Descobrem uma “lanterna de fada”, a estranha flor que não faz fotossíntese e está em perigo crítico de extinção
Com menos de vinte exemplares conhecidos, a nova flor descoberta na Malásia está a deslumbrar os botânicos, que alertam para o seu futuro incerto.

Durante anos passou despercebida, escondida debaixo da folhagem das florestas tropicais da Malásia. Só agora é que os cientistas conseguiram descrever formalmente esta flor minúscula, quase invisível e extremamente estranha.
Batizada de Thismia selangorensis, a espécie foi recentemente incluída no registo científico e chama a atenção não só pela sua raridade, mas também por pertencer a um grupo pouco conhecido de plantas chamadas “lanternas de fadas”, do qual já existem outros representantes.
Este novo membro do género Thismia - que inclui cerca de 120 espécies distribuídas em regiões tropicais - desafia algumas das regras mais básicas do mundo vegetal: não é verde, não tem folhas reconhecíveis e não se estica em direção à luz.

Além disso, pertence a um grupo muito raro de plantas que abandonou completamente a fotossíntese. Em vez de produzir o seu próprio alimento a partir da luz solar, como faz a grande maioria do reino vegetal, alimenta-se de fungos que vivem no subsolo.
A estratégia é tão bizarra quanto fascinante. Nas florestas tropicais, as raízes de muitas plantas estão ligadas a redes de fungos microscópicos que ajudam a trocar nutrientes. A Thismia selangorensis insere-se neste sistema e apanha o que precisa sem dar nada em troca. É uma planta micoparasita, totalmente dependente de uma delicada teia invisível.
Este estilo de vida explica o facto de ser tão difícil de encontrar. Durante a maior parte do ano, permanece escondida, reduzida a estruturas subterrâneas. Só quando chega a altura de se reproduzir é que emerge brevemente do solo para mostrar a sua flor. E aí exibe a sua beleza: uma estrutura tubular de cores vivas, com uma forma que faz lembrar uma pequena lanterna ou um objeto saído de um conto de fadas.

A sua forma sofisticada tem uma função muito específica: atrair pequenos insetos florestais, como os mosquitos associados aos fungos. Enganados pela silhueta e pelas cores, entram na flor e colaboram na polinização. Num ambiente onde tudo acontece em miniatura e na semi-obscuridade, todos os pormenores contam.
Um tesouro único e vulnerável
A descoberta da flor ocorreu no estado de Selangor, uma região onde florestas naturais convivem, nem sempre em harmonia, com áreas urbanas e estradas movimentadas. E é aqui que surge o lado mais preocupante da história: a planta é conhecida de muito poucos sítios e ocupa áreas extremamente pequenas. Pode literalmente desaparecer com um passo fora do lugar.
É extremamente frágil. São conhecidos menos de vinte exemplares na natureza, razão pela qual os investigadores a classificaram como Em Perigo Crítico, de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Assim, a descoberta não foi apenas acompanhada de entusiasmo científico, mas também de preocupação. Esta flor não é rara por ser esquiva ou misteriosa, mas porque a sua sobrevivência depende de condições muito específicas: solo intacto, fungos saudáveis, insetos polinizadores e uma floresta que mantenha o seu equilíbrio. A perturbação de uma só peça do sistema é suficiente para provocar o colapso de todo o conjunto.
Para além da sua fragilidade, a Thismia selangorensis é um exemplo de que a biodiversidade nem sempre se expressa de forma grande ou vistosa. Por vezes, os segredos mais importantes estão ao nível do solo, em organismos pequenos e silenciosos, profundamente ligados a redes que ainda só compreendemos em parte.
Referência da notícia
Thismia selangorensis (Thismiaceae): a new mitriform fairy lantern species from Selangor, Malaysia. MY, Gim Siew T, Mat-Tahir MF, Azhar A (2025) PhytoKeys 267: 9-21.