Vindima: o que a meteorologia de agosto já diz sobre a colheita de setembro

A data da vindima não se decide em setembro, decide-se agora. O calor destas semanas, as noites e a chuva que cair até ao fim do mês já estão a escrever o perfil do vinho deste ano.

Uvas tintas prontas para vindimar, com o perfil já definido pelo calor e pelas noites das semanas anteriores.
Uvas tintas prontas para vindimar, com o perfil já definido pelo calor e pelas noites das semanas anteriores.

Há uma pergunta que se repete todos os anos por esta altura, do Peso da Régua a Reguengos de Monsaraz: quando é que se começa a vindimar?

A resposta não está no calendário, está no tempo que fizer nas semanas anteriores. As uvas não amadurecem por data, amadurecem por acumulação de calor, de luz e de água, e é agosto que faz esse trabalho quase todo.

A conta começa no pintor

O momento a partir do qual se conta tudo é aquele em que as uvas mudam de cor e amolecem. Nas castas tintas passam de verde a arroxeado, nas brancas ficam translúcidas e amareladas.

Pintor- É a fase em que o bago deixa de crescer e começa a amadurecer. Para de acumular ácidos e passa a acumular açúcares, muda de cor e amolece. Marca o início da última etapa do ciclo e é a partir daqui que se estima a data da colheita.

Em condições normais, entre o pintor e a vindima passam cerca de quarenta a cinquenta dias, conforme a casta e a região. Se este ano o pintor foi cedo, a colheita será cedo. Mas é o tempo de agosto que faz esse intervalo encurtar ou alongar.

O calor não acelera sempre a maturação

Até certo ponto, mais calor significa maturação mais rápida. A videira trabalha melhor, acumula açúcar mais depressa e a colheita antecipa-se. É o que explica as vindimas cada vez mais cedo dos últimos anos.

Só que acima de um certo limiar o efeito inverte-se. Com temperaturas muito altas, a planta fecha-se para se proteger e praticamente deixa de fabricar açúcar. Os bagos continuam a perder água pelo sol, mas já não recebem nada de novo.

Num calor extremo, o grau sobe porque o bago desidrata, não porque a planta trabalhou. É concentração, não é maturação.

A diferença é enorme na prática. Analisa-se o açúcar, o valor está alto, decide-se vindimar, e depois o vinho sai desequilibrado, com muito álcool e taninos verdes. Nesses anos, o açúcar mente sobre o estado real da uva, e a prova do bago vale mais do que o refratómetro.

As noites contam tanto como os dias

Esta é a parte que quase ninguém olha na previsão, e é decisiva. Durante a noite a planta respira e gasta parte daquilo que produziu de dia, incluindo os ácidos que dão frescura ao vinho. Quanto mais quente for a noite, mais ácido se perde.

O que aconteceu em agosto

O que esperar na vindima

Decisão

Calor forte e sem chuva

Colheita antecipada, mais álcool, menos acidez

Antecipar a data e provar os bagos

Noites frescas

Boa acidez e mais aroma

Manter a data prevista

Noites acima dos 20 ºC

Acidez baixa, vinhos moles

Antecipar a colheita

Seca severa e prolongada

Maturação parada e bagos murchos

Esperar não resolve, avaliar caso a caso

Chuva forte no fim do mês

Bagos inchados, diluição e podridão

Vigiar os cachos e não adiar

Como o tempo que fez em agosto influencia a vindima. Fonte: elaboração própria.

Por isso é que as regiões com grande diferença entre a máxima do dia e a mínima da noite dão vinhos mais frescos e mais aromáticos, mesmo com verões quentes. É o caso de zonas como Amarante ou Anadia. Uma série de noites acima dos 20 ºC em agosto é o aviso de que a acidez vai ficar curta. Na tabela abaixo é possível avaliar de que forma o tempo que fez/faz em Agosto influencia o sucesso da vindima.

A chuva das últimas semanas é a variável que muda tudo

Uma chuvada moderada depois de um agosto seco costuma ser bem-vinda. Desbloqueia a planta, permite acabar a maturação e ainda pode salvar um ano difícil.

Cachos em maturação na vinha, quando as máximas do dia e as mínimas da noite decidem o resultado.
Cachos em maturação na vinha, quando as máximas do dia e as mínimas da noite decidem o resultado.

O problema é o excesso. Uma parreira que passou semanas com sede absorve água de repente e os bagos incham. Diluem o açúcar, ganham pressão e a película racha. A partir daí é uma questão de dias até aparecerem as podridões, sobretudo se as noites forem húmidas.

É por isso que, quando se anuncia chuva forte a poucos dias da colheita, a decisão mais comum é vindimar antes. Perde-se algum grau, mas evita-se perder o cacho inteiro.

A hora de colher também é meteorologia

Fica um último conselho que faz mais diferença do que parece e que raramente se explica a quem tem uma parreira em casa.

Colha de madrugada ou logo ao nascer do sol. Uma uva apanhada às sete da manhã pode estar a 16 ºC, enquanto às três da tarde chega facilmente aos 30 ºC. Uma uva quente entra em fermentação descontrolada, perde aromas e oxida muito mais depressa a caminho de casa.

Nas próximas semanas, olhe para a previsão da sua zona e repare em três coisas: as máximas, para saber se a planta está a trabalhar ou parada, as mínimas, para perceber que acidez vai sobrar, e a probabilidade de chuva, que é a única capaz de mudar tudo em vinte e quatro horas.