Míldio da videira: porque é que uma trovoada de agosto pode reacender a doença

Depois de um verão seco, parece que a doença desapareceu da vinha. Basta uma tarde de trovoada a poucas semanas da vindima para o fungo voltar a trabalhar, e desta vez o prejuízo é maior.

Nas folhas adultas, os ataques tardios aparecem como manchas irregulares que se confundem com o envelhecimento normal.
Nas folhas adultas, os ataques tardios aparecem como manchas irregulares que se confundem com o envelhecimento normal.
Rosa Moreira
Rosa Moreira 7 min

Em agosto, a vinha costuma dar descanso a quem a trata. As uvas estão a mudar de cor, o calor aperta e há semanas que ninguém vê uma mancha nova numa folha. É natural pensar que o míldio ficou para trás, lá na primavera.

Só que o fungo não desapareceu. Ficou apenas à espera de água, e uma trovoada de fim de tarde chega para lhe dar tudo aquilo de que precisa, seja em Peso da Régua, em Amarante ou em Anadia.

Porque é que a doença parece adormecer no verão

O míldio não pede muito, mas é exigente na ordem das coisas. Precisa de água líquida sobre a folha durante várias horas seguidas e de temperaturas moderadas enquanto isso dura. É a chuva que lhe abre a porta e é a humidade da noite que lhe permite continuar o trabalho.

Num agosto normal falta-lhe exatamente isso. Não chove, as noites são secas e as tardes passam facilmente dos 35 ºC, valores a que os esporos se degradam depressa. O fungo não morre. Fica parado, dentro dos tecidos que já infetou, à espera da próxima oportunidade.

Regra dos três dez- É a forma clássica de prever o arranque do míldio na primavera. As primeiras infeções tornam-se prováveis quando se juntam três condições: rebentos com pelo menos dez centímetros, temperatura acima de dez graus e uma chuvada de pelo menos dez milímetros.

O que quase nunca se diz é que a mesma lógica se aplica em pleno verão. Se a chuva voltar e a temperatura descer para valores amenos, o ciclo recomeça, esteja-se em maio ou em agosto.

O que uma trovoada traz consigo

Uma trovoada de verão não é só chuva. É um conjunto de mudanças que, juntas, criam a janela perfeita para uma nova infeção. Na tabela abaixo é possível analisar os principais impactos da trovoada na vinha.

O que a trovoada traz

O que provoca na vinha

Quando se nota

Chuva forte

Água livre na folha, indispensável à infeção

Nas horas seguintes

Descida da temperatura

Aproxima o ambiente do ideal do fungo

Um a três dias depois

Noites húmidas

Favorecem a esporulação na página inferior da folha

Quatro a cinco dias depois

Granizo

Feridas nos bagos, porta aberta a podridões

De imediato

Lavagem dos tratamentos

Retira a proteção aplicada antes da chuva

Acima de 20 a 25 mm

Impactos da trovoada na vinha. Fonte: elaboração própria

Com temperaturas entre os 20 e os 25 ºC, o período que vai da infeção ao aparecimento dos sintomas é curto, à volta de quatro a cinco dias. Ou seja, aquilo que uma trovoada de sábado provoca só se torna visível na quarta ou na quinta-feira seguinte. Quem só olha para a vinha no dia a seguir à chuva conclui que não aconteceu nada.

Onde procurar, e o que se vê nesta altura do ano

Os sintomas de agosto não são iguais aos da primavera. Nas folhas adultas já não aparece aquela mancha de óleo bem redonda, mas sim um mosaico de manchas pequenas e angulosas, limitadas pelas nervuras, com um aspeto amarelado que se confunde facilmente com envelhecimento normal.

O sítio certo para olhar são as folhas novas dos netos, aqueles rebentos secundários que crescem no topo. São tecidos jovens, tenros e desprotegidos, porque nasceram depois do último tratamento, e é aí que o fungo se instala primeiro.

As netas são folhas novas nascidas depois do último tratamento. É por isso que a doença aparece sempre no topo da planta e não em baixo.
Uma videira que perde a folhagem antes do tempo deixa de alimentar os cachos e chega ao inverno sem reservas.
Uma videira que perde a folhagem antes do tempo deixa de alimentar os cachos e chega ao inverno sem reservas.

Nos cachos, o cenário muda com a fase. Depois do pintor, o bago em si torna-se muito mais resistente à infeção direta. O que continua vulnerável é o engaço, a estrutura que segura os bagos. Se o fungo entra por aí, os bagos secam e murcham a partir do pedúnculo, sem qualquer mancha à superfície, o que costuma deixar toda a gente sem perceber a causa.

O prejuízo maior pode não ser nesta colheita

Uma vinha que perde as folhas em agosto deixa de ter fábrica para acabar o trabalho. As uvas ficam com menos açúcar, amadurecem de forma desigual e o vinho ressente-se.

Mas o problema mais sério aparece só no ano seguinte. É nesta fase final do ciclo que a planta acumula reservas nas raízes e no lenho, e que os sarmentos amadurecem para aguentar o inverno. Uma desfolha precoce corta esse processo a meio, e o resultado vê-se na primavera seguinte, num abrolhamento fraco e desigual.

Se decidir tratar, há um cuidado que se sobrepõe a tudo o resto nesta altura: o intervalo de segurança. Faltando poucas semanas para a vindima, só se pode usar aquilo que respeite o prazo entre a aplicação e a colheita. É informação obrigatória no rótulo, e não é negociável.

E antes disso, olhe para a previsão. Depois de uma trovoada, vale a pena acompanhar a humidade e as mínimas dos dias seguintes. Se as noites ficarem húmidas e as temperaturas amenas, o ciclo vai completar-se. Se voltar o calor seco de agosto, provavelmente ficou por ali.