Análise de corais nos Galápagos alerta para a intensificação do El Niño, não só este ano, mas também no futuro
O fenómeno El Niño de 2026 continua a intensificar-se e os modelos preveem que ainda não tenha atingido o seu pico de intensidade. Além disso, as projeções indicam que poderá durar mais alguns meses.

O fenómeno pode provocar secas e quebras de colheitas em algumas zonas e inundações noutras, alimentar incêndios florestais em florestas e turfeiras ressequidas, e provocar o branqueamento dos corais em oceanos sobreaquecidos.
O aquecimento global está a intensificar o El Niño
O ENSO (El Niño–Southern Oscillation) é um padrão climático recorrente que envolve alterações na temperatura da água no Pacífico tropical central e oriental e que tem impacto na circulação atmosférica e consequentemente no estado do tempo em muitas regiões do globo, com a ocorrência de fenómenos severos.
Em períodos que variam entre três a sete anos, aproximadamente, as águas superficiais de uma grande faixa do Pacífico tropical aquecem ou arrefecem entre 1°C e 3°C, em comparação com o normal, denominando-se o fenómeno respetivamente El Niño ou La Niña.
Investigadores de diferentes universidades dos EUA divulgaram recentemente um estudo que reflete a importância dos esqueletos de corais das ilhas Galápagos em relação ao ENSO.
Para examinar os padrões históricos do El Niño, os cientistas recolheram amostras de núcleos de 13 corais, incluindo colónias vivas e blocos de corais antigos, das Ilhas Galápagos, região onde o El Niño tem o seu maior impacto.
Os corais crescem um a dois centímetros por ano, segregando camadas de carbonato de cálcio. A composição química destas camadas fornece um registo da temperatura da água do mar a que os corais cresceram.

Os autores analisaram a geoquímica dos esqueletos de corais das ilhas Galápagos ao longo do último milénio e revelaram a existência de um grande aumento recente da variabilidade interanual da temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial oriental, em comparação com os registos paleoclimáticos existentes
De facto, o estudo, que examinou corais modernos e antigos nas Ilhas Galápagos, descobriu que os eventos de El Niño nas últimas quatro décadas foram mais intensos do que qualquer outro nos 1.000 anos anteriores a 1850, quando os humanos começaram a ter impacto no clima com gases com efeito de estufa.
Os eventos El Niño fortes ocorreram nos últimos 40 a 50 anos, enquanto os eventos El Niño anteriores a esse período apresentaram um padrão bastante consistente de El Niño de menor intensidade.
É de referir que há previsões que apontam ser possível chegar-se a atingir temperaturas 1,7 ou 1,8 oC acima dos níveis pré-industriais, o que é muito superior ao recorde atual. Isto deverá alertar-nos para os próximos El Niños.
Os investigadores também examinaram se os processos naturais poderiam ter causado intensificações semelhantes do El Niño nos últimos mil anos. Para isso, utilizaram modelos climáticos que simulam os últimos mil anos com base em históricos de erupções vulcânicas e variabilidade solar. Os modelos não encontraram grandes alterações no El Niño que sugerissem que os processos naturais pudessem criar alterações tão significativas.
Importância deste estudo: como mitigar os efeitos do El Niño
As Autoridades, que vão desde os governos nacionais à Organização Mundial de Saúde, devem começar a preparar-se imediatamente para mitigar estes riscos provocados por este El Niño muito intenso.
Durante os quatro eventos El Niño mais intensos entre 1980 e 2016, a região enfrentou cerca de 80% de precipitação abaixo da média durante a estação das chuvas, entre dezembro e fevereiro.

Mesmo o El Niño de 2023-24, comparativamente moderado, desencadeou uma seca severa, levando à declaração de calamidade pública no Zimbabué, na Zâmbia e no Malawi, e reduzindo o nível do rio Zambeze para o seu mais baixo de sempre.
Com o início da época de plantação em outubro, os governos devem dar prioridade à distribuição de variedades de culturas tolerantes à seca e de maturação precoce em áreas de alto risco e a expansão dos programas de apoio em caso de quebra de colheitas, semelhantes às medidas utilizadas na Etiópia durante a seca de 2015-16.
O governo indonésio tomou medidas importantes para reduzir estes riscos, incluindo a criação de uma agência de restauro de turfeiras e a restrição da desflorestação das florestas primárias e turfeiras.
Os impactos deste super El Niño, também devem estender-se aos ecossistemas que foram enfraquecidos por repetidos eventos climáticos extremos. Por exemplo, a Grande Barreira de Coral está incluída nestes ecossistemas e será afetada por este evento durante um frágil período de recuperação.
Referência da notícia
Cole, J., Thompson, D. et al.. (2026). Recent strengthening of eastern Pacific ENSO in the last millennium paleorecord.