Este país inventou o vinho há milhares de anos, mas continua fora do radar turístico

Entre a Europa e a Ásia, a Geórgia combina história milenar, paisagens de cortar a respiração e uma cultura vínica única que poucos viajantes conhecem.

Continua a ser um dos destinos mais ignorados da Europa. Foto: Unsplash
Continua a ser um dos destinos mais ignorados da Europa. Foto: Unsplash

Nos roteiros, nos feeds ou até nos grupos de amigos do WhatsApp. Há países que aparecem em todo o lado. Depois, há outros que raramente são mencionados.

Geórgia é um deles, mas parece viver confortavelmente fora desse radar. O curioso é que não lhe falta currículo: estamos a falar de um dos lugares mais antigos do mundo na arte de fazer vinho, com provas arqueológicas que recuam a cerca de 6000 a.C. Ainda assim, continua a ser aquele destino que quase ninguém menciona. Isto é, até lá ir.

“O país que inventou o vinho há oito mil anos ainda não aparece nos roteiros de ninguém”, escreveram os autores do blogue ‘Volto Já’.

Geograficamente, a Geórgia também gosta de baralhar expectativas. Fica ali entre a Europa e a Ásia, encaixada entre o Mar Negro e a cordilheira do Cáucaso, a fazer fronteira com países como Turquia, Arménia, Azerbaijão e Rússia. Este posicionamento fez dela, durante séculos, uma espécie de encruzilhada cultural onde tudo passava. O resultado? Um mosaico improvável de influências.

“Tbilisi, a capital, é o resultado visível dessa acumulação: igrejas ortodoxas do século V partilham a silhueta da cidade com mesquitas otomanas, sinagogas, uma catedral católica e um museu de arte moderna que ficaria bem em Berlim. A contradição não incomoda. Faz parte do caráter de um lugar que aprendeu a conter multidões”, lê-se no mesmo artigo, publicado no ‘Sapo’.

O vinho como identidade

No meio deste contraste, há algo que a Geórgia leva particularmente a sério: o vinho.

O vinho é o argumento mais antigo do país. Foto: Unsplash
O vinho é o argumento mais antigo do país. Foto: Unsplash

O país é amplamente reconhecido como o berço da viticultura. Escavações arqueológicas em locais como Gadachrili Gora revelaram vestígios químicos de vinho em recipientes de barro com mais de oito mil anos.

Tudo indica que, muito antes de a escrita existir, já ali se fermentava uva. E não de forma improvisada, mas sim com técnica.

O mais interessante é que este método ancestral continua vivo. Sim, é verdade, a técnica ainda hoje existe e tem nome: qvevri. No fundo, trata-se de grandes ânforas de barro enterradas no solo, onde o vinho fermenta e envelhece.

O método é tão relevante que foi classificado como património cultural imaterial pela UNESCO.

“Um copo de Rkatsiteli laranja, produzido numa adega familiar na região de Kakheti, a leste de Tbilisi, não tem paralelo em qualquer vocabulário convencional de prova.”

E, se o vinho é uma porta de entrada, a comida trata de o convencer a ficar. Pratos como o khinkali, uma espécie de dumpling recheado com carne e caldo, exigem técnica e alguma coragem. Sim, há uma forma certa de os comer. “É o teste de integração informal que todos os visitantes passam mal na primeira tentativa.”

Já o khachapuri, especialmente na versão adjaruli, chega à mesa com queijo derretido, ovo e manteiga num pão em forma de barco.

E depois há a hospitalidade. Não pense que esta é encenada, nem adaptada ao turismo. Faz parte da estrutura social. Numa refeição tradicional, há sempre um tamada, o “mestre dos brindes”, que conduz a conversa, os discursos e, claro, os copos.

Paisagens que ainda surpreendem

Fora da cidade, o país revela-se ainda mais imprevisível. Em poucas horas, passa de vales suaves a montanhas dramáticas. Na região de Kazbegi, por exemplo, a paisagem parece saída de um postal: picos cobertos de neve, ar puro e a silhueta de uma igreja isolada no topo de uma colina.

Um país de contrastes. Foto: Unsplash
Um país de contrastes. Foto: Unsplash

Mais a oeste, regiões como Svaneti guardam torres medievais únicas, construídas para defesa e sobrevivência em tempos difíceis. Hoje, são testemunhos de uma cultura resiliente, e ainda relativamente intacta, longe das multidões.

E depois há o vinho outra vez. Porque lá está, ele está sempre presente. Regiões como Kakheti concentram grande parte da produção, mas o país inteiro é um mosaico de microclimas e castas raras. Feitas as contas, são mais de 500 variedades de uva, muitas exclusivas deste território.

Talvez seja isso que torna a Geórgia tão difícil de encaixar em descrições rápidas. Não é um destino óbvio, nem imediato.

Apesar de tudo o que tem (história, paisagens, gastronomia, vinho), a Geórgia continua fora do circuito turístico de massas. E isso, longe de ser um problema, é precisamente o que a torna especial.

“A Geórgia tem um problema que os seus melhores destinos partilham: é difícil de explicar a quem não foi. A descrição convence menos do que a experiência, o que é a definição de um lugar que vale a pena.”

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