Dia Mundial das Aves Migratórias. Como o estado do tempo guia milhares de aves que cruzam Portugal

Boa parte do sucesso desta longa viagem até à África não depende apenas de saber para onde ir. Depende também do vento, da chuva e das condições atmosféricas ao longo do percurso.

As aves migratórias aproveitam ventos favoráveis para reduzir o esforço da viagem, ajustando frequentemente o momento da partida às condições atmosféricas. Foto: Adobe Stock
As aves migratórias aproveitam ventos favoráveis para reduzir o esforço da viagem, ajustando frequentemente o momento da partida às condições atmosféricas. Foto: Adobe Stock

Quando anoitece na Europa Central, um papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) levanta voo em direção às áreas de invernada na África subsariana. Pesa apenas algumas gramas, mas tem pela frente uma das maiores viagens do mundo natural.

Todos os outonos, milhares de aves como esta atravessam Portugal durante a migração. Algumas permanecem apenas alguns dias para recuperar as energias; outras seguem viagem quase sem parar. Em todos os casos, há um fator decisivo que influencia o sucesso da travessia: a meteorologia.

Uma viagem guiada pelo céu

As aves migratórias recorrem a diferentes pistas para encontrar o caminho. A posição do Sol, os padrões das estrelas, a polarização da luz e o campo magnético terrestre são algumas das referências que ajudam a manter o rumo ao longo de milhares de quilómetros.

O papa-moscas-preto encontra em Portugal um importante local de descanso e alimentação durante a migração outonal. Na imagem, um macho e uma fêmea da espécie. Foto: Adobe Stock
O papa-moscas-preto encontra em Portugal um importante local de descanso e alimentação durante a migração outonal. Na imagem, um macho e uma fêmea da espécie. Foto: Adobe Stock

Portugal faz parte de uma das principais rotas migratórias entre a Europa e a África. Por isso, nesta época do ano, uma parte significativa desta movimentação ocorre sobre as nossas cabeças, muitas vezes durante a noite.

O vento pode ser aliado ou adversário

Saber para onde voar é apenas metade do desafio. As aves também precisam escolher quando partir. Para um migrador de longa distância, o vento pode reduzir drasticamente o esforço necessário para viajar ou, pelo contrário, transformar uma etapa simples num desgaste físico. Muitas espécies ajustam, por isso, o momento da partida às condições atmosféricas mais favoráveis.

Os radares meteorológicos têm permitido observar este fenómeno em grande escala. Um estudo baseado em dados de 70 estações, da Escandinávia a Portugal, revelou que os movimentos migratórios noturnos estão fortemente relacionados com os padrões de vento.

As aves não realizam uma viagem contínua, mas alternam períodos de voo com paragens estratégicas para descansar e recuperar as reservas energéticas. A duração dessas escalas depende frequentemente das condições meteorológicas ao longo da rota.

Portugal é mais do que um corredor de passagem

O território português é uma importante área de repouso para muitas espécies antes das etapas mais exigentes da migração. No Algarve, um estudo de longo prazo sobre o papa-moscas-preto demonstrou a importância destes locais de paragem. As aves utilizam-nos para recuperar energia antes de prosseguirem viagem para África.

Os investigadores verificaram ainda que, ao longo de mais de duas décadas, os indivíduos observados apresentaram condição corporal mais baixa e permaneceram mais tempo nestas áreas de repouso.

Embora o estudo não tenha estabelecido uma ligação direta com as variáveis climáticas analisadas, os resultados sugerem alterações nas condições ambientais que influenciam a migração.

O cabo de Sagres, no extremo sudoeste da Europa, é um dos principais pontos de concentração de aves migratórias antes da travessia para África. Foto: Município de Vila do Bispo
O cabo de Sagres, no extremo sudoeste da Europa, é um dos principais pontos de concentração de aves migratórias antes da travessia para África. Foto: Município de Vila do Bispo

Outros trabalhos realizados em Portugal demonstram igualmente que fatores como a temperatura e a precipitação podem afetar a utilização destes locais de escala por diferentes espécies migradoras.

