Conheça a comovente história de amizade entre um cão pré-histórico e uma família portuguesa do Mesolítico

Com quase oito mil anos, o Cão de Muge é o animal domesticado mais antigo encontrado em Portugal, mas foi por um feliz acaso que o seu testemunho chegou intacto aos nossos dias.

O Cão de Muge terá vivido há aproximadamente 7850 anos e tudo indica que foi um estimado e leal companheiro de uma família portuguesa do período mesolítico. Imagem: fotograma da animação O Cão de Muge – Um Amigo Pré-Histórico
O Cão de Muge terá vivido há aproximadamente 7850 anos e tudo indica que foi um estimado e leal companheiro de uma família portuguesa do período mesolítico. Imagem: fotograma da animação O Cão de Muge – Um Amigo Pré-Histórico

Na década de 1880, os paleontólogos fizeram descobertas espantosas nas margens da ribeira de Muge, afluente do Tejo, em Salvaterra de Magos. Nos célebres concheiros mesolíticos foram recuperadas conchas, ossadas, ferramentas de pedra, entre outros objetos.

A expedição permitiu desvendar muitos aspetos desconhecidos sobre rituais fúnebres, organização social, dieta e práticas de caça e de pesca dos últimos caçadores-recolectores que viveram há cerca de oito mil anos em território português.

O que são concheiros? São depósitos arqueológicos com grandes acumulações de conchas de moluscos, ossadas humanas e de animais, cinzas ou carvão, armazenados por populações do período Mesolítico.

Mais de 300 esqueletos e centenas de objetos do quotidiano foram retirados e guardados no Museu Geológico, em Lisboa, e no Museu de História Natural da Faculdade de Ciências do Porto.

A nível mundial, a coleção antropológica está até hoje entre as mais importantes do Mesolítico — período entre o Paleolítico e o Neolítico que, na Península Ibérica, começou há cerca de 10 mil anos e acabou há seis mil.

Um achado esquecido durante 120 anos

No meio de tantos e valiosos achados, um em particular ficou esquecido: o esqueleto quase completo de um cão encontrado num cemitério humano. O foco das campanhas arqueológicas, nessa altura, era estudar a história da evolução humana e, por isso, pouca ou nenhuma importância foi atribuída às ossadas do animal.

O desinteresse dessa altura levou os investigadores a depositarem o esqueleto numa gaveta do Museu Geológico de Lisboa, onde permaneceu durante 120 anos.

Em 2000, a zooarqueóloga Cleia Detry, do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, e o arqueólogo João Luís Cardoso, da Universidade Aberta, redescobriram as ossadas numa das salas traseiras do museu. Parecia um cão, mas poderia ser também um lobo. Quiseram saber mais.

As ossadas do Cão de Muge, esquecidas durante 120 anos, estão hoje entre o espólio mais valioso do Museu de Geologia Geológico, em Lisboa. Imagem: Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG)
As ossadas do Cão de Muge, esquecidas durante 120 anos, estão hoje entre o espólio mais valioso do Museu de Geologia Geológico, em Lisboa. Imagem: Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG)

O mistério continuou por mais uma década e o animal esperou pacientemente que a ciência tivesse as ferramentas certas para contar a sua história. Esse momento chegou, em 2010, quando o esqueleto foi alvo de um estudo detalhado com as mais avançadas tecnologias ao dispor: de datação por radiocarbono, até análise de isótopos, passando por exames de genómica e de imagiologia.

Graças a testes extremamente sofisticados, foi possível determinar que o animal viveu há aproximadamente 7850 anos e teria entre dois e seis anos quando morreu. O Cão de Muge — como é hoje conhecido — era provavelmente um espécime adulto de tamanho médio, com uma altura de ombros entre 48,5 e 51 centímetros.

A partir destes dados e de outros exames já concluídos, os investigadores conseguiram reconstituir a vida e a morte do animal.

Tudo o que foi encontrado junto das ossadas indica que foi muito mais do que um leal ajudante na caça. Estava enterrado numa sepultura especialmente construída para o seu enterro. Tinha ainda as patas recolhidas junto ao corpo, mostrando o extremo cuidado com que foi depositado.

A reconstrução facial do cão português mais antigo

Incentivada por esses estudos, uma equipa luso-brasileira utilizou uma abordagem multidisciplinar para criar, em 2022, a reconstrução facial do cão de Muge. O trabalho foi publicado na revista científica Applied Sciences, revelando uma aproximação de como pode ter sido o cão português mais antigo.

Imagem do modelo 3D do cão Muge colorida em tons de sépia por falta de informação genética sobre a textura e cor da sua pelagem. Imagem: Cícero Moraes, CC BY-SA 4.0, Applied Sciences
Imagem do modelo 3D do cão Muge colorida em tons de sépia por falta de informação genética sobre a textura e cor da sua pelagem. Imagem: Cícero Moraes, CC BY-SA 4.0, Applied Sciences

Uma combinação de osteometria zooarqueológica, datação direta por radiocarbono, imagens de raios X e tomografia computadorizada, além de técnicas e arte assistidas por computador, permitiu dar vida aos dados científicos recolhidos, resultando na imagem de um cão que viveu há mais de 7500 anos.

Mais recentemente, em 2018, o animal regressou às luzes da ribalta com artistas e cientistas a unirem-se em torno de uma curta-metragem de animação. Intitulado O Cão de Muge – um amigo pré-histórico, o filme combinou cinema e ciência para contar esta comovente história, que chegou quase intacta aos nossos dias.

Uma equipa luso-brasileira fez uma reconstrução facial do Cão de Muge, dando-nos uma ideia aproximada de como poderá ter sido o animal doméstico português mais antigo. Imagem: Cícero Moraes, CC BY-SA 4.0, Applied Sciences
Uma equipa luso-brasileira fez uma reconstrução facial do Cão de Muge, dando-nos uma ideia aproximada de como poderá ter sido o animal doméstico português mais antigo. Imagem: Cícero Moraes, CC BY-SA 4.0, Applied Sciences

Pode até parecer que as investigações são pouco relevantes para a história da humanidade, mas o Cão de Muge é hoje considerado o animal pré-histórico domesticado mais antigo em Portugal, estando as suas ossadas entre o espólio mais valioso do Museu Geológico de Lisboa.

Referência da notícia

Ana Elisabete Pires, Pires, Cleia Detry, Lounes Chikhi, Rita Amorim Rasteiro, Fernanda Simões, Cathrine Hanni, Alexandra Velente, et. al.. The curious case of the Mesolithic Iberian dogs: An archaeogenetic study. Journal of Archaeological Science..
Cícero Moraes, Hugo Matos Pereira, João Filipe Requicha, Lara Alves, Graça Alexandre-Pires,Sandra de Jesus, Silvia Guimarães, Catarina Ginja, Cleia Detry, Miguel Ramalho & Ana Elisabete Pires.. The Facial Reconstruction of a Mesolithic Dog, Muge, Portugal. Aplied Sciences.
Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos/Rede de Investigação em Biodiversidade e Biologia Evolutiva (CIBIO/InBIO) da Universidade do Porto. O Cão de Muge – um amigo pré-histórico (filme de animação).