Risco de chuva forte: os meteorologistas de Portugal estão atentos ao grande rio atmosférico de segunda-feira, dia 9

Risco de chuva forte: os meteorologistas de Portugal estão atentos ao grande rio atmosférico de segunda-feira, dia 9

O tempo vai mudar em Portugal continental a partir de sexta-feira, 6 de novembro, com o regresso da chuva. Posteriormente, a precipitação das frentes associadas à depressão atlântica será reforçada entre os dias 8 e 10 por um grande rio de humidade vindo das Caraíbas.

Os mapas meteorológicos de referência da Meteored, alicerçados no modelo que merece a nossa maior confiança (ECMWF - Europeu), são muito claros quanto à mudança significativa do estado do tempo que se avizinha para Portugal continental a partir de sexta-feira, 6 de novembro: após inúmeras semanas outonais secas e bastante amenas, o regresso da chuva à nossa geografia está totalmente confirmado neste mês de novembro, o último do outono climatológico.

No vídeo
O que é um rio atmosférico?
Os rios atmosféricos são faixas estreitas e alongadas na atmosfera que funcionam como verdadeiras “auto estradas de transporte de vapor de água”, deslocando grandes quantidades de humidade desde as zonas tropicais até às latitudes médias. Quando interagem com frentes frias ou massas de ar instáveis, ganham o potencial de gerar chuva forte, eficiente e persistente.

Com a deslocação para norte do anticiclone que até agora nos “escudou” de superfícies frontais geradas pelas depressões atlânticas e a sua posterior fixação na zona das Ilhas Britânicas e Escandinávia - onde estará muito robusto (pressão central máxima de 1040 hPa) - “abre-se” uma via para a chegada de perturbações atmosféricas nascidas sobre o Atlântico, que acabam por alcançar o Sudoeste Europeu, onde Portugal continental se localiza.

Rio atmosférico vindo das Caraíbas reforçará a eficiência da chuva em Portugal

A última atualização do modelo europeu mostra-nos como uma extensa região depressionária atlântica - com vários núcleos de baixas pressões inseridos na mesma circulação - acabará por se formar na região dos Açores entre quarta (4) e sexta-feira (6).

Mapa de sexta-feira, 6 de novembro às 16:00. Depressão atlântica centrada a noroeste do arquipélago dos Açores com um núcleo principal (994 hPa) e um núcleo secundário (1010 hPa). Uma frente gerada por este sistema de baixas pressões já estará a afetar Portugal continental na tarde de sexta-feira, 6 de novembro.
Mapa de sexta-feira, 6 de novembro às 16:00. Depressão atlântica centrada a noroeste do arquipélago dos Açores com um núcleo principal (994 hPa) e um núcleo secundário (1010 hPa). Uma frente gerada por este sistema de baixas pressões já estará a afetar Portugal continental na tarde de sexta-feira, 6 de novembro.

À medida que se for deslocando para leste sobre o Atlântico, evidenciar-se-á uma intensificação e aprofundamento do sistema depressionário (pressão central mínima de 994 hPa).

Uma primeira frente associada ao núcleo secundário do principal sistema depressionário enviará extensas bandas de nebulosidade e precipitação até Portugal continental a partir de sexta-feira, 6 de novembro.

No mapa abaixo observa-se a possibilidade de pelo menos dois núcleos depressionários inseridos na mesma circulação continuarem a gerar mais frentes com nebulosidade e chuva nos dias seguintes (sábado 7 e domingo 8), à medida que a depressão se for deslocando e intensificando na sua trajetória pelo Atlântico.

No domingo, 8 de novembro, o mapa de previsão das 09:00 mostra que o sistema depressionário atlântico poderá conter 2 centros de baixas pressões, com pressões mínimas centrais muito semelhantes (990 hPa e 993 hPa). Em simultâneo vê-se uma frente associada ao sistema a deixar chuva em Portugal continental e a ser reforçada por humidade vinda de Sudoeste.
No domingo, 8 de novembro, o mapa de previsão das 09:00 mostra que o sistema depressionário atlântico poderá conter 2 centros de baixas pressões, com pressões mínimas centrais muito semelhantes (990 hPa e 993 hPa). Em simultâneo vê-se uma frente associada ao sistema a deixar chuva em Portugal continental e a ser reforçada por humidade vinda de Sudoeste.

