Mais trovoadas do que o habitual em julho: o sinal mais surpreendente do modelo europeu
A crista subtropical poderá abrir caminho à ocorrência de algumas perturbações nos níveis médios e altos da troposfera em julho. Consulte a análise aos possíveis efeitos no tempo em Portugal.

As mais recentes atualizações do modelo europeu sugerem um cenário curioso a médio prazo: o mês de julho poderá ser marcado por uma maior frequência da precipitação convectiva (aguaceiros e trovoadas) em Portugal continental.
Tal como se verificará abaixo na análise climatológica relativa às trovoadas para este mês, julho costuma ser propício à ocorrência de descargas elétricas atmosféricas em algumas regiões do nosso país devido à grande disponibilidade de energia nos níveis baixos da atmosfera.
Julho promete alguma instabilidade atmosférica no nosso país
Os mapas semanais de anomalias do modelo europeu apontam para uma primeira quinzena de julho ligeiramente mais chuvosa do que o normal. Ora, tendo em conta que as médias de precipitação neste mês são muito baixas, é muito fácil que se registe uma anomalia positiva neste período.
O modelo europeu sugere ainda que, na primeira semana de julho, a crista subtropical se mantenha bastante presente sobre Portugal, podendo dar origem a um novo episódio de tempo quente (cenário ainda por confirmar). As temperaturas poderão ser particularmente elevadas, especialmente nas regiões do interior, embora os mapas projetem anomalias positivas de temperatura expressivas de norte a sul do território de Portugal continental (isto é, em qualquer zona do país as temperaturas poderão situar-se entre 3 e 6 ºC acima dos valores climatológicos de referência).

Para a semana de 6 a 13 de julho observa-se uma possível deslocação das anomalias de pressão para norte, isto é, a maior parte dos centros de altas pressões deslocar-se-iam para o norte e centro da Europa, abrindo caminho à chegada de perturbações em camadas altas até Portugal. É nessa semana que existe uma probabilidade mais elevada de o nosso país ser afetado por vales depressionários ou depressões isoladas em altitude associadas à circulação do jato polar.
Mas atenção, isto não significa que vá chover de forma generalizada. O mais provável é que a precipitação ocorra sob a forma de aguaceiros localizados, embora com o potencial de serem localmente fortes. Além disto, as temperaturas à superfície manterão valores acima do normal para esta época do ano, o que converge com esta tendência de aguaceiros intensos e localizados.
Para a segunda quinzena de julho a incerteza na previsão aumenta drasticamente devido ao aumento do horizonte temporal em análise. As primeiras tendências para a segunda metade do mês indicam uma possível repetição das anomalias positivas de precipitação, um pouco por todo o país, embora com mais frequência nas regiões Norte e Centro. No entanto, a fiabilidade destas projeções é bastante reduzida e deve ser encarada com cautela e apenas como uma mera tendência.
Climatologia das trovoadas em Portugal: em média, o mês de julho costuma registar 9,5 dias com trovoada
De acordo com o Boletim de Descargas Elétricas Atmosféricas (DEA) relativo ao ano 2024, elaborado pelo IPMA e tendo em conta as DEA para o período 2010-2024, considerando apenas o mês de julho, é possível concluir que o sétimo mês do ano regista, em média, 9,5 dias com trovoada em Portugal continental. As conclusões deste boletim sugerem que julho é um mês relativamente ativo no que concerne à atividade elétrica e às trovoadas nalgumas zonas do nosso país.
Quanto à climatologia das trovoadas para os meses de julho, embora os dados disponíveis publicamente não permitam identificar com absoluta certeza os distritos mais afetados em todos os anos do período 2010-2024, observa-se um padrão espacial muito consistente que destaca Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda e Castelo Branco como as regiões historicamente mais favoráveis à ocorrência de trovoadas estivais.

Este padrão espacial predominante resulta da combinação de vários fatores geográficos e meteorológicos, entre os quais a maior distância ao oceano Atlântico, que reduz o efeito moderador marítimo, o forte aquecimento diurno característico do interior durante o verão, a maior altitude média e a presença de relevos montanhosos que favorecem a ascensão do ar através do efeito orográfico.
Referência da notícia
IPMA. (2025). Boletim Descargas Elétricas Atmosféricas 2024.