Da Venezuela a Portugal: onde a Terra mais ameaça tremer e como o país se prepara
A catástrofe na América do Sul reaviva o debate sobre a vulnerabilidade geológica portuguesa. Saiba quais as regiões mais expostas a abalos violentos e onde a prevenção é mais urgente.

A rotação habitual do quotidiano na Venezuela foi esta quarta-feira abalada por dois estrondos subterrâneos consecutivos. Sismos com magnitudes de 7,2 e 7,5 na escala de Richter sacudiram o território com um intervalo de escassos 39 segundos.
O balanço provisório contabiliza dezenas de mortos e centenas de feridos, mas as projeções do Serviço Geológico dos Estados Unidos são ainda mais sombrias, estimando que a perda humana possa oscilar entre as 10 mil e as 100 mil vítimas mortais.
O espelho de uma ameaça latente na Península Ibérica
Embora um oceano de distância separe este desastre da Europa, as réplicas emocionais estendem-se rapidamente até à Península Ibérica.
Se a terra voltasse a demonstrar a sua força máxima na nossa geografia, os radares dos especialistas apontariam com precisão para o epicentro das maiores preocupações nacionais.
O alvo mais vulnerável no radar sísmico
A Área Metropolitana de Lisboa e o Vale do Tejo representam, de forma inequívoca, a zona onde um abalo provocaria o maior impacto socioeconómico em território nacional. Esta vulnerabilidade crítica não decorre apenas da probabilidade geológica, mas da combinação perigosa entre a natureza e a ação humana.
Estudos de cenarização desenvolvidos pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil revelam que mesmo um sismo de magnitude moderada, situado entre os 6,0 e os 7,0, teria consequências severas nesta área.
O solo da bacia do Tejo, composto maioritariamente por sedimentos fluviais moles, possui a propriedade física de amplificar as ondas sísmicas, multiplicando o poder de agitação à superfície.

Quando este fator natural se cruza com a maior densidade populacional do país e um vasto parque habitacional antigo, desprovido de engenharia antissísmica, a capital assume o topo do risco em Portugal.
Das regiões mais calmas à frequência açoriana
A avaliação do território continental mostra uma assimetria acentuada na distribuição do perigo sísmico. No patamar inferior da escala de risco estão as regiões do Norte e do Centro Interior. Afastadas das grandes fraturas estruturais, estas zonas assentam em blocos graníticos e xistosos mais estáveis.
Subindo na escala de perigosidade, o Algarve e a faixa litoral do Sul assumem um posicionamento de destaque no mapa da perigosidade. Esta região encontra-se geograficamente próxima do epicentro histórico dos grandes abalos marítimos.
A ameaça nesta faixa costeira é dupla, combinando a forte vibração terrestre com o perigo real de tsunami, desencadeado pelo deslocamento abrupto do volume de água oceânica.
No topo da atividade pura, o arquipélago dos Açores regista a maior frequência de eventos em todo o território português. A sua localização singular faz com que as ilhas registem microssismos quase diariamente. Historicamente, crises sismo-vulcânicas como a que afetou São Jorge recentemente ou o abalo de 1980 na Terceira demonstram que as falhas locais geram impactos severos e recorrentes nas comunidades insulares.
A engrenagem das placas tectónicas
A explicação para esta geografia da ameaça reside na dinâmica interna do planeta. Portugal Continental e os seus arquipélagos encontram-se sob a influência direta da fronteira entre a Placa Euroasiática e a Placa Africana.
O movimento contínuo de colisão e acomodação entre estas gigantescas massas rochosas acumula uma quantidade monumental de energia elástica nas rochas profundas, que acaba por se libertar de forma repentina.
A sismologia divide a atividade gerada por esta interação em dois grandes grupos:
- A sismicidade interplaca ocorre diretamente nos limites das placas, como a zona de fratura Açores-Gibraltar. Dá origem a eventos raros, mas com magnitudes devastadoras, localizados no mar;
- A sismicidade intraplaca manifesta-se no interior do território, através de fraturas secundárias que cedem à pressão das placas principais. Geram abalos de menor magnitude, mas, por acontecerem em terra e perto de cidades, causam danos catastróficos.
A distinção entre medir e sentir
Para compreender a informação técnica disponibilizada por organismos como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, importa ainda distinguir dois conceitos frequentemente confundidos pela opinião pública.
A magnitude, calculada através da Escala de Richter, quantifica de forma matemática a energia pura libertada no epicentro do sismo. Trata-se de um valor único para cada evento, independentemente do local onde é medido.

A intensidade, por outro lado, é avaliada através da Escala de Mercalli Modificada, medindo os efeitos práticos visíveis e o grau de destruição causado à superfície.
A intensidade varia consoante a distância ao epicentro, a qualidade das construções e as características geológicas locais. Um abalo com a mesma magnitude pode registar, por exemplo, intensidades radicalmente distintas em diferentes bairros de uma mesma cidade.
O caminho para a resiliência urbana
A ciência atual repete de forma unânime que a ocorrência de um abalo de terra permanece imprevisível no tempo. O conhecimento acumulado, no entanto, permite antecipar a resposta das estruturas através da aplicação rigorosa do Eurocódigo 8, a norma que regula o design e a construção de edifícios resistentes em solo europeu.
Mas a mitigação do risco assenta, acima de tudo, na preparação coletiva e individual, advertem os especialistas. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil insiste que a resiliência de uma sociedade depende da interiorização de comportamentos automáticos de segurança.
Adotar os três passos fundamentais recomendados pelos manuais de sobrevivência (Baixar, Proteger e Aguardar) reduz drasticamente a probabilidade de ferimentos graves durante os segundos em que a terra treme.
Referência da notícia
IPMA. (2021). Da Sismicidade à Ciência dos Sismos – Para a História dos Sismos em Portugal..
Ferrão, C., et al.. (2015). Estudo da Sismicidade em Portugal no Período 1300-2014: Mapa de Intensidade Máxima Observada (IMO). Revista de Ciências da Terra, Universidade de Évora..
LNEC / Instituto Português da Qualidade. (2010). NP EN 1998-1: Eurocódigo 8 — Projeto de estruturas para resistência aos sismos. Parte 1: Regras gerais, ações sísmicas e regras para edifícios..
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. (2022). Compilação científica sobre sismos – Comunicar Ciência.