Barragem de Castelo do Bode faz 75 anos e mantém-se central na gestão da água e energia

Conheça a história e a importância de uma obra de engenharia que marcou a modernização do país e continua decisiva no planeamento dos recursos hídricos.

A albufeira de Castelo do Bode estende-se por 60 km e submergiu cerca de 3500 hectares ao longo do Zêzere. Foto: APA
A albufeira de Castelo do Bode estende-se por 60 km e submergiu cerca de 3500 hectares ao longo do Zêzere. Foto: APA

A Barragem de Castelo de Bode ergue-se no rio Zêzere, entre Tomar e Abrantes, como uma das infraestruturas mais determinantes para o país. Produz energia, armazena água, regulariza caudais e responde a momentos críticos do sistema elétrico.

A sua história cruza-se com a evolução do próprio território, ganhando um novo significado quando se assinalam agora os 75 anos do início da sua construção, em 2026.

A sua importância estratégica começou a evidenciar-se muito antes de entrar em funcionamento. A construção ganhou prioridade em 1945, com a criação da Hidroeléctrica do Zêzere, num momento em que Portugal dava os primeiros passos na eletrificação.

As obras começaram em março de 1946 e transformaram rapidamente o vale. Onde antes havia margens tranquilas, passou a existir um estaleiro em permanente azáfama.

Estaleiro sem precedentes

Durante cinco anos, o ritmo de trabalho foi intenso. Equipas técnicas, operários e engenheiros enfrentaram um desafio sem precedentes no país. Levantar uma barragem de betão com 115 metros de altura exigiu soluções improvisadas, adaptações constantes e uma logística de grande complexidade.

Um dos episódios mais marcantes foi o transporte dos grupos geradores. O equipamento, com mais de 70 toneladas e nove metros de diâmetro, teve de percorrer o caminho entre Lisboa e Castelo do Bode num veículo especialmente construído para o efeito. Tinha oito eixos, vinte metros de comprimento e avançava a uma velocidade mínima.

A viagem durou cerca de um mês e teve um grande impacto no país. As publicações da época relataram dezenas de excursões organizadas com o único propósito de ver as obras. Pessoas de todo o país quiseram assistir à passagem do camião, que avançava com extrema dificuldade por estradas estreitas e pouco preparadas.

Pelo caminho, foi necessário reforçar pisos, cortar árvores centenárias e adaptar pontes. O peso provocou avarias sucessivas e deixou marcas visíveis na paisagem, com muros derrubados e postes danificados.

Terras submersas

A construção da barragem não se limitou ao paredão de betão. A criação da albufeira implicou a submersão de uma vasta área ao longo do Zêzere e de várias ribeiras. O rio alargou o seu leito e ocupou terrenos agrícolas, habitações e estruturas ligadas à economia local.

A barragem de Castelo do Bode, no rio Zêzere, entre Tomar e Abrantes, produz energia, armazena água e regula caudais. Foto: APA
A barragem de Castelo do Bode, no rio Zêzere, entre Tomar e Abrantes, produz energia, armazena água e regula caudais. Foto: APA

Com a subida das águas, desapareceram aldeias inteiras, pontes e unidades produtivas. Só no concelho de Abrantes ficaram submersos mais de trinta azenhas e lagares. Em Vila de Rei, a perda foi ainda mais profunda. Parte significativa do território ficou debaixo de água, incluindo algumas das terras de cultivo mais férteis.

Cerca de 3.500 hectares foram expropriados, assim como mil edifícios e centenas de explorações agrícolas. Mais de mil proprietários receberam indemnizações e muitos acabaram por abandonar a região. O movimento de saída foi expressivo, alterando de forma duradoura a demografia local.

Quando, em 1950, a obra ficou concluída, a transformação foi imediata. A água começou a subir rapidamente, surpreendendo os habitantes que acompanhavam os trabalhos. A dimensão do lago estende-se por 60 km e, até à inauguração do Alqueva, em 2002, foi a maior reserva nacional de água destinada ao consumo.

O símbolo da modernidade

A inauguração teve lugar a 21 de janeiro de 1951, com a presença das principais figuras do regime, entre as quais o chefe de governo, Oliveira Salazar, e o Presidente da República, Marechal Carmona. Nesse dia, a energia produzida em Castelo do Bode chegou a Lisboa em nove minutos, um feito que simbolizou um avanço decisivo na modernização do país.

Com 115 metros de altura, a Barragem de Castelo de Bode revolucionou a gestão da água e da energia, tornando-se um marco na engenharia hidráulica em Portugal. Foto: APA
Com 115 metros de altura, a Barragem de Castelo de Bode revolucionou a gestão da água e da energia, tornando-se um marco na engenharia hidráulica em Portugal. Foto: APA

A barragem assumiu imediatamente um papel central no abastecimento elétrico da capital, substituindo a antiga central térmica alimentada a carvão. A mudança teve repercussões não apenas na capacidade de produção, mas também na redução da poluição.

De energia à água

As funções ligadas a Castelo de Bode evoluíram ao longo das décadas. Inicialmente concebida para produzir eletricidade, passou a integrar também o sistema de abastecimento de água à Grande Lisboa.

Essa alteração ganhou forma nos anos de 1980, quando a albufeira passou a ser utilizada como reserva estratégica para consumo humano.

Reconhecida pela excelente qualidade da sua água, a barragem tornou-se indispensável na gestão dos recursos hídricos. A sua operação adapta-se às necessidades de cada momento, seja para assegurar o abastecimento público, apoiar a agricultura ou mitigar períodos de escassez.

Um ativo estratégico

Hoje, a sua bacia hidrográfica ultrapassa os 3.900 quilómetros quadrados e permite regular o caudal do Tejo, contribuindo para travar a intrusão salina no verão e suportar as atividades agrícolas.

No plano energético, a barragem mantém ainda hoje a sua relevância. Entre 2020 e 2025, registou uma produção média anual superior a 300 gigawatt-hora, suficiente para abastecer 2,8 milhões de pessoas.

O seu papel estratégico tornou-se especialmente visível durante o apagão ibérico de 28 de abril de 2025. Castelo de Bode foi, nesse momento, determinante na reposição da energia, permitindo reativar a rede na região de Abrantes e apoiar a recuperação gradual noutras zonas do país.

A Barragem de Castelo de Bode abastece mais de dois milhões de residentes na região da Grande Lisboa. Foto: Osvaldo Gago, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons
A Barragem de Castelo de Bode abastece mais de dois milhões de residentes na região da Grande Lisboa. Foto: Osvaldo Gago, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons

Setenta e cinco anos depois, a barragem continua a ser mais do que uma obra notável de engenharia. É uma infraestrutura que acompanha as necessidades do país, adaptando-se a diferentes necessidades e desafios. Entre a memória de um lugar submerso e a exigência de um sistema energético em transformação, mantém-se como um dos pilares da gestão de água e energia em Portugal.

Referência da notícia

Agência Portuguesa do Ambiente (APA). A maior origem de água para abastecimento público.
José Martinho Gaspar. Barragem de Castelo do Bode inaugurada há 70 anos.
Albufeira de Castelo de Bode. A História da Barragem.
Jornal de Abrantes. Barragem começou a ser construída em 1946 e foi inaugurada em 21 de janeiro de 1951..
Museu da Presidência da República. A inauguração da Barragem de Castelo de Bode.