Investigadores portugueses criam método para detetar fraudes na comercialização do arroz

Equipa do ITQB-NOVA identificou assinaturas DNA de 22 variedades de arroz. A investigação irá ajudar a combater a falsificação e a melhorar a genética de espécies cultivadas em Portugal e na Europa.

Equipa portuguesa desenvolveu um método mais célere e menos dispendioso de investigar fraudes alimentares na comercialização do arroz. Foto: Adobe Stock
Equipa portuguesa desenvolveu um método mais célere e menos dispendioso de investigar fraudes alimentares na comercialização do arroz. Foto: Adobe Stock

As origens e a variedades do arroz que consumimos nem sempre correspondem ao que está no rótulo. Com o aumento da procura por opções exóticas e aromáticas, como basmati, jasmim ou thai, e as dificuldades de produção agravadas pelas alterações climáticas, o risco de fraudes alimentares é cada vez maior, preocupando tanto as autoridades como os consumidores.

A fraude alimentar, segundo a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), é um ato intencional de enganar consumidores e obter lucro, por meio da adulteração, falsificação ou rotulagem incorreta de alimentos.

Ao nível da economia mundial, estima-se que a prática tenha um custo anual de cerca de 50 mil milhões de euros e que 10% dos produtos alimentares colocados no mercado estejam adulterados, de acordo com dados da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar.

Combater o crime com a genética vegetal

No caso do arroz pode estar em causa a mistura de graus de qualidade inferior ou a comercialização de espécies não certificadas e sem o cumprimento das exigências legais. As vendas online são um fator de preocupação acrescido, que implica maiores esforços na fiscalização e atenção por parte dos consumidores.

O arroz que chega à nossa mesa nem sempre é o que o rótulo promete e, sendo os portugueses os maiores consumidores europeus, este é um tema da maior importância.

As fraudes levam os consumidores a pagar mais por produtos que não correspondem ao anunciado, sendo sobretudo uma forma desleal de concorrer com os restantes produtores que cumprem com todas as normas legais e de segurança alimentar.

Os investigadores do ITQB NOVA – Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade NOVA de Lisboa – criaram, por isso, ferramentas inovadoras para lidar com este fenómeno.

Os investigadores do ITQB NOVA identificaram dois grandes grupos e cinco assinaturas genéticas nas variedades de arroz cultivadas na Europa. Foto: Adobe Stock
Os investigadores do ITQB NOVA identificaram dois grandes grupos e cinco assinaturas genéticas nas variedades de arroz cultivadas na Europa. Foto: Adobe Stock

O estudo, publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, está focado na análise genética de variedades de arroz comercializadas na Europa. A equipa de biotecnólogos, liderada por Margarida Oliveira, sequenciou o genoma de 22 variedades consideradas de elevado valor.

Através da análise de pequenas variações genéticas, conhecidas como Polimorfismos de Nucleótido Único (SNP), foi possível identificar dois grandes grupos genéticos e definir cinco assinaturas de DNA capazes de distinguir essas variedades.

Uma solução mais simples e acessível

O método é apresentado como uma alternativa mais económica e também menos complexa de identificar variedades sem ter de comparar a qualidade, as espécies e os tipos de arroz com recurso a extensos painéis genéticos que implicam processos morosos e dispendiosos.

O estudo genético das variedades portuguesas permitiu descobrir semelhanças impressionantes entre o maçarico e o basmati. Foto: Pixabay
O estudo genético das variedades portuguesas permitiu descobrir semelhanças impressionantes entre o maçarico e o basmati. Foto: Pixabay

Entre as variedades analisadas, vinte tiveram o seu genoma sequenciado pela primeira vez. Os dados revelaram, por exemplo, que a variedade portuguesa maçarico apresenta notáveis semelhanças genéticas com o arroz basmati, um dado que, segundo os investigadores, poderá contribuir para a valorização da produção nacional.

“Ao conhecermos melhor a relação genética destas variedades e as assinaturas que as distinguem, podemos não só detetar a fraude alimentar, mas também desenvolver arroz mais adaptado às condições mediterrânicas.”
Hugo Rodrigues, estudante de doutoramento e coprimeiro autor.

Além da aplicação imediata na certificação e combate à fraude, o estudo abre portas a outras possibilidades. Os dados agora públicos permitem identificar marcadores genéticos associados a características agronómicas relevantes, como a resistência à seca ou a qualidade do grão.

O novo método abre também caminho para o melhoramento genético do arroz às condições climáticas do Mediterrâneo. Foto: Adobe Stock
O novo método abre também caminho para o melhoramento genético do arroz às condições climáticas do Mediterrâneo. Foto: Adobe Stock

Trata-se, no fundo, de informação que passa a estar disponível e que poderá vir a orientar estratégias de melhoramento genético, apoiando ainda o desenvolvimento de variedades de arroz de maior qualidade e mais bem-adaptadas às condições ambientais.

A nova ferramenta aplicada em casos reais

Os resultados da investigação, aliás, já estão a ser utilizados no projeto europeu TRACE-RICE, coordenado pela investigadora Carla Brites, do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, que conta com a participação do ITQB NOVA.

A iniciativa visa implementar ferramentas economicamente acessíveis e ambientalmente seguras para garantir a rastreabilidade e a autenticidade na produção de arroz na região do Mediterrâneo.

Referências da notícia

Hugo M. Rodrigues, M. Beatriz Vieira, Pedro M. Barros & M. Margarida Oliveira. Whole-genome polymorphisms and relatedness of rice varieties circulating in the Mediterranean market. Scientific Reports

Que variedades de arroz estamos a consumir? A resposta está nos genes. ITQB NOVA – Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade NOVA de Lisboa