Dois anos depois de obras de conservação e restauro, o Palácio Nacional de Mafra reabre em julho

É a maior intervenção alguma vez realizada no edifício mandado erguer por D. João V. Um trabalho paciente e minucioso, conduzido por uma equipa multidisciplinar, devolve agora a dignidade ao maior monumento nacional.

O Palácio Nacional de Mafra é o maior monumento nacional, com mais de 1200 divisões, 156 escadarias e dezenas de pátios e saguões. Foto: Pedro S Bello, obra do próprio, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
O Palácio Nacional de Mafra é o maior monumento nacional, com mais de 1200 divisões, 156 escadarias e dezenas de pátios e saguões. Foto: Pedro S Bello, obra do próprio, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O barulho das ferramentas funde-se com o som do raspar de escovas na pedra e cruza-se com as vozes que chegam de diferentes equipas. Estão todos atarefados, acertando os últimos detalhes de uma obra que ficará, certamente, para a História.

Há poeira suspensa no ar, andaimes que recortam a luz e mãos experientes que percorrem superfícies antigas, decifrando os sinais de um tempo esquecido. Técnicos, especialistas e operários trabalham lado a lado, num compasso coordenado, empenhados em devolver a nobreza a paredes e tetos que se desgastaram com os séculos.

Recuperaram-se abóbadas, corrigiram-se fissuras, limparam-se cantarias em portas e janelas, restauraram-se carpintarias. Tudo converge para um único objetivo, a reabertura do Palácio Nacional de Mafra.

Financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, o monumento atravessa a sua primeira grande intervenção de conservação e restauro. O inverno rigoroso atrasou algumas frentes de obra, mas o calendário manteve-se inalterado. Depois de dois anos encerrado, o palácio irá finalmente reabrir aos visitantes em julho.

Uma promessa real

Para compreender a escala deste lugar, é preciso regressar ao início do século XVIII. Em 1717, o rei D. João V ordenou a construção do palácio após prometer erguer um grande convento caso tivesse descendência com a rainha D. Maria Ana de Áustria. O projeto cresceu para lá da promessa inicial, tornando-se uma das obras mais ambiciosas da monarquia portuguesa.

O resultado é um conjunto que desafia as medidas convencionais. O edifício estende-se por cerca de 1 200 divisões, atravessadas por mais de 4 700 portas e janelas, ligadas por 156 escadarias e organizadas em 29 pátios e saguões.

No alto do edifício, o maior conjunto sineiro do mundo, distribuído por dois carrilhões e 119 sinos, organizados entre horas, liturgia e música. No interior, ainda há seis órgãos históricos e uma biblioteca que se destaca entre as mais relevantes do Iluminismo europeu.

Modernidade e antiguidade

Séculos depois, o desafio não foi apenas preservar, mas adaptar sem provocar danos. A empreitada abrangeu a biblioteca, a basílica e a envolvente, incluindo coberturas e fachadas que exigiam atenção urgente.

Em curso está ainda a transferência do Museu Nacional da Música para uma área da ala norte, onde será instalada uma coleção de cerca de mil instrumentos, datados entre os séculos XVI e XX, reunindo tradições eruditas e populares da Europa.

Obra de conservação e restauro da nave da Basílica do Palácio de Mafra. Foto: reprodução de Facebook/Palácio Nacional de Mafra
Obra de conservação e restauro da nave da Basílica do Palácio de Mafra. Foto: reprodução de Facebook/Palácio Nacional de Mafra

Arquitetos, engenheiros e especialistas em conservação trabalharam em conjunto num exercício de equilíbrio delicado. Muitas das intervenções ocorreram ao nível do chão, onde os pavimentos, marcados por anos de ocupação militar, apresentavam maior desgaste.

Foi aí que se integraram as infraestruturas mais complexas. O maior desafio consistiu em compatibilizar um edifício do século XVIII com as exigências contemporâneas. Sistemas de climatização, controlo de humidade e temperatura implicaram a introdução de cablagens, equipamentos e materiais pesados num espaço que nunca fora preparado para tal.

As cores devolvidas à pedra

Pela primeira vez, realizou-se uma ação global no interior da basílica, centrada na proteção e na valorização do património. Mais do que reparar danos visíveis, tratou-se de prevenir riscos. Fragmentos soltos, juntas abertas e infiltrações foram tratados caso a caso, enquanto as superfícies pétreas foram alvo de cuidados minuciosos.

O desafio no restauro não foi apenas preservar, mas adaptar os trabalhos e instalar equipamentos e andaimes sem provocar danos. Foto: reprodução de Facebook/Palácio Nacional de Mafra
O desafio no restauro não foi apenas preservar, mas adaptar os trabalhos e instalar equipamentos e andaimes sem provocar danos. Foto: reprodução de Facebook/Palácio Nacional de Mafra

O palácio foi construído com pedra de diferentes tonalidades, escolhidas para criar variações cromáticas sem recorrer à pintura. Poeiras acumuladas e ausência de limpezas sistemáticas apagaram essa intenção original. O amarelo e o vermelho do lioz tornaram-se quase indistintos sob uma camada cinzenta. O restauro revelou novamente essas cores, devolvendo profundidade e contraste às superfícies.

Um investimento para o futuro

O financiamento de 7,3 milhões de euros, assegurado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, permitiu finalmente avançar com uma intervenção desta envergadura. Mais do que resolver problemas imediatos, o objetivo passa por preparar o monumento para um marco simbólico, os 300 anos da sagração da basílica, a assinalar em 2030.

Ainda assim, há uma consciência clara de que este é apenas um capítulo. A dimensão do edifício implica um trabalho contínuo, e muitas fragilidades persistem, sobretudo ao nível das infiltrações agravadas pelo inverno recente.

As próximas etapas deverão estender-se tanto ao interior como ao exterior, abrangendo fachadas, cornijas, sistemas de drenagem e caixilharias. O palácio exige uma atenção constante, quase orgânica, ao ritmo das estações do ano.

Após dois anos de obras e um inverno difícil, o Palácio de Mafra está pronto e reabre em julho. Foto: reprodução de Facebook/Palácio Nacional de Mafra
Após dois anos de obras e um inverno difícil, o Palácio de Mafra está pronto e reabre em julho. Foto: reprodução de Facebook/Palácio Nacional de Mafra

O que emerge, no final, não é apenas um edifício recuperado, mas uma presença que se prolonga para além da pedra. Desde 2019, o palácio integra a lista do Património Cultural Mundial da UNESCO, um reconhecimento que não encerra o passado, mas implica uma responsabilidade sobre o seu futuro. Este é, afinal, o maior monumento nacional português.

Referências do artigo

Intervenção de Conservação e Restauro no Palácio Nacional de Mafra. SamThiago – Ateliê de Conservação e Restauro

Palácio Nacional de Mafra restaurado com financiamento do PRR. Recuperar Portugal

Basílica do Palácio Nacional de Mafra Encerra para Obras de Restauro. Página de Facebook do Palácio Nacional de Mafra