Os cientistas deixaram este campo agrícola intocado e milhares de orquídeas surgiram

Um campo agrícola abandonado transformou-se num prado de flores silvestres em pouco mais de uma década; a diversidade de plantas duplicou e milhares de orquídeas surgiram naturalmente.

Algo tão simples como deixar a terra "descansar" deu origem a um campo repleto de flores. Imagem de Rick Wunderle por Pixabay
Algo tão simples como deixar a terra "descansar" deu origem a um campo repleto de flores. Imagem de Rick Wunderle por Pixabay

Uma investigação liderada pelo professor Carl Sayer, do Departamento de Geografia da University College London (UCL), descobriu que as terras agrícolas abandonadas podem recuperar naturalmente e transformar-se em prados de flores silvestres com grande diversidade, levantando questões sobre alguns métodos convencionais utilizados na restauração de habitats.

Publicada na revista Restoration Ecology, esta investigação acompanhou as alterações na vegetação ao longo de 11 anos (2011-2022) num campo de dois hectares no norte de Norfolk. As atividades agrícolas no local cessaram após a última colheita, em 2005. Com exceção de um corte anual tradicional de feno, permitiu-se que o campo recuperasse, em grande parte, sem intervenção.

Terra agrícola transforma-se em prado de flores silvestres

Num período de 10 a 15 anos, o antigo campo de cultivo transformou-se num prado de flores silvestres rico em espécies. O número e a variedade de plantas aumentaram com o tempo, incluindo espécies raras na região, como a orquídea-do-pântano (Dactylorhiza praetermissa), a Carex paniculata (uma espécie de ciperácea), a Rhinanthus minor (conhecida como "yellow rattle") e a Centaurium erythraea (centáurea-menor).

Será mais eficiente permitir que os prados se reestruturem sozinhos, sem ajuda humana?
Será mais eficiente permitir que os prados se reestruturem sozinhos, sem ajuda humana?

Os resultados questionam a suposição comum de que a restauração de áreas de pastagem ricas em espécies exige necessariamente misturas comerciais de sementes ou outras medidas dispendiosas. Em vez disso, os investigadores sugerem que permitir que os processos ecológicos naturais ocorram pode restaurar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, preservar a diversidade genética das plantas já adaptadas à área local.

As descobertas surgem numa altura em que os governos de todo o Reino Unido e da Europa procuram formas eficazes de restaurar a biodiversidade em vastas áreas de antigas terras agrícolas. Os prados ricos em espécies oferecem habitats importantes para os insetos polinizadores, aves e mamíferos. Podem também fortalecer a resiliência dos ecossistemas e ajudar as paisagens a adaptarem-se às alterações climáticas.

Acompanhar a recuperação natural do prado ao longo de 11 anos

Os estudos ecológicos de longo prazo que examinam a restauração natural dos prados são invulgares, uma vez que dependem de uma monitorização consistente ao longo de muitos anos.

Durante o tempo de estudo, o número de espécies duplicou. Imagem de Hans por Pixabay
Durante o tempo de estudo, o número de espécies duplicou. Imagem de Hans por Pixabay

Este estudo centrou-se no "Sayer's Meadow" (Prado de Sayer), em Bodham, no norte de Norfolk. O terreno pertence a Derek Sayer, pai e coautor do professor Sayer. A cada dois ou três anos, o professor Sayer e o seu colaborador Pete Robinson realizavam levantamentos detalhados da vegetação. Registavam todas as espécies de plantas identificadas no prado e monitorizavam as alterações em parcelas de amostragem permanentes.

Durante o período de estudo, o número médio de espécies de plantas encontradas em cada parcela de amostragem duplicou. Este número passou de cerca de 10 espécies, em 2011, para quase 20, em 2022. À medida que o prado se desenvolvia, milhares de orquídeas instalaram-se naturalmente. As populações de Rhinanthus minor (conhecida em inglês como "yellow rattle") também aumentaram. Ambas são consideradas indicadores de uma restauração bem-sucedida do prado.

A vida selvagem pode ter ajudado no regresso das plantas

Os investigadores acreditam que algumas das plantas mais invulgares do local podem ter chegado sem intervenção humana, possivelmente transportadas ou dispersas pela vida selvagem, como os veados. O aparecimento destas plantas realça a capacidade de regeneração das paisagens quando os processos ecológicos naturais dispõem de tempo suficiente para atuar.

Uma abordagem mais simples para a restauração da biodiversidade

A investigação mostra como os estudos geográficos podem ajudar a definir estratégias práticas para restaurar paisagens degradadas. O trabalho fornece evidências de que a recuperação conduzida pela natureza pode contribuir significativamente para as metas de restauração da biodiversidade, reduzindo, ao mesmo tempo, os custos e a complexidade associados à recuperação da saúde ecológica das terras degradadas.

Referência da notícia

Sayer, C., Robinson, P., Sayer, D., et al. No need to seed: restoring species-rich grassland on former arable fields by natural regeneration.