Debaixo de Roma há um segredo que começa a sair da sombra

Roma esconde mais do que mostra — e agora começa a revelar-se. Preparado para conhecer os túneis esquecidos da cidade? Estão escondidos há mais de 100 anos.

Roma
Está prestes a ser descoberto. Foto: Unsplash

Roma tem mais história do que espaço. É uma cidade onde cada pedra parece ter ouvido conversas de imperadores, generais e poetas. Mas, mesmo aqui, onde o passado é visível em cada esquina, ainda há surpresas escondidas. Uma delas estava debaixo do Capitólio — literalmente.

Após quase cem anos fechados ao mundo exterior, os túneis subterrâneos que atravessam o Monte Capitolino estão a ser redescobertos. Sim, debaixo da célebre praça renascentista desenhada por Michelangelo, há um emaranhado de cavernas, galerias e passagens esquecidas pelo tempo — e até agora, pela maioria das pessoas.

Chama-se Grottino del Campidoglio, ou Gruta do Capitólio, e estende-se por mais de 3.000 metros quadrados, passando mesmo sob o Fórum Romano e o Teatro Marcello. “No seu ponto mais profundo, uma das cavernas estende-se a cerca de 300 metros abaixo da superfície”, escreve a ‘CNN’.

Lá em baixo, a temperatura cai, a luz esmorece e a cidade antiga começa a contar segredos que não constam dos guias turísticos.

Túneis com mil vidas

Durante séculos, estas passagens tiveram múltiplas funções. Serviram como pedreiras, cisternas, depósitos, tabernas, habitações e até como abrigo antiaéreo durante a Segunda Guerra Mundial. Num dos túneis, ainda se encontram portas de ferro maciço e placas a indicar “gabinettos” — os WC improvisados usados durante os bombardeamentos.

Na Idade Média, foram albergue de comerciantes. No século XIX, tornaram-se parte do quotidiano de uma comunidade operária romana. Havia lojas, restaurantes, vinho a correr em canecas e histórias de amor — incluindo, diz-se, a de Goethe (escritor alemão) por uma anfitriã local.

Roma
Uma cidade com história. Foto: Unsplash

Mas tudo isso foi interrompido nos anos 1920, quando Mussolini decidiu enterrar uma parte da cidade. Literalmente. Para estabilizar a colina e seguir com os seus planos de embelezamento imperial, mandou encher alguns túneis com terra e fechou outros a cadeado. Ficaram esquecidos — até agora.

Uma reabertura a caminho

Hoje, o cenário mudou. Arqueólogos, engenheiros e técnicos estão a preparar o local para visitas guiadas. Já foram feitas digitalizações 3D, reforços estruturais e testes ao ar. E no final de 2026, os túneis deverão reabrir ao público com exposições, iluminação especial, e um percurso acessível — com direito a ver de perto artefactos, ânforas e até argolas de ferro onde, segundo os especialistas, se prendiam animais.

Mas não espere uma visita turística comum. Como explica a arqueóloga responsável, Ersilia D’Ambrosio, à ‘CNN’, não se trata apenas de ver pedras antigas: “É uma experiência imersiva, quase sensorial. Uma arqueologia do invisível.”

D'Ambrosio afirma que a vivência do visitante na gruta foi projetada para combinar arqueologia e espeleologia, atraindo um tipo de visitante diferente daqueles que se concentram nos sítios arqueológicos mais conhecidos acima do solo. "Esta é uma experiência esotérica em muitos aspetos", acrescenta.

Roma
2026 será um ano especial para a cidade. Foto: Unsplash

“A área nunca foi aberta ao público como será”, diz Ambrosio. “Era utilizada pela população, como armazéns, lojas, tabernas, mas nunca como um local para visitação como será.”

Roma por baixo da Roma que conhecemos

Mesmo quem já visitou a cidade inúmeras vezes provavelmente nunca reparou que havia tanto por descobrir debaixo de um dos locais mais visitados. E talvez seja isso o mais extraordinário. Numa cidade com tanto passado à superfície, há ainda capítulos inteiros a serem desenterrados.

Quando abrir, a Gruta do Capitólio promete ser um dos locais mais invulgares de Roma. Não por ser mais antigo do que o Coliseu ou mais grandioso do que o Vaticano, mas por devolver à cidade uma parte de si que foi escondida — e que agora volta à luz, passo a passo, túnel a túnel.