A agricultura em Portugal está a perder as aves que sempre ajudaram a mantê-la viva
Novos dados mostram um declínio persistente das espécies associadas às culturas agrícolas. Não é apenas um problema de biodiversidade; é um sinal preocupante sobre a saúde dos ecossistemas rurais.

Há muitas formas de avaliar o estado da agricultura de um país. Mede-se a produtividade, a qualidade dos solos, a disponibilidade de água ou a área cultivada. Os investigadores sabem, porém, que existe outro indicador igualmente revelador: as aves que habitam os campos cultivados. Quando elas desaparecem, raramente é um problema apenas das aves.
Ao analisar mais de duas décadas de monitorização, entre 2004 e 2025, o estudo conclui que as populações de várias espécies associadas aos meios agrícolas continuam em declínio, revelando um agravamento do estado ecológico destes ecossistemas. Em contraste, os indicadores relativos aos meios florestais mantêm uma evolução positiva e, pela primeira vez, o relatório apresenta também um indicador para os ambientes urbanos, igualmente favorável.
O termómetro dos campos de cultivo
A conclusão vai muito além da conservação da natureza. As aves comuns são sentinelas ambientais. A sua abundância, diversidade e distribuição refletem alterações profundas na qualidade dos habitats onde vivem. Quando deixam de encontrar alimento, locais de nidificação ou condições para sobreviver, estão também a revelar transformações que afetam o equilíbrio ecológico dos próprios campos agrícolas.

Por outras palavras, medir a agricultura pelo canto das aves pode parecer uma imagem poética. Mas é, acima de tudo, um dos métodos científicos mais eficazes para avaliar a saúde da agricultura.
Um declínio com duplo impacto
Pode parecer que o desaparecimento de aves diz apenas respeito à biodiversidade. Na prática, as consequências estendem-se muito para além da conservação das espécies.
Muitas das aves que habitam os campos desempenham funções ecológicas essenciais. Alimentam-se de insetos que atacam culturas agrícolas, ajudam a controlar naturalmente algumas pragas, dispersam sementes e contribuem para o equilíbrio das cadeias alimentares.
Quando estas populações diminuem durante décadas consecutivas, o problema deixa de ser exclusivamente ambiental. A agricultura perde aliados naturais que desempenham gratuitamente funções fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas.
É precisamente por isso que os indicadores produzidos pelo Censo de Aves Comuns são hoje utilizados como ferramentas para avaliar a qualidade ambiental dos diferentes habitats. O relatório combina a evolução de dezenas de espécies características dos meios agrícolas, florestais e urbanos, produzindo índices multiespecíficos que permitem acompanhar o estado de saúde destes ecossistemas ao longo do tempo.
Mais do que contar aves, o que estes indicadores procuram medir é a capacidade da paisagem para continuar a sustentar vida. E, nos campos portugueses, os sinais continuam a ser motivo de preocupação.
As espécies comuns estão a deixar de o ser
Os dados recolhidos pela SPEA mostram que o declínio não se limita a uma ou duas espécies particularmente vulneráveis. Afeta aves que, durante décadas, fizeram parte da paisagem rural portuguesa e que continuam profundamente associadas aos meios agrícolas.
Entre os casos mais preocupantes encontram-se a andorinha-das-chaminés, o mocho-galego e o abelharuco, espécies cuja tendência populacional continua a ser negativa. A elas juntam-se a rola-brava, o cuco e o picanço-barreteiro, aves que também apresentam um declínio continuado ao longo de mais de duas décadas de monitorização. Entre as espécies cuja avaliação regular ainda não é possível, os investigadores destacam igualmente a diminuição da perdiz e da laverca.

Nenhuma destas aves era considerada rara. Pelo contrário. Eram espécies comuns, familiares para quem vive ou trabalha no meio rural. O seu desaparecimento gradual mostra que a alteração dos ecossistemas agrícolas deixou de afetar apenas as espécies mais sensíveis e começou a atingir aquelas que sempre fizeram parte da paisagem portuguesa. É precisamente por isso que os investigadores olham para estas tendências com preocupação. Quando as espécies comuns deixam de o ser, é a própria normalidade ecológica que começa a mudar.
Nem todas as notícias são más
O retrato traçado pelo relatório está longe de ser uniforme. Enquanto os indicadores dos meios agrícolas continuam a revelar uma evolução negativa, os ecossistemas florestais apresentam uma tendência positiva desde o início da monitorização.
Estas diferenças reforçam uma ideia de que o declínio das aves agrícolas não é inevitável nem resulta apenas de fatores naturais. Pelo contrário, reflete transformações específicas dos ecossistemas onde estas espécies vivem, se alimentam e se reproduzem. Ao mesmo tempo, demonstram que, quando existem condições favoráveis, as populações de aves conseguem manter-se estáveis ou até recuperar.