Alerta nos rios de Portugal: a chuva vai continuar e os caudais estão cada vez mais cheios

As autoridades estão no nível mais elevado de prontidão, com a monitorização permanente dos cursos de água, planos de evacuação já preparados na região de Coimbra e alertas para a população adotar comportamentos preventivos.

A Proteção Civil aconselha não atravessar zonas inundadas, de modo a precaver o arrastamento de pessoas ou veículos. Foto: ANPC
A Proteção Civil aconselha não atravessar zonas inundadas, de modo a precaver o arrastamento de pessoas ou veículos. Foto: ANPC

Tal como temos realçado nas previsões meteorológicas lançadas pela Meteored Portugal, o nosso país enfrenta uma nova vaga de mau tempo durante as próximas semanas, particularmente intensa nas regiões Norte e Centro.

As previsões do IPMA, com chuva persistente, vento e queda de neve, colocaram as autoridades em alerta, especialmente a Agência Portuguesa do Ambiente que está a monitorizar e a gerir os caudais dos principais rios “minuto-a-minuto”, esperando conseguir minimizar os riscos de inundações.

Durante o fim de semana, já foram provocadas pequenas descargas nas barragens que apresentavam situações mais complicadas. A medida permitiu que as albufeiras ganhassem algum encaixe durante os picos de chuva previstos para hoje, quarta e quinta-feira.

As diligências foram feitas em coordenação com o IPMA, a Proteção Civil e os municípios. A APA está também articulação com as autoridades espanholas na gestão dos caudais do Douro e do Tejo. O degelo da neve que se depositou na serra da Estrela poderá também resultar em mais água para o Mondego e para o Zêzere, sendo, por isso, mais um fator a considerar.

Com os solos já saturados e o agravamento do tempo para os próximos dias, as cheias poderão ter um impacto relevante nas zonas ribeirinhas, adverte a Proteção Civil. Foto: ANPC
Com os solos já saturados e o agravamento do tempo para os próximos dias, as cheias poderão ter um impacto relevante nas zonas ribeirinhas, adverte a Proteção Civil. Foto: ANPC

Além disso, os incêndios de agosto e setembro, que afetaram a zona centro, retiraram a vegetação do solo, já de si saturados, reduzindo a sua capacidade de reter a água. Prevê-se, portanto, uma semana difícil, com o agravamento do estado do tempo para os próximos 10 dias.

Embora esteja para já afastada a repetição de fenómenos extremos como a ciclogénese explosiva da semana passada, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil está de prevenção.

Zonas ribeirinhas e marítimas exigem maior atenção

As zonas ribeirinhas e marítimas são especialmente perigosas. O IPMA colocou os distritos de Viana do Castelo, Porto, Aveiro, Coimbra, Braga, Leiria, Lisboa, Setúbal, Beja e Faro sob aviso laranja até a meia-noite de terça-feira devido à agitação do mar.

Os distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Castelo Branco, Guarda, Viseu e Vila Real também estão sob aviso laranja até às 18h00 de terça-feira por causa da queda de neve acima de 800/1000 metros.

O risco de agravamento das cheias e inundações na Região de Coimbra é o que suscita maior apreensão. A Proteção Civil adverte que a persistência de períodos de precipitação intensa poderá contribuir para o agravamento das cheias, com impacto relevante nas zonas ribeirinhas e áreas mais expostas ao rio Mondego, principalmente nos concelhos de Coimbra, Soure, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz.

Entre os efeitos expectáveis estão as “inundações em zonas urbanas e ribeirinhas”, “cheias em cursos de água”, instabilidade de vertentes, arrastamento de objetos, piso rodoviário escorregadio e aumento generalizado dos caudais do Mondego e dos seus afluentes.

A ANEPC aconselha a população a não circular nem permanecer nas vias marginais ao leito do rio Mondego, “em especial a jusante da Ponte Açude de Coimbra”. É igualmente recomendado retirar bens e animais de zonas inundáveis e a evitar atravessar áreas alagadas.

Coimbra com plano de evacuação em caso de necessidade

A Câmara Municipal de Coimbra deixou nas redes sociais indicações para evitar a circulação junto às zonas ribeirinhas, salientando que está a ser efetuada uma monitorização permanente. O município ativou inclusive um plano de evacuação para a eventualidade de o caudal do Mondego transbordar.

O aumento do caudal do Mondego colocou os concelhos de Coimbra, Soure, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz de prevenção. Foto: reprodução de Facebook/Município de Coimbra
O aumento do caudal do Mondego colocou os concelhos de Coimbra, Soure, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz de prevenção. Foto: reprodução de Facebook/Município de Coimbra

Em caso de necessidade, a Proteção Civil irá proceder à retirada controlada das populações das localidades nas margens do rio, entre Coimbra e Figueira da Foz. De acordo com a autarquia coimbrense, já estão delimitadas sete áreas no concelho para os residentes pernoitarem.

Pavilhões desportivos, escolas e instalações de associações culturais e recreativas já se encontram preparadas para acolher a população, mas apenas no caso de se vir a verificar o “risco de rebentamento de uma parte da estrutura hidráulica do Mondego”, explicou à Lusa Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra.

Regiões atingidas pela Kristin estão em alerta

Nas áreas mais atingidas pela depressão Kristin, os danos da semana passada ainda preocupam. No fim de semana, milhares de voluntários de todo o país mobilizaram-se para ajudar as localidades afetadas.

Limparam ruas, estradas, largos, habitações e recintos desportivos, procurando evitar que a chuva prevista para esta semana agravasse ainda mais os estragos provocados pelo temporal.

Os prejuízos estão ainda a ser avaliados, desconhecendo-se dimensão real dos danos. A Proteção Civil está a recolher imagens de satélite do serviço europeu Copernicus nas sub-regiões de Coimbra, Leiria, Beira Baixa, Médio Tejo e Oeste, procurando calcular com maior rigor o impacto da tempestade Kristin.

Número de mortes sobe e estado de calamidade é prolongado

O balanço da destruição causada pela depressão agravou-se, entretanto, com a confirmação de mais duas mortes na região Centro. Ambas as vítimas mortais ocorreram no sábado, no município da Batalha e na cidade de Alcobaça, quando faziam reparações de emergência em coberturas danificadas.

Centenas de voluntários estiveram este fim de semana nas regiões afetadas pela depressão Kristin a limpar os destroços. Foto: reprodução de Facebook/União Desportiva de Leiria
Centenas de voluntários estiveram este fim de semana nas regiões afetadas pela depressão Kristin a limpar os destroços. Foto: reprodução de Facebook/União Desportiva de Leiria

Estes óbitos somam-se aos seis anteriormente confirmados em Carvide, Marinha Grande, Vila Franca de Xira e Silves, perfazendo o total de oito mortos associados diretamente à Kristin.

O Governo já estendeu o estado de calamidade até ao dia 8 de fevereiro, reforçando a urgência das medidas de segurança.

Após reunião extraordinária de Conselho de Ministros, na tarde de domingo, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou também um pacote de apoios que poderá atingir os 2,5 mil milhões de euros para responder aos estragos provocados pela depressão Kristin e que irá abranger famílias, empresas e entidades públicas.