Âncora recebe 25 mil trutas para travar declínio dos ecossistemas ribeirinhos

Operação aposta na sustentabilidade ecológica, com a introdução de espécies nativas em zonas estratégicas para valorizar o território de Viana do Castelo e reforçar o equilíbrio ambiental.

Mais de duas dezenas de milhares de alevins de trutas fário foram libertados no rio Âncora, numa tentativa de restaurar o equilíbrio do ecossistema ribeirinho. Foto: Município de Viana do Castelo
Mais de duas dezenas de milhares de alevins de trutas fário foram libertados no rio Âncora, numa tentativa de restaurar o equilíbrio do ecossistema ribeirinho. Foto: Município de Viana do Castelo

O rio Âncora voltou a receber vida. Nas águas que descem da vertente ocidental da Serra de Arga, foram libertados cerca de 25 mil alevins de truta fário (Salmo trutta morpha fario). É um gesto que combina ciência, conservação e vontade de contrariar o declínio dos ecossistemas aquáticos. A operação resulta de um trabalho articulado entre o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Câmara Municipal de Viana do Castelo e as juntas de freguesia do município.

Mais do que um simples repovoamento, esta iniciativa procura reconstruir um equilíbrio frágil, onde cada peixe devolvido ao rio representa também uma aposta no futuro da biodiversidade.

Os alevins, agora libertados na natureza, têm a particularidade de descender de trutas capturadas no próprio rio Âncora. Trata-se de uma forma de garantir que a identidade genética da população local se mantém intacta. É um detalhe técnico, mas decisivo, que assegura não apenas a quantidade, mas, principalmente, a continuidade.

Um rio, várias etapas de recuperação

A largada não aconteceu num único ponto, mas em oito locais diferentes ao longo do rio e a escolha não foi aleatória. Cada zona foi selecionada por apresentar condições ecológicas consideradas favoráveis ao desenvolvimento das trutas — águas frias, correntes, bem oxigenadas e com abrigo suficiente para os estágios iniciais de vida destes peixes.

A truta é extremamente sensível à poluição, sendo por isso um indicador biológico da saúde dos rios. Foto: Adobe Stock
A truta é extremamente sensível à poluição, sendo por isso um indicador biológico da saúde dos rios. Foto: Adobe Stock

O processo começou muito antes dos alevins tocarem o rio. Os reprodutores foram capturados no troço superior do Âncora, em plena Serra d’Arga, na freguesia de São Lourenço da Montaria. Depois, foram mantidos em cativeiro no Posto Aquícola do Torno, em Amarante, procedendo-se à reprodução controlada. Um percurso exigente, planeado para assegurar que os indivíduos libertados não estranham o ecossistema, onde irão completar o seu ciclo de vida.

Este modelo insere-se numa estratégia de conservação ex situ, isto é, fora do habitat natural. A abordagem permite preservar espécies enquanto os seus ecossistemas originais não estão em condições de sustentabilidade plena. Na prática, é uma forma de ganhar tempo à natureza, enquanto se tenta recuperar o terreno perdido.

A ciência por trás da devolução ao rio

O repovoamento no Âncora não é um caso isolado. Em 2023, foram introduzidos cerca de cinco mil exemplares da mesma espécie. O número subiu para 15 mil em 2024 e, agora, com esta nova libertação de 25 mil alevins, o reforço ganha uma escala mais ambiciosa.

A libertação da espécie foi feita em oito locais diferentes do Âncora, selecionados por reunirem as melhores condições. Foto: Município de Viana do Castelo
A libertação da espécie foi feita em oito locais diferentes do Âncora, selecionados por reunirem as melhores condições. Foto: Município de Viana do Castelo

Por trás destes números está uma lógica de gestão genética e ecológica. O ICNF mantém atualmente cerca de 20 stocks de reprodutores de truta-de-rio, representativos da diversidade genética do Norte do país. A ideia é simples na formulação, mas complexa na execução, pois procura evitar a perda de identidade das populações selvagens e, simultaneamente, aumentar a sua capacidade de sobrevivência.

A truta fário, espécie nativa da Europa e presente sobretudo nos rios do Norte e Centro de Portugal, é extremamente sensível. Depende de águas limpas, frias e bem oxigenadas. Qualquer alteração — da poluição ao aumento da temperatura — pode comprometer o seu desenvolvimento. É precisamente por isso que é considerada um indicador biológico da saúde dos rios. Onde há trutas fário, há, portanto, ecossistemas ainda equilibrados.

Entre a conservação e o território vivo

Esta intervenção não se limita, porém, ao campo da biologia. Há ainda uma dimensão territorial e social levada em consideração. A recuperação das populações de truta no rio Âncora tem impacto direto na valorização do território, seja através do turismo de natureza, seja da pesca desportiva sustentável, atividades que dependem de rios vivos e ecologicamente equilibrados.

Ao mesmo tempo, estas ações revelam uma mudança de paradigma na forma como se encara a gestão dos recursos naturais. Já não basta proteger passivamente, é preciso intervir, corrigir e, quando possível, regenerar.

Num contexto em que os ecossistemas aquáticos enfrentam pressões crescentes, que vão da poluição às alterações climáticas, passando pela degradação dos habitats, cada iniciativa deste tipo assume um peso estratégico.

A recuperação das populações de truta no rio Âncora tem impacto direto na valorização do território, impulsionando turismo de natureza e as atividades recreativas. Foto: Armando Laranjeira, obra do próprio, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
A recuperação das populações de truta no rio Âncora tem impacto direto na valorização do território, impulsionando turismo de natureza e as atividades recreativas. Foto: Armando Laranjeira, obra do próprio, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O que está em causa no rio Âncora vai, por isso, muito além da libertação de milhares de peixes. A recém-chegada da truta aos rios representa uma tentativa de restaurar um ciclo natural interrompido, devolvendo aos ecossistemas ribeirinhos não apenas espécies, mas também a possibilidade de voltar a funcionar como um sistema vivo, dinâmico e resiliente.

Referência do artigo

25 mil pequenas trutas devolvem vida ao rio Âncora. Câmara Municipal de Viana do Castelo

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