Barragem de Castelo do Bode faz 75 anos e mantém-se central na gestão da água e energia
Conheça a história e a importância de uma obra de engenharia que marcou a modernização do país e continua decisiva no planeamento dos recursos hídricos.

A Barragem de Castelo de Bode ergue-se no rio Zêzere, entre Tomar e Abrantes, como uma das infraestruturas mais determinantes para o país. Produz energia, armazena água, regulariza caudais e responde a momentos críticos do sistema elétrico.
A sua importância estratégica começou a evidenciar-se muito antes de entrar em funcionamento. A construção ganhou prioridade em 1945, com a criação da Hidroeléctrica do Zêzere, num momento em que Portugal dava os primeiros passos na eletrificação.
As obras começaram em março de 1946 e transformaram rapidamente o vale. Onde antes havia margens tranquilas, passou a existir um estaleiro em permanente azáfama.
Estaleiro sem precedentes
Durante cinco anos, o ritmo de trabalho foi intenso. Equipas técnicas, operários e engenheiros enfrentaram um desafio sem precedentes no país. Levantar uma barragem de betão com 115 metros de altura exigiu soluções improvisadas, adaptações constantes e uma logística de grande complexidade.
A viagem durou cerca de um mês e teve um grande impacto no país. As publicações da época relataram dezenas de excursões organizadas com o único propósito de ver as obras. Pessoas de todo o país quiseram assistir à passagem do camião, que avançava com extrema dificuldade por estradas estreitas e pouco preparadas.
Pelo caminho, foi necessário reforçar pisos, cortar árvores centenárias e adaptar pontes. O peso provocou avarias sucessivas e deixou marcas visíveis na paisagem, com muros derrubados e postes danificados.
Terras submersas
A construção da barragem não se limitou ao paredão de betão. A criação da albufeira implicou a submersão de uma vasta área ao longo do Zêzere e de várias ribeiras. O rio alargou o seu leito e ocupou terrenos agrícolas, habitações e estruturas ligadas à economia local.

Com a subida das águas, desapareceram aldeias inteiras, pontes e unidades produtivas. Só no concelho de Abrantes ficaram submersos mais de trinta azenhas e lagares. Em Vila de Rei, a perda foi ainda mais profunda. Parte significativa do território ficou debaixo de água, incluindo algumas das terras de cultivo mais férteis.
Quando, em 1950, a obra ficou concluída, a transformação foi imediata. A água começou a subir rapidamente, surpreendendo os habitantes que acompanhavam os trabalhos. A dimensão do lago estende-se por 60 km e, até à inauguração do Alqueva, em 2002, foi a maior reserva nacional de água destinada ao consumo.
O símbolo da modernidade
A inauguração teve lugar a 21 de janeiro de 1951, com a presença das principais figuras do regime, entre as quais o chefe de governo, Oliveira Salazar, e o Presidente da República, Marechal Carmona. Nesse dia, a energia produzida em Castelo do Bode chegou a Lisboa em nove minutos, um feito que simbolizou um avanço decisivo na modernização do país.

A barragem assumiu imediatamente um papel central no abastecimento elétrico da capital, substituindo a antiga central térmica alimentada a carvão. A mudança teve repercussões não apenas na capacidade de produção, mas também na redução da poluição.
De energia à água
As funções ligadas a Castelo de Bode evoluíram ao longo das décadas. Inicialmente concebida para produzir eletricidade, passou a integrar também o sistema de abastecimento de água à Grande Lisboa.
Reconhecida pela excelente qualidade da sua água, a barragem tornou-se indispensável na gestão dos recursos hídricos. A sua operação adapta-se às necessidades de cada momento, seja para assegurar o abastecimento público, apoiar a agricultura ou mitigar períodos de escassez.
Um ativo estratégico
Hoje, a sua bacia hidrográfica ultrapassa os 3.900 quilómetros quadrados e permite regular o caudal do Tejo, contribuindo para travar a intrusão salina no verão e suportar as atividades agrícolas.
O seu papel estratégico tornou-se especialmente visível durante o apagão ibérico de 28 de abril de 2025. Castelo de Bode foi, nesse momento, determinante na reposição da energia, permitindo reativar a rede na região de Abrantes e apoiar a recuperação gradual noutras zonas do país.

Setenta e cinco anos depois, a barragem continua a ser mais do que uma obra notável de engenharia. É uma infraestrutura que acompanha as necessidades do país, adaptando-se a diferentes necessidades e desafios. Entre a memória de um lugar submerso e a exigência de um sistema energético em transformação, mantém-se como um dos pilares da gestão de água e energia em Portugal.
Referência da notícia
Agência Portuguesa do Ambiente (APA). A maior origem de água para abastecimento público.
José Martinho Gaspar. Barragem de Castelo do Bode inaugurada há 70 anos.
Albufeira de Castelo de Bode. A História da Barragem.
Jornal de Abrantes. Barragem começou a ser construída em 1946 e foi inaugurada em 21 de janeiro de 1951..
Museu da Presidência da República. A inauguração da Barragem de Castelo de Bode.