Sagres, a última paragem antes de África

Poucos locais simbolizam melhor a migração do que Sagres. Situado no extremo sudoeste da Europa, este cabo é um importante ponto de concentração de aves antes da travessia para sul.

A região concentra, todos os outonos, uma grande diversidade de aves migradoras. Entre elas encontra-se o papa-moscas-preto, um dos pequenos passeriformes mais comuns nesta época.

Para muitas espécies, chegar a Sagres significa aproximar-se de uma das fases mais exigentes da viagem. A escolha do momento de partida depende frequentemente das condições atmosféricas, sobretudo da direção e intensidade do vento. A meteorologia volta, assim, a assumir um papel decisivo. Uma janela favorável pode facilitar a travessia, mas condições adversas podem obrigar a adiar a partida.

O que acontece num clima em mudança?

A migração está sincronizada com o ambiente. As aves precisam de encontrar alimento no momento certo, condições favoráveis para voar e habitats capazes de sustentar as suas paragens.

Por isso, qualquer alteração nos padrões de temperatura, de precipitação ou de disponibilidade de recursos pode ter consequências ao longo de toda a viagem.

A grande questão científica não é apenas saber se as alterações climáticas afetam as aves migratórias, mas também compreender como cada espécie se adapta a essas mudanças.

A resposta varia consoante a rota, a estratégia migratória e os habitats utilizados. O que é vantajoso para uma espécie pode revelar-se problemático para outra.

Cada observação pode fazer a diferença

É precisamente para entender melhor estes fenómenos que se assinala, a 10 de outubro, o Dia Mundial das Aves Migratórias. Em 2026, a campanha decorre sob o lema "Cada ave conta – as suas observações são importantes!", destacando o contributo da ciência cidadã para o estudo das migrações.

As zonas húmidas são autênticas estações de serviço da migração, permitindo às aves repousar e recuperar as reservas energéticas antes de prosseguirem a viagem. Foto: Adobe Stock
As zonas húmidas são autênticas estações de serviço da migração, permitindo às aves repousar e recuperar as reservas energéticas antes de prosseguirem a viagem. Foto: Adobe Stock

Os registos feitos por observadores em jardins, zonas húmidas, praias ou áreas protegidas ajudam os investigadores a mapear rotas, acompanhar tendências populacionais e identificar ameaças emergentes.

Enquanto milhares de aves continuam a atravessar os céus portugueses durante a noite, os dados recolhidos por cientistas e voluntários permitem compreender melhor como o vento, a chuva e outras variáveis atmosféricas condicionam uma das mais impressionantes viagens do mundo natural.

Referências da notícia

ICNF. Dia Mundial das Aves Migratórias 2026.
World Migratory Bird Day. Campanha oficial 2026.
Cecilia Nilsson, Adriaan M. Dokter, Liesbeth Verlinden, Judy Shamoun-Baranes, Baptiste Schmid, et al.. Revealing patterns of nocturnal migration using the European weather radar network. Ecography.
Bernice Goffin, Marcial Felgueiras & Anouschka R Hof. Increased Stopover Duration and Low Body Condition of the Pied Flycatcher (Ficedula hypoleuca) at an Autumn Stopover Site.
Pedro M. Araújo, Luís P. da Silva, Vitor H. Paiva & Jaime A. Ramos. Reed warblers migrating through Portugal: climatic influence on stopover ecology over the last decade.
Birgen Haest, Ommo Hüppop, Martijn van de Pol & Franz Bairlein. Autumn bird migration phenology: A potpourri of wind, precipitation and temperature effects.
Elza Ferreira Neto. Migrações nocturnas de aves em Portugal continental: aplicação do método "moon-watching". Universidade do Algarve.