Descubra o que são estes pequenos, mas poderosos oásis de biodiversidade que a chuva trouxe no Alentejo
Os charcos temporários mediterrânicos surgem durante períodos de precipitação intensa. São valiosos para a resiliência climática e a sua conservação é uma prioridade para a União Europeia.

Pequenos charcos nas planícies do Alentejo não serão algo tão inusual, tendo em conta a quantidade de precipitação, que caiu nesta região e em todo o país nas últimas semanas. Mas as pequenas superfícies de água que surgiram, aparentemente do nada, em São Marcos da Ataboeira, no concelho de Castro Verde, são especiais.
As recentes e intensas chuvas reativaram um fenómeno conhecido por charcos temporários mediterrânicos. Considerados prioritários na conservação da biodiversidade à escala europeia, estes espelhos de água desempenham um papel importantíssimo na adaptação dos territórios às alterações climáticas.
Espelhos de água que vêm e vão com as estações do ano
Ao contrário dos lagos e lagoas, os charcos temporários mediterrânicos são depressões pouco profundas, ligadas a lençóis freáticos superficiais, nas quais a luz penetra plenamente e a vegetação cresce em toda a área. A ausência de densidade das águas e de ondas é outra característica que lhe é comum.
Esta alternância entre a fase seca e a húmida (inundada) levou a que inúmeras plantas e animais evoluíssem de forma singular para se adaptarem às condições extremas destes habitats. Para sobreviver, as espécies são capazes de viver imersas alguns meses e, de seguida, resistir às condições de secura durante a época estival.

A fauna e a flora dos charcos temporários são, por isso, exclusivas destes habitats. Mas não se julgue que são lugares pacatos e monótonos. São, antes, microcosmos a pulsar de vida, frequentemente considerados hotspots de biodiversidade a nível local.
Basta dizer que a sua riqueza biológica, de acordo com os investigadores, é geralmente muito superior à de outros meios aquáticos, como lagoas permanentes e barragens.
Fósseis vivos com 100 milhões de anos
A diversidade de espécies aquáticas dos charcos de São Marcos da Ataboeira está, por estes dias, a ser monitorizada por equipas de biólogos da Liga da Proteção da Natureza (LPN). Variadíssimas espécies foram, entretanto, registadas, mas a que mais surpreendeu foi uma criatura anfíbia conhecida como camarão-girino.
Com morfologia praticamente inalterada há milhões de anos, vivem no fundo dos charcos temporários e cumprem funções vitais na decomposição da matéria orgânica. Servem ainda de bioindicadores da qualidade ambiental, controlando também pragas de insetos.
Não medem mais de 10 centímetros e têm um ciclo de vida curto, podendo os seus ovos permanecer inativos durante décadas, eclodindo apenas quando a água regressa ao charco temporário.

Estes pequenos charcos estão igualmente dominados por plantas anfíbias perenes, que acordam no inverno e na primavera. Produzem um grande número de sementes, que entram em dormência quando a água começa a desaparecer, no verão, conseguindo resistir aos períodos de seca.
A importância de preservar um microcosmo ameaçado
A LPN acompanha estes charcos desde 2013, procurando produzir investigação científica para apoiar a sua conservação. A continuidade destes habitats está seriamente ameaçada pela desinformação e pela pressão humana, estimando-se que, nas últimas décadas, tenham sofrido uma redução de 50%.
A deterioração da qualidade da água, o desaparecimento das plantas típicas – substituídas por espécies invasoras, como a acácia – são alguns indicadores de degradação destes charcos.
Tesouros guardados no Alentejo e no Algarve
Os últimos dados da LPN davam conta de que havia cerca de uma centena de charcos temporários na costa sudoeste portuguesa, sobretudo nos concelhos de Odemira, Vila Nova de Milfontes, Longueira e Almograve, na região alentejana, e em Vila do Bispo e Aljezur, já em território algarvio.
Dada a sua importância, os charcos temporários mediterrânicos são classificados como habitats prioritários pela União Europeia. A sua preservação inclui objetivos definidos nas políticas comunitárias ambientais, especialmente no âmbito do restauro da natureza e da adaptação climática.

Apesar de pequenos – a sua dimensão varia entre 50 metros quadrados e 7,3 hectares –, estes ecossistemas são encarados como fundamentais para a conservação de espécies raras e para o equilíbrio ecológico dos territórios onde estão inseridos.
Referências da notícia
Charcos temporários mediterrânicos de São Marcos da Ataboeira. Liga da Proteção da Natureza
Charcos temporários mediterrânicos. Museu Virtual Biodiversidade. Universidade de Évora