Descubra por que o banco de sementes português é um dos melhores do mundo
No Banco Português de Germoplasma Vegetal semeia-se o futuro através da preservação de mais de 40 mil plantas tradicionais da agricultura portuguesa.

Na quinta de São José, em São Pedro de Merelim, no município de Braga, o edifício do Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV) é discreto e indistinto. Por fora, nada o diferencia de outras instituições públicas. O seu interior, porém, conserva uma das mais valiosas coleções de espécies cultivadas do mundo, sendo o único lugar do país onde se preserva toda a história da agricultura portuguesa.
Mais de 150 espécies e 90 géneros de cereais, plantas aromáticas e medicinais, fibras, forragens, pastagens e culturas hortícolas estão aqui documentados, assegurando a variedade biológica e a produção agrícola sustentável, no presente e no futuro.
Uma missão vital para a biodiversidade agrícola
O BPGV foi criado em 1977 e está sob a responsabilidade do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), tutelado pelo Ministério da Agricultura. A sua missão passa por recolher, conservar, caracterizar, documentar e valorizar recursos genéticos, preservando espécies autóctones e contribuindo para políticas de proteção da biodiversidade.

Trata-se de uma das maiores infraestruturas de conservação de recursos genéticos do mundo. Distribuído por dois andares e 1 900 metros quadrados, o banco integra quatro câmaras de conservação e duas de conservação in vitro.
No total, reúne 44 752 acessos, abrangendo 255 espécies e 143 géneros de plantas cultivadas, silvestres e seus parentes próximos, conservados sob a forma de sementes e propagação vegetativa.
É também aqui que se encontra a maior coleção de milho do mundo. O BPGV integra ainda o grupo restrito de cerca de 170 bancos com mais de 10 mil variedades conservadas, posicionando-se entre os 10% mais relevantes a nível global.
As coleções resultam de missões de colheita realizadas junto dos agricultores ou na natureza. Mas é nos laboratórios do edifício que ocorre todo o processo de conservação das sementes e das plantas.
Os grãos, depois de recolhidos, são selecionados a dedo. A peneira manual é a única forma de descartar os embriões danificados. A triagem é minuciosa, ficando-se apenas com os melhores exemplares para aumentar as probabilidades de germinação.

Seguem-se a limpeza e a análise da humidade das sementes, que determinarão o tempo de seca necessário para garantir a conservação. Essas são as etapas que antecedem a pesagem, o embalamento e o percurso da semente até às câmaras de frio.
Mais tarde, no laboratório de biologia molecular, são avaliadas a integralidade e variabilidade genética das coleções. Trata-se, no fundo, de uma ferramenta usada para replicar o DNA das plantas. Aqui também se faz a melhoria genética das espécies, procurando garantir a sua adaptabilidade à seca e resiliência a pragas e doenças.
Qualquer agricultor pode ter acesso a essas sementes geneticamente melhoradas. As amostras cedidas são sempre nativas da região onde vão ser cultivadas e as únicas condições exigidas são a obrigação de multiplicar a colheita e devolver ao banco igual quantidade de sementes que foram requisitadas.
A delicadeza da conservação in vitro
Para espécies que não se conservam por sementes, o percurso é diferente. O laboratório de germinação está focado no controlo de qualidade da semente. Os grãos são lavados e desinfetados e colocados em caixas nas estufas até germinarem.

As plântulas são depois conservadas in vitro em câmaras de crescimento, proporcionando as condições ideais para crescerem. Assim que atinge alguma dimensão, o meristema, tecido vegetal que permite à planta crescer, é isolado e conservado em criopreservação para assegurar a continuidade da espécie a longo prazo.
A investigação é, portanto, um dos pilares do BPGV, sendo o trabalho desenvolvido nos laboratórios e em campo reconhecido internacionalmente. Não é por acaso que o Banco Português de Germoplasma Vegetal se tornou, inclusive, um dos principais doadores da Reserva Mundial de Sementes construída no Ártico, para fazer face a eventuais catástrofes nucleares ou ambientais.

Ao longo de quase cinquenta anos, as instalações da quinta de São José desempenharam um papel crucial na manutenção da biodiversidade agrícola portuguesa. A conservação rigorosa das coleções genéticas permitiu que a diversidade de espécies cultivadas no país permanecesse intacta, assegurando o legado genético para as gerações futuras e contribuindo para a sustentabilidade da agricultura nacional.
Referência da notícia
Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV). Banco Português de Germoplasma Vegetal.