Restauro. Página de Facebook do Palácio Nacional de Mafra