Super El Niño: nova previsão aponta evento excecional com anomalia superior a 3,4 °C

A atualização da pluma de modelos climáticos do El Niño divulgada na tarde de quarta-feira (19) reforça a expectativa de um dos eventos mais intensos da história, com anomalias a aproximarem-se de 3,5 °C durante o pico do evento.

A anomalia de temperatura da superfície do mar observada no último dia 18/08/2026 supera 5 °C numa ampla área do centro-leste do Pacífico. Créditos: Meteored/Adaptado de NOAA Coral Reef.
A anomalia de temperatura da superfície do mar observada no último dia 18/08/2026 supera 5 °C numa ampla área do centro-leste do Pacífico. Créditos: Meteored/Adaptado de NOAA Coral Reef.

A mais recente pluma de previsões para o El Niño, um dos principais produtos utilizados mundialmente para acompanhar a evolução e antecipar a intensidade do El Niño-Oscilação Sul (ENOS), foi atualizada na tarde desta quarta-feira (19). O novo conjunto de previsões reforça um cenário que tem vindo a ganhar força nas últimas atualizações: o El Niño de 2026/2027 poderá atingir uma intensidade excecional, com anomalias de temperatura a aproximarem-se de 3,5 °C no Oceano Pacífico equatorial central no pico do evento.

A pluma reúne previsões de diferentes modelos climáticos e permite acompanhar a possível evolução das temperaturas da superfície do mar nos próximos meses. Nesta nova atualização, a maior parte dos modelos aponta para uma intensificação do aquecimento até outubro, onde se prevê que valores próximos a 3,5 °C se mantenham até ao trimestre de novembro-janeiro. Se confirmado, o evento poderá entrar para a história como o El Niño mais intenso já observado. Confira os detalhes.

Pico do evento pode alcançar 3,5 °C

Enquanto a previsão divulgada em julho indicava um pico próximo de 3,1 °C, a atualização divulgada no final da tarde da passada quarta-feira (19) elevou esse valor para quase 3,5 °C, considerando a média dos modelos dinâmicos, representada pela linha rosa espessa no gráfico abaixo. Uma linha vermelha foi adicionada no nível de 3,5 °C para destacar o patamar excecional alcançado pela previsão.

Previsão de anomalia relativa de TSM no Niño 3.4 iniciada em agosto, destacando o valor máximo previsto na linha vermelha. Créditos: Elaborado por Meteored/Adaptado de IRI.
Previsão de anomalia relativa de TSM no Niño 3.4 iniciada em agosto, destacando o valor máximo previsto na linha vermelha. Créditos: Elaborado por Meteored/Adaptado de IRI.

Os modelos dinâmicos são baseados em equações que representam os processos físicos da atmosfera e do oceano e simulam diretamente a evolução do sistema climático. Já os modelos estatísticos utilizam relações identificadas a partir do comportamento passado do clima para estimar a evolução futura.

Para a previsão do ENOS, os modelos dinâmicos apresentam, em geral, melhor desempenho, razão pela qual esta análise dá maior peso a esse conjunto de previsões. Ainda assim, os modelos estatísticos também apontam para um evento excecional, com a média das previsões a indicarem um pico próximo de 3 °C.

Previsão de anomalia relativa de TSM no Niño 3.4 iniciada em julho para fins de comparação, destacando o valor máximo ligeiramente superior a 3 °C previsto na linha vermelha. Créditos: Elaborado por Meteored/Adaptado de IRI.
Previsão de anomalia relativa de TSM no Niño 3.4 iniciada em julho para fins de comparação, destacando o valor máximo ligeiramente superior a 3 °C previsto na linha vermelha. Créditos: Elaborado por Meteored/Adaptado de IRI.

Outro ponto importante é que, desde o final de 2025, a pluma de modelos do IRI deixou de incluir as previsões do modelo do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), um dos principais sistemas de previsão climática do mundo. A atualização divulgada pelo ECMWF no início de agosto também indicou valores máximos da ordem de 3,5 °C. Portanto, caso essa previsão fosse incorporada na média apresentada pelo IRI, o pico previsto poderia ser ainda maior.

Nova média reúne todos os modelos e reforça cenário acima de 3 °C

A atualização da passada quarta-feira (19) também apresenta uma mudança importante na forma de visualização das previsões. Além das médias separadas entre modelos dinâmicos e estatísticos, o gráfico passa a destacar, através da linha azul espessa, a média de todos os modelos disponíveis. Esta combinação fornece uma visão mais ampla do conjunto das previsões e reduz a dependência de um único tipo de modelo.

Quando considerada essa média geral, o cenário também aponta para um pico superior a 3 °C. Se essa previsão se confirmar, o El Niño de 2026/2027 ultrapassará com folga o maior valor de Índice Niño Oceânico (ONI) registado na série apresentada pela NOAA, de +2,6 °C no trimestre novembro-dezembro-janeiro de 2015/2016, tornando o evento potencialmente o mais intenso já observado em termos desse índice.

Temperatura do Niño 3.4 bate recorde há 80 dias consecutivos

Os sinais de um El Niño excecional, no entanto, não aparecem apenas nas previsões para os próximos meses. A temperatura da superfície do mar na região de monitorização do fenómeno conhecida como Niño 3.4 já apresenta um comportamento sem precedentes.

O gráfico do Climate Reanalyzer, elaborado com dados do conjunto NOAA Optimum Interpolation Sea Surface Temperature (OISST), mostra a evolução diária das temperaturas na região entre 5°N e 5°S e 120°W e 170°W, onde o El Niño é monitorizado. A curva vermelha representa 2026, enquanto as linhas cinzas mostram os restantes anos da série histórica.

Temperatura da superfície do mar diária observada na região do Niño 3.4, destaca aquecimento recorde desde junho de 2026 (linha vermelha). Créditos: Climate Reanalyzer.
Temperatura da superfície do mar diária observada na região do Niño 3.4, destaca aquecimento recorde desde junho de 2026 (linha vermelha). Créditos: Climate Reanalyzer.

A partir do início de junho, a temperatura do Niño 3.4 passou a manter-se continuamente acima dos valores registados nos mesmos períodos dos anos anteriores. Considerando os dados desde 1982, são cerca de 80 dias consecutivos em que a região permanece em níveis recordes para a época do ano.

O cenário é ainda mais expressivo porque, enquanto a climatologia e a maioria dos anos anteriores apresentam temperaturas próximas ou abaixo de 28 °C durante o inverno do Hemisfério Sul, a temperatura em 2026 permanece acima deste valor desde abril, com os dados preliminares mais recentes a chegarem perto de 29,5 °C.