Quando o calor ameaça o turismo, o Alentejo cria refúgios para proteger os visitantes

As temperaturas extremas obrigam os municípios a repensar espaços e formas de acolher turistas durante os períodos mais quentes.

Almodôvar está a construir a sua rede de refúgios climáticos para visitantes, contando já com sete espaços certificados com o selo Stay Cool. Foto: Município de Almodôvar.
Almodôvar está a construir a sua rede de refúgios climáticos para visitantes, contando já com sete espaços certificados com o selo Stay Cool. Foto: Município de Almodôvar.

Durante décadas, o verão foi um dos maiores trunfos do turismo português. Dias longos, temperaturas elevadas e uma paisagem dominada por sol e mar ajudaram a construir a imagem do país como destino de férias. Agora, o mesmo clima começa a exigir novas respostas.

É nesse contexto que surgem os refúgios climáticos Stay Cool, uma rede promovida pelo Turismo de Portugal para disponibilizar espaços de conforto e proteção durante períodos de calor extremo. A iniciativa pretende reforçar a adaptação dos destinos às alterações climáticas e proteger residentes e visitantes.

No Alentejo, essa transformação está em marcha. Cinco municípios integram atualmente a rede, com 18 locais certificados. Almodôvar e Cuba concentram sete refúgios cada, enquanto Mourão dispõe de dois e Arronches e Castelo de Vide de um cada. A Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo quer agora alargar esta resposta a outros municípios.

Um lugar para quando o calor sufoca

Um refúgio climático não precisa de ser um equipamento construído de raiz. Pode ser uma infraestrutura pública ou privada já existente, desde que ofereça condições adequadas de proteção e conforto térmico. Bibliotecas, museus, equipamentos culturais, parques, jardins, espaços religiosos e outros locais podem integrar a rede.

A ideia é que, durante um episódio de calor intenso, visitantes e residentes tenham acesso gratuito a lugares onde possam recuperar do esforço, descansar e hidratar-se. Água potável, zonas de repouso, sombra e condições térmicas mais estáveis fazem parte da resposta.

A criação destes espaços introduz uma mudança importante na própria experiência turística. Num destino sujeito a temperaturas extremas, saber onde encontrar conforto pode tornar-se tão relevante como conhecer os monumentos, os restaurantes ou os percursos pedestres.

A sombra no planeamento turístico

O programa não se limita aos espaços interiores climatizados. As orientações do Turismo de Portugal incluem também medidas que podem transformar o espaço urbano, como zonas de ensombramento, vegetação, melhoria do mobiliário urbano e outras soluções capazes de reduzir a exposição ao calor.

Conhecer uma vila alentejana já não é apenas uma questão de passear. É preciso saber onde parar, beber água e recuperar do calor. Foto de Castelo de Vide: Pedro Paulo Palazzo, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons
Conhecer uma vila alentejana já não é apenas uma questão de passear. É preciso saber onde parar, beber água e recuperar do calor. Foto de Castelo de Vide: Pedro Paulo Palazzo, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons

Uma praça com árvores, um jardim acessível ou um espaço de descanso protegido deixam de ser apenas elementos agradáveis, assumindo uma função de segurança durante os períodos mais exigentes do verão.

No interior do país, essa adaptação ganha particular importância. A própria Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo considera a expansão da rede estratégica para reforçar a competitividade do destino, sobretudo nos meses de maior calor.

Uma rede que vai continuar a crescer

Os 18 locais atualmente certificados são apenas o início. O Turismo de Portugal abriu, em agosto, um aviso específico para apoiar a criação e qualificação destes espaços, integrado no programa Crescer com o Turismo. A dotação é de um milhão de euros e as candidaturas destinam-se a câmaras municipais e juntas de freguesia. O incentivo é não reembolsável e pode cobrir até 80% das despesas elegíveis, com um limite de 75 mil euros por candidatura.

A rede nacional pretende, assim, reunir diferentes tipos de resposta num mesmo sistema, com localização dos espaços numa plataforma própria e articulação entre municípios, operadores turísticos e outras entidades.

A mudança é mais profunda do que parece. Durante muito tempo, o bom tempo foi apresentado como uma vantagem competitiva do turismo português. À medida que os episódios de calor extremo se tornam mais intensos, os destinos começam a ter de garantir algo mais.

Em destinos sujeitos a calor extremo, saber onde encontrar conforto pode ser tão importante como identificar monumentos, restaurantes ou percursos pedestres. Foto: Município de Mourão
Em destinos sujeitos a calor extremo, saber onde encontrar conforto pode ser tão importante como identificar monumentos, restaurantes ou percursos pedestres. Foto: Município de Mourão

Não basta oferecer um lugar para passar o verão. É preciso criar condições para que seja possível vivê-lo com segurança. E talvez essa seja uma das mudanças mais discretas que as alterações climáticas estão a trazer ao turismo. O conforto térmico está a deixar de ser apenas uma comodidade e a fazer parte da infraestrutura de um destino preparado para enfrentar fenómenos meteorológicos extremos.

Referência da notícia

Turismo de Portugal. Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool – Boas práticas.
Turismo de Portugal. Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool – Apresentação.