Sementeiras de agosto em Portugal: as hortícolas que deve semear já para colher no outono
Ainda estamos a apanhar tomate e já é altura de pensar no outono. Agosto é o mês de semear as hortícolas de inverno, mas há um pormenor que faz falhar muita gente: o calor do solo.

Há uma coisa curiosa nas hortas. Enquanto andamos entretidos com o tomate e o pimento, a horta do outono já se está a decidir. O que se semeia agora é o que vai dar à mesa entre novembro e fevereiro. Quem deixa para setembro colhe menos, e colhe mais tarde.
E é aqui que entra o calor. Em Évora, Beja ou Castelo Branco, a terra descoberta e seca passa facilmente dos 45 ºC à superfície a meio da tarde. A semente sente isso. E há sementes que, com este calor, se recusam mesmo a nascer.
As hortícolas que ainda vão a tempo este mês
As couves são as rainhas desta altura. O repolho, o brócolo, a couve-flor e a couve-galega semeiam-se em viveiro ao longo de todo o mês e vão para a terra quatro a cinco semanas depois, quando já têm quatro a seis folhas. Com elas seguem as alfaces, os nabos, as cenouras, as acelgas e, já no fim de agosto, os espinafres.
No litoral norte, de Viana do Castelo ao Porto, o calor é mais brando e há margem para semear durante todo o mês. No interior sul compensa esperar pela última semana. Em terras altas, como Bragança ou a Guarda, o outono chega cedo, e semear tarde de mais deixa as plantas sem tempo para crescer antes do frio.
Espécie | Temperatura ideal da terra | Deixa de nascer acima de | Como semear em agosto | Colheita |
|---|---|---|---|---|
Couves (repolho, brócolo, couve-flor) | 20 a 30 ºC | 35 ºC | Viveiro, todo o mês | Nov. a fev. |
Alface | 15 a 20 ºC | 25 a 28 ºC (varia com a variedade) | Viveiro ou local, ao fim da tarde | Out. a dez. |
Nabo | 15 a 30 ºC | 35 ºC | Direto no local | Out. a nov. |
Cenoura | 20 a 25 ºC | 35 ºC | Direto, com a terra sempre húmida | Nov. a jan. |
Acelga | 15 a 25 ºC | 30 ºC | Viveiro ou local | Out. a jan. |
Espinafre | 10 a 20 ºC | 25 a 30 ºC | Direto, na última semana | Nov. a fev. |
| Fonte: Elaboração própria a partir de valores de referência para Portugal continental. | ||||
Acima consta uma tabela com temperaturas referentes à terra, à profundidade a que fica a semente.
Viveiro ou sementeira direta? A resposta está na raiz
Esta é uma dúvida clássica de quem começa, e a resposta está debaixo da terra. As couves, as alfaces e as acelgas criam raízes novas com facilidade, por isso não se importam nada de mudar de casa. Ganham em ser criadas em viveiro, onde é bem mais fácil dar-lhes sombra e água nos primeiros dias.
A cenoura, o nabo e o espinafre são outra história. Fazem uma raiz principal a direito, e é justamente essa raiz que vamos comer. Se ela se magoar no transplante, sai torta ou aos ramos, como toda a gente já viu acontecer às cenouras. Estas semeiam-se sempre no sítio onde vão ficar.
Vale ainda a pena semear aos poucos, em lotes de quinze em quinze dias. Assim, se uma vaga de calor estragar uma sementeira, a seguinte compensa.
O calor da terra é o verdadeiro inimigo
Quando olhamos para a previsão, o que lá está é a temperatura do ar, medida a cerca de dois metros do chão. A semente não vive lá em cima. Vive no primeiro centímetro de terra, onde o sol bate direto e onde os valores são bastante mais altos.
Na alface isto começa entre os 25 e os 28 ºC, conforme a variedade, e há alfaces próprias para semear no verão que aguentam melhor o calor. Há ainda um pormenor pouco conhecido: a semente de alface precisa de luz para nascer. Com tempo fresco quase não se nota, mas com calor essa exigência aperta bastante.
Uma semente enterrada a três centímetros numa terra quente junta as duas coisas que a impedem de nascer, o calor a mais e a escuridão. E é sempre por esta altura que se ouve a mesma frase: "estas sementes já não prestam". Quase sempre as sementes estavam boas. Errada estava a altura em que foram semeadas.
Como semear com trinta graus e não perder as sementes
Semeie ao fim da tarde e regue bem o rego antes de lá deitar a semente. Não é superstição. A água aquece devagar e, ao evaporar, rouba calor à terra, por isso um solo húmido aquece menos durante o dia e arrefece mais depressa durante a noite.
Depois, tape. Uma rede de sombra, um pano fino ou uma camada leve de palha chegam para cortar o sol até as plantinhas romperem a terra.

Há ainda o erro que mais se comete com as melhores intenções, que é enterrar a semente à procura de frescura. A regra é simples: a semente fica coberta com duas a três vezes a sua própria grossura, o que na alface e na cenoura dá meio centímetro. A frescura vem de tapar e de regar, nunca de enterrar.
Quando o tempo não ajuda, dê a volta
Se a semente não quer nascer com o calor que está lá fora, ponha-a a nascer dentro de casa. Sementes entre duas folhas de papel de cozinha húmido, tudo dentro de uma caixa fechada, num sítio fresco, com 15 a 18 ºC. Dois a três dias depois já se vê a primeira raiz a espreitar.
É nessa altura que vão para a terra, com jeito para não partir essa raiz, que ainda mal tem um ou dois milímetros. A parte difícil já aconteceu à temperatura certa.
Antes de marcar o dia, espreite a previsão para a sua zona e procure a janela com máximas mais baixas e algum céu encoberto. Três ou quatro graus a menos parecem pouco, mas na alface são a diferença entre um tabuleiro cheio e um tabuleiro às manchas.