O aquecimento súbito da estratosfera terminou: Portugal poderá sentir os efeitos dentro de 3 ou 4 semanas

A circulação atmosférica no Hemisfério Norte continua perturbada após alterações no vórtice polar. Nas próximas semanas o jato polar poderá manter-se ondulado, permitindo novas descidas de ar frio para a Europa e influenciando o estado do tempo em Portugal.

Nas últimas semanas, a circulação atmosférica no Hemisfério Norte tem sido marcada por episódios de instabilidade e descidas frequentes de ar frio para latitudes médias. Este tipo de padrão está frequentemente associado a perturbações no vórtice polar estratosférico.

Um dos mecanismos mais conhecidos é o Aquecimento Súbito Estratosférico (ASE), um fenómeno em que a temperatura da estratosfera polar aumenta rapidamente em poucos dias, podendo enfraquecer ou até inverter o vórtice polar. Quando isso acontece, os efeitos podem propagar-se gradualmente para as camadas mais baixas da atmosfera, influenciando o estado do tempo nas semanas seguintes.

Embora os impactos diretos deste tipo de perturbações nem sempre sejam imediatos, a reorganização da circulação atmosférica pode favorecer padrões mais instáveis nas latitudes médias, incluindo a Europa.

Descidas de ar polar poderão continuar a afetar a Europa

Nos próximos dias, a circulação atmosférica sobre o Atlântico Norte e a Europa deverá continuar relativamente dinâmica. Apesar de um período de maior estabilidade durante o fim de semana, os modelos meteorológicos indicam que novas descidas de ar polar poderão ocorrer já no início da próxima semana.

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Uma massa de ar mais frio deverá aproximar-se da Península Ibérica, podendo isolar-se em altitude e originar uma nova depressão associada a ar frio, capaz de trazer instabilidade e precipitação em algumas regiões.

Circulação atmosférica a 850 hPa mostra uma massa de ar polar a aproximar-se da Península Ibérica. Esta intrusão de ar frio poderá isolar-se em altitude e favorecer a formação de uma depressão associada a ar frio.
Circulação atmosférica a 850 hPa mostra uma massa de ar polar a aproximar-se da Península Ibérica. Esta intrusão de ar frio poderá isolar-se em altitude e favorecer a formação de uma depressão associada a ar frio.

Este tipo de configuração é frequentemente favorecido por um jato polar ondulado, que permite que bolsas de ar frio se desloquem para latitudes mais baixas.

A meio de março o jato polar poderá continuar ondulado

Os cenários de médio prazo sugerem que, por volta de 14 de março, a circulação atmosférica poderá continuar marcada por ondulações significativas do jato polar. Este comportamento indica que a atmosfera poderá manter alguma instabilidade dinâmica, com possibilidade de novas incursões de ar frio vindas do norte da Europa ou do Atlântico Norte.

Os modelos sugerem que o jato polar poderá manter uma forte ondulação sobre o Atlântico e Europa Ocidental, permitindo novas descidas de ar frio para latitudes médias durante a segunda semana de março.
Os modelos sugerem que o jato polar poderá manter uma forte ondulação sobre o Atlântico e Europa Ocidental, permitindo novas descidas de ar frio para latitudes médias durante a segunda semana de março.

Quando o jato polar se torna mais ondulado, aumenta a probabilidade de formação de cavados atmosféricos profundos, que transportam ar frio para sul e favorecem episódios de instabilidade nas latitudes médias.

Temperaturas poderão subir com a aproximação da primavera

Mais adiante, já a partir de meados de março, alguns cenários indicam que as temperaturas poderão começar a subir gradualmente em grande parte da Europa Ocidental, incluindo Portugal.

Esta tendência poderá ser explicada por dois fatores principais: a maior incidência de radiação solar, típica da aproximação da primavera, e uma possível estabilização parcial da circulação atmosférica, permitindo a entrada de massas de ar mais amenas provenientes do Atlântico.

A meio de março as temperaturas poderão começar a subir gradualmente na Europa Ocidental. No entanto, se o jato polar continuar ondulado, novas intrusões de ar frio poderão ainda interferir com este aquecimento.
A meio de março as temperaturas poderão começar a subir gradualmente na Europa Ocidental. No entanto, se o jato polar continuar ondulado, novas intrusões de ar frio poderão ainda interferir com este aquecimento.

Ainda assim, se o jato polar continuar irregular e ondulado, episódios de ar frio poderão continuar a ocorrer pontualmente, interferindo com esta tendência de aquecimento.

Primavera poderá começar com grande variabilidade atmosférica

Em síntese, os próximos dias poderão marcar uma fase de transição na circulação atmosférica do Hemisfério Norte. Mesmo após o enfraquecimento das perturbações na estratosfera, os seus efeitos podem continuar a influenciar o comportamento do jato polar durante várias semanas.

Para Portugal, isso poderá traduzir-se num início de primavera marcado por alternância entre períodos mais amenos e episódios ocasionais de ar frio, típicos das mudanças sazonais nesta época do ano.