A natureza como refúgio: Por que a juventude chinesa está a abraçar árvores?

O fenómeno shubao revela como a juventude chinesa procura o abraço da natureza para curar o burnout e o stress social. Saiba mais aqui!

A ciência sugere que este contacto ajuda a reduzir os níveis de cortisol, a hormona responsável pelo stress.

O artigo do The Conversation explora um fenómeno curioso e crescente entre a juventude chinesa: a prática de abraçar árvores (shubao), quem é que não se lembra da novela juvenil, em Portugal, "Floribela" também de a ver fazer. O que começou como uma tendência nas redes sociais, como o Xiaohongshu (o equivalente chinês ao Instagram), revelou-se um sintoma profundo do estado emocional e social de uma geração exausta.

O contexto: uma geração sob pressão

Para compreender por que razão tantos jovens chineses procuram o conforto dos troncos das árvores, é necessário olhar para o ambiente de trabalho e económico da China atual.

O país atravessa um período de abrandamento económico, com taxas de desemprego juvenil recorde.

Aqueles que estão empregados enfrentam frequentemente a cultura "996" (trabalhar das 9h00 às 21h00, seis dias por semana), um ritmo que conduz ao esgotamento físico e mental extremo.

O fenómeno reflete o desejo de uma geração em "parar as máquinas" e reconectar-se com o que é essencial.

Este cenário alimentou conceitos como a "involução" (neijuan) — uma competição desenfreada onde todos se esforçam mais, mas ninguém sai do lugar — e o movimento tang ping ("ficar deitado"), uma forma de protesto passivo contra as expectativas sociais de produtividade incessante. O abraço às árvores surge como uma extensão desta necessidade de desconexão.

Porquê as árvores?

O artigo destaca que o ato de abraçar uma árvore oferece algo que o ambiente urbano e digital não consegue proporcionar: estabilidade e aceitação incondicional. Ao contrário das interações humanas, muitas vezes carregadas de julgamento, competição ou pressão familiar, a árvore é um ser estático, silencioso e resiliente.

O movimento tornou-se viral na rede social Xiaohongshu, onde milhares de jovens partilham as suas experiências de cura.

Do ponto de vista psicológico e fisiológico, esta prática assemelha-se ao "banho de floresta" (Shinrin-yoku) japonês. O contacto físico com a natureza ajuda a reduzir os níveis de cortisol (a hormona do stress), baixa a pressão arterial e promove uma sensação de "raizamento" (grounding). Para muitos jovens, a árvore funciona como um "recetáculo" emocional que absorve as suas ansiedades sem pedir nada em troca.

Simbolismo e autocuidado espiritual

A tendência é também vista como uma forma de "autocuidado espiritual". Numa sociedade onde a saúde mental ainda pode ser um tabu e o acesso a terapia nem sempre é fácil ou acessível, abraçar árvores torna-se uma terapia gratuita e imediata. Os jovens descrevem a sensação de que a árvore está a "ouvir" os seus problemas ou que a sua energia vital está a ser partilhada.

Na falta de acesso a psicólogos, muitos jovens chineses encontraram nas florestas urbanas uma terapia gratuita e imediata.

Além disso, há um elemento de nostalgia e retorno ao essencial. Ao abraçarem árvores, estes jovens estão a reivindicar o seu direito ao lazer e à contemplação, desafiando a narrativa oficial de que o valor de um indivíduo reside apenas na sua contribuição para o PIB ou para o sucesso da empresa.

Em suma, o fenómeno de abraçar árvores na China não é apenas uma moda passageira de redes sociais; é um grito de socorro silencioso. Representa a procura de um refúgio num mundo hipercompetitivo e mecanizado. Ao abraçarem a natureza, os jovens chineses estão, na verdade, a tentar abraçar a sua própria humanidade e sanidade, procurando um sentido de pertença e paz num sistema que raramente lhes permite parar para respirar.

O artigo sugere que, enquanto as pressões estruturais da sociedade chinesa não mudarem, estas formas alternativas de cura e resistência continuarão a florescer.

Referência da notícia

https://theconversation.com/why-so-many-young-people-in-china-are-hugging-trees-269832 - The Conversation