Portugal continental é atualmente um “oásis” de frescura na Europa, mas o calor acima dos 35 ºC regressará nesta data

Portugal continental, em forte contraste com outros países europeus como Espanha, França e Itália, permanece mais fresco do que o normal para esta época do ano. Saiba porquê e quando as temperaturas voltarão a subir.
Há já várias semanas que se vão desprendendo da corrente de jato polar depressões que se isolam em altitude (bolsas de ar frio) e permanecem de forma mais ou menos estacionária a oeste da Península Ibérica, favorecendo o arrastamento de uma crista de alta pressão em direção ao Mediterrâneo, algo que explica a persistência do atual padrão em Portugal e outros países da Europa, quase como se a atmosfera estivesse “viciada”.
Uma atmosfera “viciada”: o porquê da repetição de padrões atmosféricos muito semelhantes
É relativamente simples compreender a razão desta atmosfera "viciada": consiste na repetição quase incessante do mesmo padrão atmosférico nas últimas semanas. E tudo indica que na próxima semana (20 a 26 de julho) um cenário semelhante voltará a verificar-se.

Como é bem conhecido em Meteorologia e Climatologia, a posição destas bolsas de ar frio, em interação com outros centros de ação, é um dos fatores determinantes para a distribuição das massas de ar: quando permanecem mais a oeste, impulsionam calor do Norte de África para Portugal continental; quando se posicionam mais a leste, esse calor concentra-se sobretudo na metade oriental da Península Ibérica e nos países banhados pelo Mediterrâneo (França e Itália, por exemplo), enquanto o nosso país fica exposto ao ar tropical marítimo proveniente do Atlântico.
Quando a depressão isolada se posiciona mais a leste, Portugal continental beneficia ainda da combinação de outros fatores, tais como a nortada, a influência marítima e o upwelling, que, em conjunto, ajudam a conter a subida das temperaturas, sobretudo no litoral. Ao mesmo tempo, a mesma circulação canaliza ar muito quente e seco do Norte de África para o Mediterrâneo.
Porque é que Portugal se vai mantendo mais fresco do que grande parte da Europa
A trajetória destas bolsas de ar frio tem, por isso, uma influência decisiva na modulação das temperaturas no território nacional. Quando se deslocam para leste, o país permanece mais fresco; quando se posicionam mais a oeste, aumenta a probabilidade de episódios de calor mais intenso.

Mesmo no interior, onde as temperaturas são normalmente mais elevadas do que no litoral, Portugal vai-se mantendo frequentemente mais ameno em relação a boa parte da Europa Ocidental e Mediterrânica. A reduzida largura do território (aproximadamente 200 km) e a proximidade ao oceano Atlântico permitem que a influência marítima continue a limitar o aquecimento, enquanto a mesma configuração atmosférica vai provocando temperaturas muito mais elevadas em países como Espanha, França ou Itália.
Frescura atlântica mantém temperaturas abaixo da média no país até sexta-feira, 17 de julho
Entre hoje, dia 15, e sexta-feira, dia 17, espera-se a continuidade deste padrão de frescura atlântica. Os mapas de anomalia térmica da Meteored apontam para valores entre -1 e -3 ºC face à média climatológica de referência, o que denota o carácter quase estacionário da bolsa de ar frio responsável por impulsionar ar tropical marítimo até Portugal continental.

Além disto, para o mesmo período cronológico em análise, os mapas de temperatura do ar a 2 metros de altura evidenciam valores bastante amenos de temperaturas diurnas para um mês de julho, estando previstas máximas entre 19 e 28 ºC nas regiões do litoral e entre 28 e 34 ºC nas regiões do interior.
Mudança de padrão no fim de semana gerará uma subida das temperaturas, sobretudo no interior
No fim de semana de 18 e 19 de julho, as últimas e sucessivas saídas do modelo ECMWF convergem na previsão de uma subida gradual das temperaturas. No sábado (18) o aquecimento deverá ser mais ligeiro, sendo mais expressivo no domingo (19), sobretudo no interior, onde, de acordo com os mapas de referência da Meteored, já se preveem máximas entre 35 e 40 ºC em várias zonas, tais como os vales do Douro e Guadiana, Beira Alta e Beira Baixa, Alentejo e Sotavento Algarvio, entre outras.

Os mapas de anomalia térmica à superfície e na camada dos 850 hPa confirmam igualmente esta tendência. Entre sábado (18) e domingo (19) observa-se uma expansão geográfica das anomalias positivas, inicialmente no interior e depois também no litoral. Para domingo (19) estão previstos valores entre +2 e +4 ºC acima da média, podendo atingir localmente +5 ºC ou +6 ºC no interior Norte e até +9 ºC em alguns locais do Algarve.
Não obstante, tal como se observa no mapa acima, alguns locais da faixa costeira ocidental permanecerão mais frescos do que o habitual, sendo disso exemplo a zona do litoral Norte entre Viana do Castelo e Ovar.
Esta alteração no estado do tempo irá resultar do afastamento da bolsa de ar frio que tem permitido a entrada de ar tropical marítimo, da consolidação de um bloqueio no Atlântico Norte disposto sob a forma de uma crista anticiclónica e da aproximação à nossa geografia continental de uma massa de ar mais quente e seco proveniente do interior da Península Ibérica e inicialmente canalizada a partir do Norte de África.