As novidades acerca desta depressão atlântica não estão propriamente apenas no regresso da chuva a Portugal continental após um longo período de ausência, mas sim na sua tipologia relativamente invulgar, na eficiência da precipitação (que poderá ser abundante) e nos riscos e impactos que isto pressuporá para a nossa geografia.

Ao contrário das depressões das latitudes elevadas, em que há uma frente fria, aguaceiros pós-frontais e pouco mais, esta depressão evidenciará contornos distintos ao adquirir características subtropicais, dado que será alimentada por um rio de humidade continuamente bombeado da região das Caraíbas.

O potencial de água precipitável no território de Portugal continental aumentará significativamente no domingo e na segunda-feira, dias 8 e 9 de novembro, devido ao elevado teor de humidade contido no rio atmosférico vindo da região das Caraíbas.
O potencial de água precipitável no território de Portugal continental aumentará significativamente no domingo e na segunda-feira, dias 8 e 9 de novembro, devido ao elevado teor de humidade contido no rio atmosférico vindo da região das Caraíbas.

Numa primeira fase, entre sexta (6) e sábado (7), o teor de vapor de água do rio de humidade transportado pelo fluxo de Sudoeste será relativamente baixo, mas suficientemente significativo para alimentar as frentes de chuva. Porém, o episódio de precipitação abundante ganha uma dimensão potencialmente mais gravosa quando olhamos para o que os mapas do tempo nos revelam para domingo, segunda e terça-feira, dias 8, 9 e 10 de novembro.

Nestas datas - 8 a 10 de novembro - prevê-se um acréscimo substancial do teor de vapor de água, gerado no mesmo rio atmosférico referido. A concentração de humidade será muito mais elevada, servindo de “combustível” à eficiência das frentes geradas pela depressão atlântica, o que aumentará significativamente a probabilidade de chuva forte, persistente e abundante entre domingo (8) e terça (10) em Portugal continental.

Os valores de EFI (Extreme Forecast Index) do fluxo de vapor de água para domingo 8 de novembro - entre 0,7 e 0,9 no mapa à esquerda - confirmam o carácter anómalo deste episódio de precipitação em Portugal continental. Segundo o ECMWF, estes valores podem, em geral, ser considerados como indicando a probabilidade de condições meteorológicas “invulgares”.
Os valores de EFI (Extreme Forecast Index) do fluxo de vapor de água para domingo 8 de novembro - entre 0,7 e 0,9 no mapa à esquerda - confirmam o carácter anómalo deste episódio de precipitação em Portugal continental. Segundo o ECMWF, estes valores podem, em geral, ser considerados como indicando a probabilidade de condições meteorológicas “invulgares”.

As primeiras projeções indicam ainda que a possibilidade deste cenário se prolongar por mais dias da próxima semana não deve ser descartada.

Riscos e impactos deste episódio de chuva potencialmente abundante

Ainda é muito precoce para nos focarmos na distribuição e na intensidade dos acumulados de precipitação, uma vez que até lá, dependendo da trajetória das frentes e do rio de humidade, haverá ajustes na previsão meteorológica e nas zonas mais expostas à pluviosidade.

Mapa de probabilidade de precipitação para segunda-feira, 9 de novembro, às 00:00.
Mapa de probabilidade de precipitação para segunda-feira, 9 de novembro, às 00:00.

No entanto, os profissionais de planeamento e ordenamento do território, bem como a Proteção Civil, devem ter em conta que os solos, muito ressequidos pela ausência prolongada de água, poderão não ter a capacidade necessária para a absorção inicial da chuva, gerando-se um escoamento à superfície e um aumento do risco de inundações.

Adicionalmente, vale a pena ponderar a eventual instabilidade de vertentes associadas à ocorrência de chuva forte e repentina, o que aumenta significativamente o risco de derrocadas e deslizamentos de terras.

Por fim, importa esclarecer que não há motivo para “perder o sono”. Primeiro, porque ainda estamos a um prazo suficientemente distante do início do evento de tempo instável, o que torna precoce definir as zonas potencialmente mais afetadas em Portugal continental.

E segundo porque, com a antecedência e constante atualização das previsões meteorológicas, conjugadas com um trabalho bem feito de prevenção e salvaguarda de pessoas, bens e infraestruturas, não há motivo para que não sejam tomadas decisões operacionais e políticas adequadas ao episódio de chuva que se avizinha.